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Magia ao Luar

A fé dos convertidos

A tese de Woody Allen no ligeiro Magia ao Luar: ninguém é capaz de crer tão completamente quanto um cético

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No palco, o mágico chinês Wei Ling Soo mistifica as plateias das capitais europeias dos anos 20 desaparecendo de dentro de um sarcófago ou fazendo um elefante sumir no ar. Na vida civil, sem a maquiagem nem o figurino de oriental, o inglês Stanley Crawford (Colin Firth) é o inimigo número 1 das ilusões: ma­l-humorado, irritável, pessimista, Stanley acha que a vida não tem sentido algum, e que acreditar, seja no que for, é para os fracos de caráter. Um dos passatempos de Stanley é desmascarar médiuns. Eis então por que, em Magia ao Luar, ele desiste das férias com a noiva que tanto aprecia seu ceticismo para ir visitar, na Côte d’Azur, uma família milionária que nem conhece: informa-lhe seu amigo e também mágico Howard (Simon McBurney) que mãe e filho estão nas garras de uma jovem americana que promete a eles comunicação direta com o patriarca recém-falecido. Howard não conseguiu adivinhar quais os truques por trás da farsa. Uma tarefa sob medida, portanto, para Stanley.

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Ocorre que essa jovem maquiavélica não poderia parecer mais inofensiva. Interpretada por Emma Stone, fazendo excelente uso de seus olhões de boneca, Sophie anda sempre acompanhada da mãe (Marcia Gay Harden), resiste modestamente aos apelos apaixonados do filho milionário (Hamish Linklater) e tem a simplicidade cabível a uma garota saída da obscura (e cômica) cidade de Kalamazoo, no Michigan, mas que calha de ser o receptáculo de um dom extraordinário. E que esse dom é extraordinário mesmo Stanley, a certa altura, não terá mais dúvidas: da mesma forma que antes abraçava a incredulidade, então, ele agora mergulhará na fé em Sophie.

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Bem, ao menos tanto quanto Stanley é capaz de mergulhar em qualquer coisa. Na função de alter ego de Woody Allen, Colin Firth é um dos melhores até hoje: irradia a neurastenia do diretor sem cair na armadilha de imitar seus tiques. Com sua franqueza britânica, brutal e casual, Stanley ofende Sophie o tempo todo (“às 8h20 de uma noite de verão”, diz ele à garota a título de elogio, “quando a luz está sumindo, as suas feições ficam até agradáveis”). Cumprimentando-a pela bela figura que fez numa festa, ele comenta: “Que trabalho deve ter dado!”. Todo mundo estrila com seus insultos, menos a própria Sophie: eles são a expressão do valor intrínseco de Stanley, o de nunca transigir com suas convicções – e ninguém melhor que uma mulher que vive de ludibriar para compreender quanto isso é raro e belo. O autoproclamado cético e a suposta farsante: neste romance leve mas perspicaz, eles foram feitos um para o outro.

Isabela Boscov
Publicado originalmente na revista VEJA no dia 27/08/2014
Republicado sob autorização de Abril Comunicações S.A
© Abril Comunicações S.A., 2014

MAGIA AO LUAR
(Magic in the Moonlight)
Estados Unidos, 2014
Direção: Woody Allen
Com Colin Firth, Emma Stone, Simon McBurney, Marcia Gay Harden, Hamish Linklater, Eileen Atkins, Jackie Weaver, Ute Lemper, Catherine McCormack

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