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X-Men – Dias de um Futuro Esquecido

Um salto quântico

Em seu quinto filme, Dias de um Futuro Esquecido, os mutantes X-Men fazem aquilo que todo ser humano comum quer também: reescrever a história em seu favor

Em X-Men – O Filme, naquela que é talvez a cena mais antológica de todos os filmes dos mutantes da Marvel produzidos nos últimos catorze anos, o garoto Erik Lehnsherr revela seu poder único de comandar o metal enquanto atravessa, junto com outros judeus, os portões do campo de extermínio de Auschwitz, em 1944: transtornado pelo medo, Erik faz as barras de ferro se retorcerem, causando um tumulto e funestamente atraindo a atenção dos nazistas para si. O Holocausto, que transformaria Erik no irascível e vingativo Magneto, é uma perfeita encapsulação do tema do encurralamento, alijamento ou aniquilação daqueles que são considerados diferentes e portanto inferiores ou ameaçadores, central a todos os episódios da série – e os ecos desse genocídio reverberam mais fortes do que nunca em X-Men – Dias de um Futuro Esquecido.

Seguindo-se ao intoxicante X-Men – Primeira Classe, de 2011, em que o telepata Professor Xavier e seu melhor inimigo, Magneto, tinham papel insuspeito na Crise dos Mísseis de Cuba, de 1962, este quinto enredo a reunir o grupo de mutantes mais uma vez se dedica a reler a história real à luz da intervenção nela dos X-Men. Agora, está-se em 1973; Estados Unidos e Vietnã negociam o fim da guerra na conferência do Acordo de Paz de Paris. O governo de Richard Nixon, desmoralizado pela necessidade iminente de retirar suas tropas do Sudeste Asiático, encontra-se particularmente vulnerável à influência paranoide de pessoas como Bolivar Trask (Peter Dinklage, o Tyrion Lannister de Game of Thrones). Pesquisador e industrial, Trask identificou a existência de mutantes com habilidades especiais entre a humanidade. Crê que, assim como o Homo sapiens venceu os neandertais na batalha evolutiva, os mutantes agora vencerão o Homo sapiens – a não ser que se comece a implementar seu programa de Sentinelas, robôs que têm eles próprios a capacidade de mudar e se adaptar para combater com vantagem essas criaturas aberrantes. Trask consegue impor sua visão. E, de cinquenta anos à frente, os poucos ­X-Men que restaram do genocídio instaurado com a presença das Sentinelas (o qual resultou na morte ou escravização não só de mutantes, mas de milhões de seres humanos comuns) tentam combinar seus poderes para refazer a história. Especificamente, os velhos Xavier e Erik (Patrick Stewart e Ian McKellen) necessitam que Wolverine (Hugh Jackman) retorne ao tempo da calça boca de sino e da lava lamp para arregimentar a ajuda de seus jovens alter egos (respectivamente, James McAvoy e Michael Fassbender) e impedir que Mystique (Jennifer Lawrence) assassine Trask – evento que, para o Estado-Maior, serve como confirmação das teorias do industrial e sinal verde para o projeto Sentinela.

Que o mais brusco e impaciente de todos os X-Men seja enviado ao passado em missão diplomática é, claro, o toque de humor de Dias de um Futuro Esquecido. O outro elemento de leveza está na entrada de Quicksilver (Evan Peters), um jovem iconoclasta capaz de se mover quase à velocidade da luz e protagonista de um trecho excelente do filme, no qual, com o tempo quase parado, ele caprichosamente ajeita balas de revólver, punhos, mesas e objetos de cozinha para efetuar a bombástica libertação de Magneto de sua prisão no Pentágono (essa, um capítulo à parte, que tem algo a ver com a trajetória errática da bala que matou o presidente John Kennedy em Dallas, em 1963). O tom predominante, porém, é sombrio e apocalíptico. Se no decorrer de sua carreira cinematográfica super-heróis como o Batman do diretor Christopher Nolan ganharam pesados dilemas morais com que lidar, os X-Men já nasceram políticos e engajados nos quadrinhos. Nos três filmes dirigidos por Bryan Singer (os dois primeiros e este aqui), eles são ainda uma representação do impasse existencial entre defender-se ou atacar. E, acima de tudo, são uma ferramenta filosófica: quanto mais do passado se revela, mais ele mudará diante dos nossos olhos.

Lamentável será se essa regra terminar por se aplicar ao próprio Singer. Nas últimas semanas, um advogado entrou com duas acusações de molestamento contra o diretor; seus clientes alegam ter sido coagidos a fazer sexo com ele quando eram menores de idade. O advogado, porém, já sofreu várias sanções de sua entidade de classe e tem reputação muito duvidosa; a coincidência do anúncio com o lançamento do filme levanta suspeita de oportunismo; e, em depoimento que veio à tona na semana passada sob juramento e pena de perjúrio, uma das supostas vítimas declarou que teria de fato inventado tudo. Esse, porém, é o tipo de dúvida que tende a pairar, e, a não ser que consiga efetivamente refutar as acusações, Singer estará sempre sob a sombra delas. Trazer à tona a história que se desconhecia é sempre necessário, por mais terrível que seja o saldo – e ainda não está claro se não seria esse o caso aqui. Já modificar a história real com dados fictícios é uma prática tolerável apenas em fantasias de super-heróis.

Isabela Boscov
Publicado originalmente na revista VEJA no dia 21/05/2014
Republicado sob autorização de Abril Comunicações S.A
© Abril Comunicações S.A., 2014

X-MEN – DIAS DE UM FUTURO ESQUECIDO
(X-Men: Days of a Future Past)
Estados Unidos, 2014
Direção: Bryan Singer
Com James McAvoy, Michael Fassbender, Hugh Jackman, Patrick Stewart, Ian McKellen, Jennifer Lawrence, Peter Dinklage, Evan Peters, Nicholas Hoult, Anna Paquin, Shawn Ashmore, Ellen Pagem, Omar Sy e Josh Helman

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