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Blue Jasmine

O inferno são todos

Blue Jasmine tem uma grande personagem – e, não fosse a veia tacanha de Woody Allen, poderia ser um grande filme

Nascida Jeanette, a protagonista de Blue Jasmine, o novo filme de Woody Allen, se reinventou como Jasmine, mulher de investidor bilionário de Manhattan, e viveu à grande: joias, mansões, festas, filantropia. Mas agora Jasmine (Cate Blanchett) está parada na porta de um predinho numa rua feia de São Francisco e, enquanto o taxista entrega suas malas Louis Vuitton, ela avalia o cenário com olhar atarantado: não há nada aqui que ela reconheça. E nada que ela queira conhecer. Juntamente com um casaquinho Chanel e umas pérolas, as malas são o que lhe restou da fortuna incalculável, que o governo levou quando seu marido, Hal (Alec Bald­win, todo charme escorregadio), foi preso por fraude financeira. Isso e Ginger (Sally Hawkins), a irmã pobre, caixa de supermercado, que vai abrigar Jasmine em seu apartamento modesto. Como a verídica Ruth Madoff, então, a mulher do megainvestidor Bernie Madoff – aquele que cumpre pena de 150 anos por crimes idênticos ao do fictício Hal –, Jasmine despencou das mais rarefeitas alturas para o mais profundo escárnio. E, como Blanche Dubois, a iludida, perdida e dissociativa personagem de Um Bonde Chamado Desejo, Jasmine dependerá agora da bondade de estranhos bem menos patrícios do que ela (sim, estranhos: Jasmine nunca deu a mínima para Ginger, que, como ela, foi adotada, mas resultou morena e baixinha, em vez de loira e estatuesca).

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Que ponto de partida sensacional para um filme decantar essas duas figuras, Ruth e Blanche, em uma só personagem. E que belo domínio da estrutura dramática tem o diretor, justapondo situações do presente de Jasmine a cenas do seu passado. Pena que quem conta esta história não é o Woody Allen ao mesmo tempo implacável e compassivo do magnífico Match Point – outro filme seu sobre os perigos espirituais do privilégio e do apego material –, mas o Allen de veia mesquinha e venenosa de Celebridades e Dirigindo no Escuro. Jasmine não aceita, e sim exige a bondade alheia, e daí a toma de forma desgraciosa, e a engole junto com quantidades prodigiosas de tranquilizantes e vodca: que valor tem a hospedagem da irmã, se o apartamento dela é tão feio? Que consolo há em ser cantada pelo amigo do cunhado, se ele é baixinho e rude? Que mérito há no emprego num consultório dentário, se ele está tão abaixo dela? Jasmine nunca trabalhou um dia na vida e nunca mostrou talento para nada (só para olhar para o outro lado quando o marido cometia fraude ou adultério; e é isso que lhe dói agora, que quando ela tenta desviar os olhos das coisas que julga feias não encontra algo brilhante para distraí-la, como antes). Mas, embora esteja determinado a dar a Jasmine uma punição exemplar, Allen só finge que a deplora. Na verdade, está com ela e não abre: as pessoas são mesmo um pavor, São Francisco não se compara mesmo a Nova York e não ter fortuna é mesmo uma droga.

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Prova de que, para este Allen, ninguém vale nada? Ginger, a bondosa, perdoou a irmã por tê-la levado a perder todo o seu dinheiro. Mas, aos poucos, a atriz inglesa Sally Hawkins vai revelando as verdadeiras cores de sua personagem: Ginger raciocina igualzinho a Jasmine em tudo – apenas as oportunidades que a vida lhe oferece é que são menos vistosas, e por isso obrigam-na a manter os pés plantados no chão. O paralelo, aliás, pode ser estendido às interpretações. A de Cate Blanchett se pretende maravilhosa, mas é coisinha pouca menos narcisista que sua protagonista. A de Sally é só na superfície simples e ligeira. Na verdade, demonstra uma compreensão aguda. Inclusive do fato de que, enquanto vai fazendo o estudo psicológico de sua personagem, é a si mesmo que o diretor mais expõe.

Isabela Boscov
Publicado originalmente na revista VEJA no dia 20/11/2013
Republicado sob autorização de Abril Comunicações S.A
© Abril Comunicações S.A., 2013

BLUE JASMINE
(Estados Unidos, 2013)
Direção: Woody Allen
Com Cate Blanchett, Sally Hawkins, Alec Baldwin, Bobby Cannavale, Max Casella, Peter Sarsgaard, Louis C.K., Michael Stuhlbarg. Alden Ehrenreich

2 comentários em “Blue Jasmine”

  1. Percebeu como Jasmine se parece com a Mary (vivida por Lesley Manville) em “Another Year” do Mike Leigh? Ambas são personagens complexas, estridentes e que acabam condenadas por seus autores. Considero “Blue Jamine” um dos filmes mais contundentes de Woody Allen nesse início de século, adoro quando ele trabalha essa “veia mesquinha e venenosa”, como vc mencionou. 🙂

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