Para começar a semana: A Separação

Contra a intolerância de Trump, a inteligência de A Separação

O problema do extremismo – um dos problemas – é que ele torna curiosamente parecidas pessoas que se imaginam muito diferentes. Por exemplo: com o decreto que veta a entrada em solo americano de cidadãos originários de sete países muçulmanos, Donald Trump criou uma faceta nos Estados Unidos que lembra um bocado, digamos, aquele Irã dos religiosos e políticos linha-dura que clamam contra o “Grande Satã” americano. E vem mais por aí: Trump planeja aplicar um conjunto de procedimentos draconianos a todos os não-americanos que queiram fazer turismo no país. Felizmente, nem a canetada de Trump representa a totalidade dos americanos, nem os aiatolás representam a a totalidade dos iranianos. Pelo contrário. Enquanto empresas como Apple, Starbucks, Google e Facebook se colocam contra o decreto, cidadãos vão às ruas protestar contra a medida (que, como combate ao terrorismo, é ineficaz) e advogados dão plantão nos aeroportos para ajudar de graça os viajantes detidos, iranianos como o talentosíssimo cineasta Asghar Farhadi lutam com suas próprias armas contra a intolerância e a ignorância. No caso de Farhadi, com filmes como O Apartamento, que está em cartaz no Brasil, e o magistral A Separação, que ganhou um Oscar em 2012 e pode ser visto em plataformas como NOW e Looke. Para enfrentar uma semana que começou de um jeito truculento, então, vai bem um pouco do bom-senso, da ponderação e da inteligência de Farhadi.

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Asghar Farhadi com o Oscar de melhor filme estrangeiro em 2012

Leia, a seguir, a resenha que publiquei quando A Separação entrou em cartaz no circuito brasileiro:


Com o coração na boca

O iraniano A Separação é um desses filmes excepcionais que só de muito em muito tempo surgem – e põem o espectador a nocaute

No domingo 15, quando ganhou o Globo de Ouro de filme estrangeiro em uma antecipação dada como quase certa do Oscar, o diretor Asghar Farhadi recebeu o prêmio com sobriedade incomum. Em voz baixa, disse que, a caminho do palco, pensara se deveria mencionar seus pais, sua mulher, suas filhas, sua equipe – mas resolvera falar apenas de seu povo. “O Irã é um país de pessoas que amam a paz”, falou simplesmente. Ser iraniano, hoje, é preceder a própria existência de um pedido de desculpas. E essa triste realidade, assim como pais, mulheres e filhas, é o ponto a partir do qual o excepcional A Separação se expande em círculos cada vez mais abrangentes e explosivos, até abarcar praticamente todo tópico e preconcepção que se poderiam levantar sobre o Irã hoje. Abarcá-los e, então, retalhá-los, expondo suas complicadas vísceras com uma paixão e uma premência que, por si só, já nocauteariam o espectador. Não bastasse tal ferocidade, A Separação é ainda uma magnífica peça de cinema, construída sobre um roteiro superlativo, visualmente executada de forma a fazer o que está no papel repercutir muito além do que se poderia pôr em palavras e confiada a atores que compartilham com seu diretor a necessidade de se expressar. É o tipo de filme, enfim, que só de muito em muito tempo surge, seja onde for. Mas que tenha surgido do Irã, neste momento em que o país se converte no fulcro principal da instabilidade geopolítica, é oportuno: quanto mais o presidente Ahmadinejad vocifera suas ambições aniquiladoras, mais se torna necessário compreender sobre que base se assenta sua loucura. E essa base, como vista por Farhadi, é tudo menos homogênea: é múltipla e fraturada, dividida entre impulsos divergentes rumo à religião e ao secularismo, à arbitrariedade e ao direito. É, portanto, uma sociedade cheia de espaços indefinidos entre seus diversos compartimentos, espaços esses propícios à fricção e ao imprevisto – uma visão que a trama espelha até em seu próprio desenrolar.

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Na primeira cena de A Separação, um homem e uma mulher estão sentados de frente para a câmera – a qual ocupa o lugar do juiz que os ouve. Simin e Nader (Leila Hatami e Peyman Moadi) conseguiram um visto para sair do país. Simin quer emigrar já e tirar dali Termeh, a filha de 11 anos. Seu marido, Nader, planejava ir junto – mas agora o pai dele está com Alzheimer. Solução: o casal se divorciará, e assim a mulher poderá viajar sozinha. Mas, na hora de dizer ao juiz que concorda que a menina vá junto, o marido negaceia; ele ama a filha e não consegue se imaginar sem ela. Ora, se ele ama verdadeiramente Termeh, diz a mulher, então sua obrigação é deixá-la ir. Quem está sendo egoísta, e quem está com a razão? A percepção óbvia é que seria cruel segurar no Irã uma menina inteligente e crítica como Termeh (e a atriz Sarina Farhadi, filha do diretor, claramente é ambas as coisas). Mas ir embora significa também que pessoas instruídas como seus pais devem admitir sua impotência e entregar o futuro aos que insistem em retroceder ao passado. E o rompimento que era de mentira começa a se tornar verdadeiro. Simin e Nader estão divididos, desde o cerne, sobre a possibilidade de existir numa sociedade como essa.

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Questões bem mais íntimas os dividem também: na dinâmica familiar que aos poucos se esclarece, Simin é uma mulher que por temperamento tende a se acovardar, e Nader é quem tem o hábito de encorajar Termeh a falar por si mesma. Por isso ele teme deixá-la só com a mãe. Por outro lado, ele é homem, o que num Estado islâmico lhe dá grande vantagem – o que ele pode saber de fato da ânsia de largar tudo? Esses desequilíbrios vão tirar de vez o chão ao casal com a entrada, na história, de seu elemento mais inflamável. Como Simin saiu de casa, Nader tem de contratar uma empregada para cuidar de seu pai. Chega Razieh (Sareh Bayat), coberta todo o tempo por um xador, receo­sa de que seu marido desempregado, Hodjat (Shahab Hosseini), descubra que ela passa o dia na casa de um homem tecnicamente solteiro e trêmula de medo de cometer qualquer pecado contra o Islã. Quando o pai de Nader urina nas calças, ela liga para um religioso para saber se pode trocá-lo (embora não se ouça a pessoa do outro lado da linha, fica claro que a resposta vem cheia de resistências e condicionais). Razieh não contou a Nader que está grávida, e é possível que, com tanto pano por cima dela, ele não o tenha percebido. Assim, quando patrão e empregada têm um grave desentendimento e ele a empurra porta afora, o inferno desaba sobre Simin e Nader, Razieh e Hodjat – e sobre Termeh e a pequena Somayeh (Kimia Hosseini), filha da empregada, únicas testemunhas reais do que se passou ali.

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Daí para diante, o filme é um redemoinho, intenso a ponto de provocar palpitação. Asghar Farhadi já demonstrara seu talento para construir enredos a partir de eventos desencadeantes em Procurando Elly, de 2009, mas aqui o faz com brilho singular. Diferenças sociais e religiosas são postas sob um foco nítido. Orgulho masculino, submissão feminina, a conduta do sistema judicial numa teocracia, os pontos de vista de vizinhos e professores, jovens e velhos – não há tema que Farhadi não aborde e vire do avesso. Acima de tudo, porém, está o tema do olhar ainda não adulterado de Termeh e Somayeh sobre a violência e a desrazão do conflito que opõe os dois casais entre si e um ao outro. Curiosamente, A Separação escapou ao veto dos censores iranianos e acabou fazendo mais de 3 milhões de espectadores em seu país de origem. Mas não é só com eles que Farhadi quer falar: é com o mundo que ele deseja – precisa – imperiosamente se comunicar. E, ao espectador que desde aquela primeira cena foi colocado no lugar do juiz, desafia-se: que tente chegar a um – um só que seja – veredito que lhe pareça justo.

Isabela Boscov
Publicado originalmente na revista VEJA no dia 25/01/2012
Republicado sob autorização de Abril Comunicações S.A
© Abril Comunicações S.A., 2012

Trailer


A SEPARAÇÃO
(Jodaeiye Nader az Simin / A Separation)
Irã, 2011
Direção: Asghar Farhadi
Com Leila Hatami, Peyman Moadi, Sareh Bayat, Shahab Hosseini, Sarina Farhadi, Kimia Hosseini

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