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Perdido em Marte (o livro)

O melhor de dois mundos.

Perdido em Marte, do americano Andy Weir, segue a vertente mais estimulante da ficção científica: é, sim, ficção, mas sem descuidar de ser fortemente científica.

Se alguma coisa pode dar errado, então ela eventualmente dará errado, é o que diz a lei de Murphy – e o que pode atestar, com riqueza de provas, o astronauta americano Mark Watney. Embora tempestades de areia sejam ocorrência regular em Marte, a tripulação que ele integra é pega de tal forma por uma tormenta que uma evacuação de emergência é a única alternativa. Jogado para longe e com a veste perfurada, Mark é dado como morto, e abandonado na superfície. No meio de tanto azar, uma sorte sem tamanho: a perfuração não chegou a comprometer o sistema de sobrevivência da veste, e a tenda que serve de abrigo às equipes em Marte está intacta. Com muito esforço, Mark consegue rumar para seu interior. E, agora, vai ter de quebrar a cabeça para enfrentar um desafio sem paralelo na história da exploração espacial: sobreviver sozinho, sem comunicação e com um suprimento limitado de água, alimentos e oxigênio, por alguns anos – sim, anos –, até que uma nova missão o resgate, ou pelo menos o reabasteça. Outro complicador decisivo: ninguém sequer suspeita que ele esteja vivo. Aqui na Terra, Mark já foi simbolicamente sepultado, sua família já chorou e o governo já o declarou herói morto no cumprimento do dever. Chato isso, pensa Mark enquanto come metade de uma ração (é preciso economizar) e dá de ombros: se ninguém está pensando em salvá-lo, mais motivo ainda para que ele não descuide um só momento desse propósito. Por uma felicidade estatística, o protagonista de Perdido em Marte (tradução de Marcello Lino; Sextante; 336 páginas) não apenas é um desses sujeitos safos, capazes de improvisar soluções para problemas que abrangem da mecânica à química e à biologia. Ele tem também um senso de humor invencível. É lógico que ele preferiria não ter sido esquecido a milhões de quilômetros da Terra sem nenhuma diversão além do estoque de músicas e seriados de TV dos anos 70 deixados para trás por sua comandante. Mas, ei, que outra oportunidade ele teria na vida de ser rei de todo um planeta inteirinho seu?

Especialista em programação recrutado pelo mercado aos tenros 15 anos de idade, o americano Andy Weir é, neste momento, aos 42 anos, rei de uma vertente literária que teve como expoente Isaac Asimov (1920-1992), mas que nas últimas décadas pouco se pratica: a ficção científica que é, sim, ficção – mas é também fortemente científica. É o que torna Perdido em Marte tão estimulante e divertido: nem esse Robinson Crusoé espacial terá o benefício de golpes de sorte miraculosos, nem chuvas de meteoritos cairão sobre sua cabeça para tornar ainda mais impossível sua periclitante situação. “Tendo já feito tamanha maldade com Mark ao deixá-lo para trás num planeta em que nem bactérias sobrevivem, achei que não tinha o direito de atormentá-lo com atos divinos”, brincou Andy Weir a VEJA. Por decreto do autor, então, o astronauta se salvará ou não pela ciência. Para cada problema, ele deverá bolar uma solução com os recursos que tem à mão. Problemas não faltarão, lógico: mesmo as suas soluções mais engenhosas trarão novos pepinos por destrinchar. A certa altura, diz Weir, ele constatou que não mais estava ditando os rumos do enredo: a ciência é que assumira o comando.

Perdido em Marte nasceu de um exercício: tão apaixonado é o autor pela cena de Apollo 13 em que, em Terra, engenheiros tentam bolar um filtro de ar com as peças disponíveis na cápsula para que os astronautas trancafiados nela não morram sufocados que ele se decidiu a escrever uma história toda ela nesse espírito, do início ao fim. A cada semana, publicava um capítulo em seu site, frequentado pelo punhado de leitores que angariara com seus esforços anteriores. Muitos deles eram especialistas em matérias em que o autor deixava a desejar, e iam tratando de corrigir suas imprecisões. “A mecânica orbital foi fácil, porque é um hobby meu. Mas a química! O pouco que aprendi já tinha esquecido”, diz Weir, modesto. A obra começou a circular, alguns pediram que ela fosse disponibilizada para o Kindle – e Perdido em Marte disparou entre os livros digitais mais vendidos da Amazon. Uma grande editora bateu à sua porta, e o livro foi para o topo da lista do New York Times. Aí foi a vez de o estúdio Fox ligar – e, no fim de 2015, Perdido em Marte deve chegar ao cinema com Matt Damon no papel do náufrago e direção de Ridley Scott.

Marte é assunto corrente, graças ao constante fluxo de imagens e descobertas produzidas por seu estudo intensivo. Mas, na verdade, por ser o planeta mais próximo da Terra e em termos gerais o mais assemelhado a ela, foi sempre o ponto do espaço em que a imaginação humana se fixou mais detidamente, e a partir do qual produziu suas mais triunfantes ou apavorantes fantasias. Alienígenas infinitamente avançados como os do clássico Crônicas Marcianas, de Ray Bradbury, belicosos como os da Guerra dos Mundos, de H.G. Wells, dissimulados como os do seriado Além da Imaginação ou até comunistas utópicos como os da curiosidade russa Estrela Vermelha proliferaram até poucas décadas atrás, enquanto ainda se supunha ser possível que o planeta abrigasse vida. Hoje, ele resiste firme na ficção literária e cinematográfica como a próxima colônia da humanidade ou o lugar em que nossos mais ambiciosos planos ruirão. Com Perdido em Marte, porém, Andy Weir o traz para o domínio do quase ­possível: o destino, no futuro próximo, de missões tripuladas de breve duração, no qual a ciência cautelosamente testa suas possibilidades diante de desafios letais – a atmosfera ultrarrarefeita, a esterilidade absoluta, o frio profundo. Duas coisas serão imprescindíveis numa empreitada do gênero, demonstra o astronauta Mark Watney: muitos rolos de duct tape, aquela fita adesiva prateada que serve para tudo e mais um pouco, e um senso de humor a toda prova. Quem tiver pelo menos isso poderá, quem sabe, ser rei em Marte. Ainda que não tenha súditos sobre os quais reinar.

Isabela Boscov
Publicado originalmente na revista VEJA no dia 22/10/2014
Republicado sob autorização de Abril Comunicações S.A
© Abril Comunicações S.A., 2014

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