EM “DÍVIDA DE HONRA”, UMA BELEZA BRUTAL

Em atuações excepcionais, Hilary Swank e Tommy Lee Jones – ele também diretor e roteirista – invertem os sinais do Velho Oeste

Em seu canto de Nebraska, em 1854, a fazendeira Mary Bee (Hilary Swank, excelente) é um modelo de autossuficiência, diligência, moral e higiene. Findo o trabalho duro na terra, todos os dias, ela toca notas que só pode ouvir em sua cabeça, usando uma tapeçaria bordada como um piano: Mary Bee vive propondo casamento aos homens das redondezas, mas ninguém quer se casar com uma mulher tão assustadoramente capaz. Tanto, na verdade, que é a única que se dispõe a fazer um dificílimo trajeto de semanas para reconduzir à civilização três mulheres que enlouqueceram com a pobreza, o isolamento e o inverno de Nebraska.

Mary Bee alista como seu ajudante o vagabundo George Briggs (Tommy Lee Jones, também diretor e roteirista, e ator como sempre excepcional), que ela salvou da forca mas que não lhe retribui com gratidão: George é, como todos ali, vítima de uma vida tão brutal que se divorciou de seus sentimentos. Ou quase; no percurso, ele e Mary Bee formarão uma conexão tênue e de desfecho terrível. Como em outro magistral trabalho seu na direção, Três Enterros (2005), Tommy Lee Jones inverte os pontos de vista clássicos do western para desconstruir e rearranjar seus significados. O resultado é de uma beleza devastadora.

(The Homesman, Estados Unidos/França, 2014)

Publicado originalmente na revista Veja em 25/03/2015

BOLA DE NEVE

Em Força Maior, um casal escapa de uma avalanche, mas ela ainda assim ameaça varrer seu casamento

 
Quem sabe como vai reagir numa situação de pânico? Certamente não Tomas, que em Força Maior (Force Majeure, Suécia/Dinamarca/ Noruega/França, 2014) descobre para sua ingrata surpresa que é só a própria pele que lhe ocorre salvar quando o perigo é iminente. Almoçando com a mulher e o casal de filhos pequenos num terraço nos Alpes franceses, Tomas (Johannes Bah Kuhnke), como todos os outros frequentadores, anima-se ao ver que uma das avalanches provocadas por segurança pelo pessoal da estação de esqui começou a desabar ali, juntinho deles. Juntinho demais, talvez: em segundos, a torrente se avoluma e parece sair de controle, descendo a toda a velocidade. Tudo vira um pandemônio. Ebba (Lisa Loven Kongsli) se joga sobre as crianças; Tomas dá no pé. Afinal, vê-se que era alarme falso. O branco total da neve pulverizada vai se desfazendo, e Tomas volta quietinho para a mesa, como se nada tivesse acontecido. A família retoma o almoço, constrangida, mas sem tocar no assunto. O que não significa que o assunto não esteja lá, dominando e transformando sua dinâmica.
O diretor sueco Ruben Östlund, porém, tem vários outros complicadores ainda a somar a essa crise que, sozinha, já seria matéria-prima sensacional. Descobrir que o instinto do marido é resgatar suas luvas e seu iPhone – é isso que mais dói em Ebba – antes de proteger as crianças é um golpe duro para qualquer mulher e qualquer casamento. Que o marido então insista que não fugiu, e é tudo questão de interpretação, é acrescentar injúria ao insulto – mas o fato é que o atônito Tomas já não reconhece a si mesmo. E o que dizer da atitude de Ebba? Quando o casal discute a sós, ela põe panos quentes na briga. Mas se há terceiros presentes ela não perde a chance de puxar a conversa e expor Tomas, cobrando veredictos das testemunhas involuntárias e detend­o-se nos detalhes mais desabonadores.
As crianças instantaneamente passam a espelhar o conflito; desde o início voluntariosas e meio malcriadas, elas viram um tormento de birras e acusações (elas têm a quem puxar: numa cena, Ebba quase dá na cara de outro casal com a barra de sua cadeira no teleférico, mas finge que não fez nada e nem sequer pede desculpas). O dado essencial: pai, mãe e filhos, sem exceção, estão apavorados com a hipótese de que um rompimento seja inevitável. O maior desejo de cada um deles é restaurar o pacto familiar e reinstaurar o equilíbrio original. Só não sabem como desviar-se dos fatos e evitar que a avalanche que não se concretizou termine, afinal, por pegá-los em cheio.
O cinema escandinavo tem uma tradição que é de sua natureza mesmo em investigar a tensão entre o coletivo e o individual, entre a conformidade e a ruptura – uma tensão que existe em qualquer ser humano em estado minimamente civilizado, mas é preponderante em uma sociedade tão fortemente fundada sobre a noção do bem comum e que, embora cada vez mais secular, continua a ser orientada pelos princípios éticos de um protestantismo castiço. Como qualquer outra sociedade ocidental, porém, a escandinava está hoje sujeita a pressões que eram ainda insignificantes nas décadas em que Ingmar Bergman desenhou seu vasto painel da paisagem interior humana: aparência, consumo, a noção do direito à felicidade – do direito a tudo, na verdade –, a correção política e as pequenas e grandes hipocrisias que decorrem dela são novos vetores do comportamento que cineastas como o dinamarquês Thomas Vinterberg, de A Caça, o norueguês Morten Tyldum, de Headhunters, e Ruben Östlund, de Força Maior, tentam agora esquadrinhar.
A quem julgar que o desfecho de Força Maior é reconfortante, pede-se reconsiderá-lo: para chegar a ele, foram necessárias primeiro uma pantomima destinada a aplacar as crianças e depois uma concessão que envolve várias outras pessoas que nada tinham a ver com o pato. Parece inocente, fruto de um anseio natural de preservar a família. O dado perturbador é que, para a preservarem, Tomas e Ebba não podem saber quem são de fato. Têm de manter as aparências – para si mesmos, sobretudo.

Publicado originalmente na revista Veja em 15/03/2015

Lucy

Espirituoso e exuberante, Lucy confirma o faro de Luc Besson para escolher seus atores – aqui, Scarlett Johansson cai como uma luva no papel – e anuncia a melhor fase de sua carreira

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X-Men – Dias de um Futuro Esquecido

Um salto quântico

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EM “CAPITÃO PHILLIPS”, UMA QUESTÃO DE SOBREVIVÊNCIA

Viver até o minuto seguinte, ganhar a vida: todos os significados de sobreviver (além de um mundo de implicações geopolíticas) estão contidos no drama soberbo do diretor Paul Greengrass

Parece impossível que os quatro sujeitos magérrimos e maltrapilhos que vêm num barquinho com motor de popa sejam capazes de resistir às táticas do gigantesco cargueiro Maersk Alabama para repeli-los: jatos d’água, subidas na velocidade, mudanças de curso que geram ondas desestabilizadoras. Mas o que se tem aqui é uma batalha do desespero contra a força bruta, e o desespero ganha. Os vinte homens que compõem a tripulação do Alabama não portam armas e não estão no negócio de fazer guerra; são da Marinha Mercante americana, muitos deles não são tão jovens e estão todos apavorados. Eles sabem que, na sua rota de Omã para o Quênia, passando ao largo da Somália, a pirataria corre solta, à taxa de até centenas de abordagens hostis por ano – e trata-se de uma pirataria menos profissional, por assim dizer, e mais imprevisível e extrema, que aquela que infesta, por exemplo, o Mar da China. O pessoal do Alabama, porém, contava com o fato de que desde o século XIX a bandeira americana tem sido garantia contra esse tipo de ataque. Não neste caso. Muse (Barkhad Abdi), Bilal (Barkhad Abdirahman), Najee (Faysal Ahmed) e Elmi (Mahat M. Ali) vêm há dias seguindo o cargueiro capitaneado pelo veterano Richard Phillips (Tom Hanks) e, quanto mais este se mostra um prêmio fora do seu alcance, mais sua determinação cresce. Eles são, todos os quatro, miseráveis. Na região da Somália em que moram, qualquer homem está sujeito ao recrutamento forçado para a pirataria pelos senhores da guerra locais, e recusá-lo está fora de cogitação – é morte certa. Estão em jogo também a honra de se mostrar um bravo e um certo sentimento nacional de que a pirataria é um meio de extrair retribuição pelo estrago que os pesqueiros industriais e a descarga ilegal de detritos de grandes navios infligiram às comunidades somalis de pescadores. A cerca de 400 quilômetros a sudeste do porto somali de Eyl, enfim, as coisas estão bem feias para o Alabama. E vão ficar particularmente feias para o homem que dá título a Capitão Phillips (Captain Phillips, Estados Unidos, 2013), o soberbo filme do diretor Paul Greengrass baseado no relato do próprio Phillips em Dever de Capitão (Editora Intrínseca).

O inglês Paul Greengrass, de 58 anos, um sujeito descabelado e expansivo mas muito discreto e desafeito ao culto à personalidade, pode não ser um nome tão familiar para o público. O público, porém, está muito mais familiarizado do que imagina com o seu estilo propulsivo e agilíssimo. Não só por Greengrass ser o autor de A Supremacia Bourne, O Ultimato Bourne e Voo United 93, mas porque, com esses filmes, ele se tornou o cineasta mais influente da última década. Todo mundo hoje copia seu jeito urgente, enxuto e imediato – e inovador – de fazer ação (exemplo mais notório: a série 007 na sua fase com Daniel Craig). Mas Capitão Phillips demonstra que ninguém sabe usar essas ferramentas com tanto propósito e perícia, e tão decididamente em prol do conteúdo, quanto o próprio Greengrass.

Em miúdos: a captura do Maersk Alabama em abril de 2009, e o subsequente sequestro de seu capitão pelos piratas, que saem com seu refém numa lenta e quase ridícula fuga rumo à costa de seu país em um pequeno salva-vidas cor de laranja, é um desses episódios capazes de encapsular uma vastidão de vicissitudes geopolíticas em uns poucos lances e uns poucos dias. Contrapõe, por exemplo, a pobreza e o desmantelamento acarretados pela longa guerra civil que assola a desde sempre precária Somália, a oposição cultural entre o Ocidente e o mundo muçulmano, o poderio econômico e militar dos Estados Unidos, a ironia de que boa parte da carga do Alabama era humanitária e se destinava em parte à própria Somália, a constatação de que as pessoas violentas não são menos perigosas por sua violência ter razões. (Desde então, mais um ingrediente se juntou a esses: a tripulação do Alabama diz que Phillips convidou ao desastre ao navegar perto demais da costa somali.) Greengrass, porém, resiste como sempre resistiu às tentações da grandiloquência: escolhe novamente um tema de alta octanagem política, mas dispensa o discurso que o cerca. Aqui, só os acontecimentos e os atos dos personagens falam. E por isso mesmo falam com tanta pertinência.

Tom Hanks está no seu melhor como o capitão Richard Phillips: desde a primeira sequência, em que se apronta para embarcar de sua casa no Estado de Vermont rumo ao Alabama, ele evoca a correção e a normalidade mundanas da classe média e os sacrifícios tidos já como corriqueiros que se fazem em nome da família e do trabalho – como passar meses distante de casa, em águas perigosas. Com a mulher, a enfermeira Andrea (Catherine Keener), no carro, a caminho do aeroporto, a conversa descontínua, de frases pequenas, gira em torno dos filhos; a menina está indo bem, o menino talvez não compreenda como a escola pode ser decisiva para seu futuro. Em alto-mar, sob a mira das AK-47 dos piratas, é isso também que o capitão compartilha com o líder do grupo, Muse – a compreensão instintiva de que, marinheiros mercantes e bandidos, eles estão todos ali em serviço, e é preciso negociar pautando-se pelo pragmatismo. Phillips e Muse se equilibram sobre esse estreito território comum que é querer sobreviver primeiro por mais um minuto e depois por quanto tempo a vida possa durar. Mas estão sob a tração exercida por seus mundos opostos, a qual Greengrass exprime apenas visualmente, valendo-se da escala: a lancha frágil e o cargueiro imenso, a magreza dos piratas e o físico confortável da tripulação, o diminuto salva-vidas e as colossais embarcações militares que o vão cercando. E, no centro de tudo, sempre Hanks, o astro, e Barkhad Abdi, o sensacional somali que dirige limusines em Minneapolis e compareceu a um teste aberto de elenco na companhia dos amigos que interpretam seus companheiros de pirataria. Nos filmes de Greengrass, como nas águas do Chifre da África, os mundos mais díspares acabam colidindo, com resultados explosivos.

Publicado originalmente na revista Veja em 13/11/2013

Blog de Cinema e TV da jornalista Isabela Boscov.