A Qualquer Custo

Por que o faroeste nunca morre? Porque nós amamos e não deixamos

Para um gênero cuja morte já foi tantas vezes decretada, o faroeste é um defunto muito ativo e bastante animado: ele rende só um ou outro novo título, mas cada um deles é uma pequena explosão de vigor, vibração, inovação e originalidade – como o western virou coisa de realizador aficionado (caso de Quentin Tarantino), não é feito por obrigação ou de olho na bilheteria, mas por paixão. Um caso exemplar é A Qualquer Custo, que estreia nesta quinta-feira 2 de fevereiro com indicações ao Oscar de melhor filme, roteiro original, montagem e ator coadjuvante (para Jeff Bridges). O cenário é contemporâneo, mas os temas são clássicos: Chris Pine e Ben Foster são dois irmãos que estão roubando bancos um atrás do outro, sem parar, nas cidadezinhas do Oeste do Texas. O intrigante não é só o ritmo dos assaltos; é o fato de que a dupla leva muito pouco dinheiro em cada um deles. Jeff Bridges é o Texas Ranger veterano, às portas da aposentadoria, que gostaria de sair de cena com um bom caso bem resolvido, e tem lá sua intuição sobre os irmãos. Dois bandidos desesperados, um homem da lei vaidoso, um lugar onde todo mundo puxa a arma por qualquer coisa: vai ser uma calamidade. Mas uma calamidade belíssima, que o escocês David Mackenzie (do ótimo Encarcerado, que está na Netflix) dirige com gosto e encharca em cor local.

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Leia a seguir a resenha completa. E, antes, confira uma lista de faroestes da última década que não dá para perder:


  • Django Livre (Netflix) – Nesta fantasia de vingança de Tarantino, Jamie Foxx manda bala nos senhores de escravos sulistas
  • Os Oito Odiados (Netflix) – Outra fantasia de Tarantino, com um bando de malfeitores trancafiados numa cabana durante uma nevasca
  • Rastro de Maldade (Netflix) – Kurt Russell é o líder do quarteto que tenta resgatar uma moça dos canibais (!!!) que a sequestraram
  • Onde os Fracos Não Têm Vez (Netflix) – No clássico moderno dos irmãos Coen, Tommy Lee Jones é o xerife que acha que já viu de tudo – até topar com Javier Bardem e perceber que as coisas sempre podem ser piores
  • Bravura Indômita (Netflix) – Os irmãos Coen, de novo, refilmam uma aventura célebre, com Jeff Bridges no lugar de John Wayne. Os resultados são excelentes
  • Oeste Sem Lei (NOW) – Michael Fassbender não sabe se ludibria ou protege um rapazinho que está à procura da garota amada. Uma espécie de mito de criação do Oeste
  • A Salvação (Looke) – Malfeitores acabam com a vida de Mads Mikkelsen, e ele quer justiça. Ou, se não for possível, vingança, vingança e mais vingança. Eva Green concorda com ele
  • Os Indomáveis (Looke) – Christian Bale é o fazendeiro pobre, Russell Crowe é o bandidaço, James Mangold dirige que é uma beleza. Uma refilmagem muito superior ao original

MISTURA FINA

Chris Pine e Jeff Bridges em um faroeste clássico na estrutura e contemporâneo na forma, realizado com viço notável. O resultado se resume em uma palavra: filmaço

Às vezes, há uma única palavra capaz de abranger as qualidades específicas de um filme: “filmaço”. E é com propriedade que ela se aplica a A Qualquer Custo, que estreia nesta quinta-feira no país com indicações ao Oscar em quatro categorias, entre elas a de melhor filme. O faroeste contemporâneo do diretor David Mackenzie tem a propulsão narrativa, a voragem dramática, a exuberância estilística e os desempenhos marcantes que caracterizam essa experiência cinematográfica particular. O escocês Mackenzie, além disso, absorve a cultura e a geografia do Oeste do Texas, que vai da fronteiriça El Paso até Lubbock e Amarillo – terra de gado e de petróleo, de gente perdendo o rancho e de gente bombeando milhões da terra –, com o fascínio dos forasteiros: seu olhar tem um viço que contagia cada cena e cada interpretação.

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Chris Pine e Ben Foster são dois irmãos de personalidades contrastantes unidos em torno de um plano: na fenomenal sequência de abertura, eles já estão em plena maratona de roubo a banco. De cada agência em cidadezinhas sonolentas pelas quais passam, levam uma ninharia. Só notas de valor baixo, nada que esteja no cofre ou possa ser rastreado. Querem chegar rapidamente a uma determinada quantia – e roubá-la toda da mesma instituição, o Texas Midland Bank. Toby (Pine), o irmão racional e taciturno, é o articulador do método. Tanner (Foster), o irmão explosivo, recém-saído da prisão, cuida da intimidação e, se houver uma deixa, da violência. Toby e Tanner são rancheiros pobres e ignorantes, mas não falta a eles inteligência – nem desespero. No seu encalço está outra figura típica do faroeste: o velho homem da lei numa última missão. Marcus Hamilton, o Texas Ranger saborosamente interpretado por Jeff Bridges, é um tipo ardiloso. Prefere pensar a correr, e intui que os dois rapazes não são meros alucinados. São, ao contrário, meticulosos, e têm um propósito muito definido quanto ao valor que desejam amealhar, ao prazo em que pretendem fazê-lo e ao recado que querem mandar com sua escolha do Texas Midland. É hora então de parar de perseguir, decide Marcus, e simplesmente montar a armadilha e esperar que os dois caiam nela. Antes tudo fosse tão simples.

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David Mackenzie (Sentidos do AmorEncarcerado) é um recrutador de elenco perspicaz. Em A Qualquer Custo, Chris Pine atinge a intensidade que tem de abrandar como o Capitão Kirk de Star Trek, e mistura a ela uma boa dose de amargura. Ben Foster, sempre apreciado pela volatilidade, aqui a refina por meio do senso de humor. E Jeff Bridges, buscando referências no seu xerife de Bravura Indômita, está magistral. Seus diálogos com seu parceiro, o meio índio, meio mexicano e integralmente estóico Alberto (Gil Birmingham), são uma joia na escrita (a cargo do roteirista Taylor Sheridan, de Sicario) e na performance. Com suas incessantes tiradas racistas, Marcus ao mesmo tempo testa a intimidade da parceria e reafirma seu amor por Alberto. Ele ilustra ainda a mentalidade peculiar da porção Oeste do Texas – o culto ao individualismo e à independência de espírito, a crença na ordem pelas armas (e ainda mais no direito de portá-las) e a intrincada tessitura cultural de uma região tomada ao México e às tribos nativas, onde um grupo afirma sua preponderância e, no mesmo fôlego, incorpora esses valores múltiplos de maneira decidida, até desafiadora.

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Para os apreciadores do western na sua forma clássica, Mackenzie tem outro imenso prazer a proporcionar: a graciosidade com que ele cita, um a um, os elementos cardeais do gênero. Dos desperados que recorrem ao crime como retribuição para a injustiça às entradas pressagiosas nos vilarejos poeirentos, da boa mulher que reconhece o caráter no âmago do bandido aos grupos de justiceiros que se formam espontaneamente para perseguir os renegados, toda a forma tradicional do faroeste está recriada para o enredo contemporâneo de recessão econômica e ganância corporativa. Mas é, acima de tudo, a feição mitológica do western que sobressai no estrondoso confronto final, em que tiros voam para todos os lados e alguns deles acham o alvo, e no desfecho transbordante de admiração e ameaça mútuas entre dois dos personagens. Não há, enfim, como descrever de outra forma: é um filmaço.

Isabela Boscov
Publicado originalmente na revista VEJA no dia 01/02/2017
Republicado sob autorização de Abril Comunicações S.A
© Abril Comunicações S.A., 2017

Trailer


A QUALQUER CUSTO
(Hell or High Water)
Estados Unidos, 2016
Direção: David Mackenzie
Com Chris Pine, Ben Foster, Jeff Bridges, Gil Birmingham, Katie Mixon
Distribuição: Califórnia

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