divulgação

Patty Duke e O Milagre de Anne Sullivan

Uma atriz meio esquecida, mas de força monumental

Não vou dizer que conheço muito bem a carreira de Patty Duke, que morreu hoje, aos 69 anos, porque seria mentira. Mas, se há uma atriz que conseguiu muito cedo tornar um papel absolutamente memorável, e que merece ser conhecida por ele, trata-se de Patty. Por acaso, até algumas semanas atrás eu também nunca havia visto Patty no papel que a tornou célebre na década de 60, e pelo qual ela ganhou um Oscar, aos 16 anos – até que, por acaso, deparei no Netflix com O Milagre de Anne Sullivan e resolvi assistir, para corrigir uma falha – era um desses filmes que eu deveria ter no currículo já há muito tempo, mas me escapou.

pattyduke_mat3
Patty Duke 1946-2016

Talvez eu tenha sempre desviado do filme que o grande Arthur Penn (que depois faria Bonnie e Clyde e O Pequeno Grande Homem) dirigiu em 1962 porque o assunto é uma barra: ele trata de como Hellen Keller, que ficou cega e surda em bebê por causa de uma escarlatina, passou a infância toda aprisionada dentro de si mesma, sem nenhuma possibilidade de comunicação, e finalmente, no início da adolescência, foi tirada desse encarceramento dos sentidos por uma professora irlandesa – a Anne Sullivan do título. Isso na década de 1890, quando a ideia de que seria possível educar alguém com deficiências tão graves era considerada coisa de outro planeta. Hellen Keller (1880-1968), porém, se tornaria a primeira pessoa cega e surda a se formar na universidade, além de uma ativista pioneira.

divulgaçãoSe você se animar a ver o filme – e eu recomendo vivamente que o faça –, resista impavidamente à primeira cena, aquela em que Victor Jory e Inga Swenson, que fazem os pais da pequena Hellen, descobrem que ela perdeu a audição e a visão: ela é tão kitsch e exagerada que dá um pouco de vergonha alheia. Em questão de minutos, contudo, você já terá esquecido esse início pouco auspicioso. Como a professora Anne Sullivan, criada nos mais hediondos orfanatos e ela própria quase cega, Anne Bancroft é uma força da natureza: uma mulher jovem, instruída à custa de muita determinação, sem lugar no mundo e miraculosamente sem nenhuma concepção de que isso é um problema ou uma desvantagem, Anne chega à fazenda dos Keller, no Sul americano cheio de rapapés sociais, e bota para quebrar – é um absurdo, insiste ela, que Hellen tenha direito a se comportar como uma selvagem. Os pais de Hellen, assim como o meio-irmão dela (Andrew Prine), insistem que a menina jamais poderia aprender qualquer coisa; no entender deles, a deficiência causou um retardamento mental intransponível.

divulgação

Sempre batendo de frente com os Keller, Anne trata de provar que não é esse o caso, nem de longe. Em uma cena estupenda (repito: estupenda), Anne Bancroft e Patty Duke se atracam durante minutos a fio, em um crescendo de violência física e de caos: tudo porque a menina quer comer com a mão, e Anne quer demonstrar a ela que é preciso usar uma colher. Nunca vi duas atrizes embarcarem em um vale-tudo como o dessa cena – ambas furiosas, e ambas determinadas a não ceder um só centímetro de território à adversária. Anne Bancroft, que morreu em 2005, aos 73 anos (41 deles casada com seu hoje viúvo Mel Brooks), sempre foi uma maravilha de atriz, ao mesmo tempo um vendaval e capaz das sutilezas mais arrebatadoras. A surpresa aqui é a força de Patty Duke – que depois faria uma longa carreira quase que só na TV (carreira que, como eu disse, não acompanhei), apesar das dificuldades impostas a ela pela doença maníaco-depressiva (hoje chamada de transtorno bipolar), diagnosticada quando ela estava com seus 30 e poucos anos.

divulgação

Duas curiosidades: Anne Bancroft e Patty Duke estavam repetindo, no filme, os papeis que haviam feito no palco, entre 1959 e 1961: conheciam a peça de William Gibson, e uma à outra, do direito e do avesso. E, em 1979, Patty ganhou num Emmy pela versão televisiva da peça, intitulada O Milagre de Annie Sullivan, com um “i” a mais – mas, dessa vez, interpretando não Helen Keller, e sim a professora.

Uma consideração sobre “Patty Duke e O Milagre de Anne Sullivan”

  1. Suas críticas são estupendas. Acompanho suas publicações há muitos anos na revista Veja, e lembro que nada me deixava mais frustrada , quando a crítica de cinema da semana não era feita por você.

    Curtir

Deixe uma resposta para Débora Cancelar resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s