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A Colina Escarlate

A aventura gótica de Guillermo del Toro.

Abençoada seja a ignorância das heroínas dos romances góticos: não fossem elas tão cegas aos sinais de que o sujeito sedutor que as corteja carrega por aí um segredo cavernoso, metade da literatura do século XIX não existiria.

E, por extensão, sem Jane Eyre, O Morro dos Ventos Uivantes ou Rebecca (que, apesar de ter sido publicado em 1938, é perfeitamente vitoriano) também não haveria A Colina Escarlate. O diretor mexicano Guillermo del Toro supera até a si mesmo – o que não é fácil – em exuberância e saturação sensorial para contar a história de Edith Cushing (Mia Wasikowska), a jovem inocente, mas cheia de independência, que apesar dos avisos paternos se apaixona pelo baronete Thomas Sharpe (Tom Hiddleston) e vai morar com ele nas charnecas desoladas do norte da Inglaterra, em uma enorme mansão arruinada. Lá, por entre os corredores escuros, os quartos trancados, as paredes mofadas e as madeiras corroídas ocultam-se várias assombrações – algumas fantasmagóricas, outras bem reais, como a irmã de Thomas, Lady Lucille (Jessica Chastain), que segue Edith por toda parte com olhar de ódio.

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Antes de mais nada, é preciso esclarecer: A Colina Escarlate não é um filme de terror. É um romance gótico, sem tirar nem pôr. Mas, como é seu hábito, Del Toro imprime ao gênero alguns traços personalíssimos. O primeiro, claro, é que ele pega aquele velho mandamento do filme de casa assombrada – a casa é ela própria um personagem – e o leva às últimas consequências: desafio alguém a encontrar um set mais repleto de detalhes, mais intrincado, mais carregado de desvãos, cores e texturas que a mansão dos Sharpe. É tão magnífico o trabalho de Del Toro, tão completa a maneira como a casa é trazida à vida, que por vezes ela ameaça atropelar a história: por mais presença que tenham Mia Wasikowska, Tom Hiddleston e especialmente Jessica Chastain, é difícil a eles competir com um cenário concebido para monopolizar em tal grau a atenção.

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O que restabelece o equilíbrio a A Colina Escarlate é o mistério central, muito mais depravado do que qualquer autor do século XIX ousaria publicar – e, de novo, quando se chega à resolução do mistério e o filme mais uma vez começa a perder força, alguns lances de violência verdadeiramente horripilante. Não é o melhor filme de Del Toro: para mim, o ápice dele, a demonstração de como a imaginação dele pode ser única e extraordinária, ainda está em O Labirinto do Fauno. Mas a César o que é de César: tem muito pouco cineasta por aí com peito de fazer um filme de grande orçamento tão intensamente pessoal e tão obsessivamente concebido como A Colina Escarlate.


Trailer


A COLINA ESCARLATE
(Crimson Peak)
Estados Unidos, 2015
Direção: Guillermo del Toro
Com Mia Wasikowska, Jessica Chastain, Tom Hiddleston, Jim Beaver, Charlie Hunnam, Burn Gorman, Leslie Hope
Distribuição: Universal

Desde 2004 venho escrevendo sobre o trabalho de Guillermo del Toro. Leia aqui as resenhas de outros filmes dele, e uma entrevista exclusiva:

Hellboy

O Labirinto do Fauno

Hellboy II – O Exército Dourado

Círculo de Fogo

Entrevista com Guillermo del Toro

Noturno

 

4 comentários em “A Colina Escarlate”

  1. Nesse final de semana eu confiro o novo trabalho de Guillermo Del Toro.O visual do filme é lindo e o elenco de primeira(Mia Wasikowska e Tom Hiddleston voltando a trabalhar juntos depois de “Amantes Eternos” de Jim Jarmusch).

    Curtido por 1 pessoa

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