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O garimpo da semana: Oeste Sem Lei

Michael Fassbender volta à fronteira de 1870 em um filmaço inédito nos cinemas brasileiros

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Rose e seu pai imigraram das Terras Altas escocesas para o Oeste americano em circunstâncias complicadas. Jay, 16 anos e filho de aristocratas, não se conforma em ficar sem Rose, e parte atrás dela. Só a intervenção divina explica o fato de ele conseguir chegar inteiro e sem um arranhão sequer ao Colorado dos anos 1870: interpretado pelo sempre etéreo Kodi Smit-McPhee, que foi o filho de Viggo Mortensen em A Estrada e Nightcrawler em X-Men: Apocalipse, Jay é um inocente e um ingênuo, que olha com deslumbre para as paisagens grandiosas da fronteira sem perceber os perigos de que está cercado. Como por exemplo os soldados confederados que estão matando índios por esporte e decidem que um rapaz escocês pode ser uma presa tão boa quanto qualquer outra. Ou então o bando de caçadores de recompensas liderado pelo bruto e imundo Payne (Ben Mendelsohn, que acaba de ganhar o Emmy por Bloodline), para quem Jay representa o meio mais fácil de chegar até Rose e seu pai – que, por algum motivo, são considerados foras-da-lei e têm um prêmio sobre suas cabeças. É exatamente essa a razão pela qual Silas (Michael Fassbender) se aproxima de Jay e se oferece como seu protetor: também Silas é um caçador de recompensas e quer encontrar o pai e a filha – mas é um tipo bem mais sutil do que o seu rival Payne.

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Oeste Sem Lei é um desses filmes que se custa a acreditar serem um trabalho de estreia: o escocês John Maclean, que nos anos 90 foi de uma banda alternativa, a Beta Band, até aqui só fizera dois curtas-metragens (ambos, Man on a Motorcycle e Pitch Black Heist, também com Michael Fassbender), é um diretor de tanta personalidade, e tanto controle do ritmo (algo muito apropriado a um filme que no original tem o título provocativo de Slow West, ou “Oeste Vagaroso”), que a sensação é de estar diante de um veterano – não só do cinema, mas especificamente do faroeste. Maclean faz um trabalho de gênero interessantíssimo: usa muito bem as convenções formais do western (a fotografia, aliás, é linda) para virar de ponta-cabeça os significados dele. Como em quase todo western pós-moderno desta nova leva, a fronteira não é o lugar em que a civilização vai avançando sobre o mundo selvagem, ainda que de forma relutante; é o lugar em que a brutalidade vai engolindo qualquer resíduo de civilização que tenha conseguido sobreviver até ali.

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Oeste Sem Lei é, também, uma espécie de mito de criação do mundo. Repare nos encontros estranhos que Silas e Jay têm durante sua jornada: com o casal de suecos que, desesperado de fome, tenta assaltar uma mercearia enquanto seus filhos pequenos esperam do lado de fora; com um trio de músicos congoleses que está fazendo acampamento no deserto; e com um antropólogo itinerante que diz estar documentando o modo de vida dos índios americanos antes que a conversão ao cristianismo o destrua. São quase surreais essas passagens, feitas em um tom de fábula que acentua o simbolismo delas sobre a nação que nasceu da expansão ao Oeste.

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E essa estrutura episódica do filme vai render de vez no desfecho, uma sequência que, para mim, já nasceu antológica – na qual todos os personagens vão convergir para a cabana de Rose e seu pai (Caren Pistorius e Rory McCann), que parece uma pequena ilha num oceano de capim do qual, às vezes, emergem as pessoas que se aproximam. Sem entregar nada, digo que o tiroteio que acontece aí é coisa de mestre (e a última cena, ultra econômica, encerra tudo numa nota formidável). Por enquanto, ao menos conforme a minha breve pesquisa, John Maclean ainda não tem nenhum outro trabalho a caminho. Mas vou esperar ansiosamente para saber que rumo a carreira dele vai tomar.


OESTE SEM LEI
(Slow West)
Inglaterra/Nova Zelândia, 2015
Direção: John Maclean
Com Michael Fassbender, Kodi Smit-McPhee, Ben Mendelsohn, Caren Pistorius, Rory McCann, Stuart Bowmna, Edwin Wright, Andrew Robert, Michael Whalley, Stuart Martin
Onde ver: no NOW

Uma consideração sobre “O garimpo da semana: Oeste Sem Lei”

  1. MITO DA DESTRUIÇÃO;

    Trecho Favorito:

    “Como em quase todo western pós-moderno desta nova leva, a fronteira não é o lugar em que a civilização vai avançando sobre o mundo selvagem, ainda que de forma relutante; é o lugar em que a brutalidade vai engolindo qualquer resíduo de civilização que tenha conseguido sobreviver até ali.”

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