EM “CAPITÃO PHILLIPS”, UMA QUESTÃO DE SOBREVIVÊNCIA

Viver até o minuto seguinte, ganhar a vida: todos os significados de sobreviver (além de um mundo de implicações geopolíticas) estão contidos no drama soberbo do diretor Paul Greengrass

Parece impossível que os quatro sujeitos magérrimos e maltrapilhos que vêm num barquinho com motor de popa sejam capazes de resistir às táticas do gigantesco cargueiro Maersk Alabama para repeli-los: jatos d’água, subidas na velocidade, mudanças de curso que geram ondas desestabilizadoras. Mas o que se tem aqui é uma batalha do desespero contra a força bruta, e o desespero ganha. Os vinte homens que compõem a tripulação do Alabama não portam armas e não estão no negócio de fazer guerra; são da Marinha Mercante americana, muitos deles não são tão jovens e estão todos apavorados. Eles sabem que, na sua rota de Omã para o Quênia, passando ao largo da Somália, a pirataria corre solta, à taxa de até centenas de abordagens hostis por ano – e trata-se de uma pirataria menos profissional, por assim dizer, e mais imprevisível e extrema, que aquela que infesta, por exemplo, o Mar da China. O pessoal do Alabama, porém, contava com o fato de que desde o século XIX a bandeira americana tem sido garantia contra esse tipo de ataque. Não neste caso. Muse (Barkhad Abdi), Bilal (Barkhad Abdirahman), Najee (Faysal Ahmed) e Elmi (Mahat M. Ali) vêm há dias seguindo o cargueiro capitaneado pelo veterano Richard Phillips (Tom Hanks) e, quanto mais este se mostra um prêmio fora do seu alcance, mais sua determinação cresce. Eles são, todos os quatro, miseráveis. Na região da Somália em que moram, qualquer homem está sujeito ao recrutamento forçado para a pirataria pelos senhores da guerra locais, e recusá-lo está fora de cogitação – é morte certa. Estão em jogo também a honra de se mostrar um bravo e um certo sentimento nacional de que a pirataria é um meio de extrair retribuição pelo estrago que os pesqueiros industriais e a descarga ilegal de detritos de grandes navios infligiram às comunidades somalis de pescadores. A cerca de 400 quilômetros a sudeste do porto somali de Eyl, enfim, as coisas estão bem feias para o Alabama. E vão ficar particularmente feias para o homem que dá título a Capitão Phillips (Captain Phillips, Estados Unidos, 2013), o soberbo filme do diretor Paul Greengrass baseado no relato do próprio Phillips em Dever de Capitão (Editora Intrínseca).

O inglês Paul Greengrass, de 58 anos, um sujeito descabelado e expansivo mas muito discreto e desafeito ao culto à personalidade, pode não ser um nome tão familiar para o público. O público, porém, está muito mais familiarizado do que imagina com o seu estilo propulsivo e agilíssimo. Não só por Greengrass ser o autor de A Supremacia Bourne, O Ultimato Bourne e Voo United 93, mas porque, com esses filmes, ele se tornou o cineasta mais influente da última década. Todo mundo hoje copia seu jeito urgente, enxuto e imediato – e inovador – de fazer ação (exemplo mais notório: a série 007 na sua fase com Daniel Craig). Mas Capitão Phillips demonstra que ninguém sabe usar essas ferramentas com tanto propósito e perícia, e tão decididamente em prol do conteúdo, quanto o próprio Greengrass.

Em miúdos: a captura do Maersk Alabama em abril de 2009, e o subsequente sequestro de seu capitão pelos piratas, que saem com seu refém numa lenta e quase ridícula fuga rumo à costa de seu país em um pequeno salva-vidas cor de laranja, é um desses episódios capazes de encapsular uma vastidão de vicissitudes geopolíticas em uns poucos lances e uns poucos dias. Contrapõe, por exemplo, a pobreza e o desmantelamento acarretados pela longa guerra civil que assola a desde sempre precária Somália, a oposição cultural entre o Ocidente e o mundo muçulmano, o poderio econômico e militar dos Estados Unidos, a ironia de que boa parte da carga do Alabama era humanitária e se destinava em parte à própria Somália, a constatação de que as pessoas violentas não são menos perigosas por sua violência ter razões. (Desde então, mais um ingrediente se juntou a esses: a tripulação do Alabama diz que Phillips convidou ao desastre ao navegar perto demais da costa somali.) Greengrass, porém, resiste como sempre resistiu às tentações da grandiloquência: escolhe novamente um tema de alta octanagem política, mas dispensa o discurso que o cerca. Aqui, só os acontecimentos e os atos dos personagens falam. E por isso mesmo falam com tanta pertinência.

Tom Hanks está no seu melhor como o capitão Richard Phillips: desde a primeira sequência, em que se apronta para embarcar de sua casa no Estado de Vermont rumo ao Alabama, ele evoca a correção e a normalidade mundanas da classe média e os sacrifícios tidos já como corriqueiros que se fazem em nome da família e do trabalho – como passar meses distante de casa, em águas perigosas. Com a mulher, a enfermeira Andrea (Catherine Keener), no carro, a caminho do aeroporto, a conversa descontínua, de frases pequenas, gira em torno dos filhos; a menina está indo bem, o menino talvez não compreenda como a escola pode ser decisiva para seu futuro. Em alto-mar, sob a mira das AK-47 dos piratas, é isso também que o capitão compartilha com o líder do grupo, Muse – a compreensão instintiva de que, marinheiros mercantes e bandidos, eles estão todos ali em serviço, e é preciso negociar pautando-se pelo pragmatismo. Phillips e Muse se equilibram sobre esse estreito território comum que é querer sobreviver primeiro por mais um minuto e depois por quanto tempo a vida possa durar. Mas estão sob a tração exercida por seus mundos opostos, a qual Greengrass exprime apenas visualmente, valendo-se da escala: a lancha frágil e o cargueiro imenso, a magreza dos piratas e o físico confortável da tripulação, o diminuto salva-vidas e as colossais embarcações militares que o vão cercando. E, no centro de tudo, sempre Hanks, o astro, e Barkhad Abdi, o sensacional somali que dirige limusines em Minneapolis e compareceu a um teste aberto de elenco na companhia dos amigos que interpretam seus companheiros de pirataria. Nos filmes de Greengrass, como nas águas do Chifre da África, os mundos mais díspares acabam colidindo, com resultados explosivos.

Publicado originalmente na revista Veja em 13/11/2013

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