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Círculo de Fogo

Lá vem monstro!

Em Círculo de Fogo, do diretor Guillermo del Toro, robôs gigantescos combatem criaturas colossais: é cinema feito com superioridade técnica e com alma e coração, para assombrar e deslumbrar.

Se (e ponha-se “se” nisso) sauros descomunais, maiores que os maiores arranha-céus, começassem a sair de uma fenda no fundo do Pacífico para devastar as cidades costeiras, é provável que o mais prático fosse disparar mísseis nucleares dentro de sua bocarra, ou algo assim, antes que eles chegassem às áreas habitadas. Felizmente, Círculo de Fogo não quer saber do que é prático, ou mais eficaz, ou mesmo do que é lógico. O diretor mexicano Guillermo del Toro quer saber, isso sim, do que é fabuloso. Assim, quando os monstros, ou kaiju, começam a usar o abismo marinho como portal para viajar da sua dimensão à Terra, a arma com que a humanidade responde a eles são os jaegers. Ou robôs tão colossais quanto as próprias bestas, com as quais eles se engajam em estupendas brigas no oceano, com as ondas batendo nos seus joelhos, ou já dentro das cidades, que ficam parecendo anãs. O estrago é imenso. Mas não é o estrago indiferente que se tem visto em filmes como Transformers, ou Os Vingadores, ou O Homem de Aço, ou tantos outros ainda dessa estirpe. Del Toro é um cineasta que não perdeu a alma: tenha nas mãos trabalhos íntimos como A Espinha do Diabo e O Labirinto do Fauno, ou projetos pop para grande público, como os dois Hellboy e este novo filme, a matéria-prima com que ele os molda é a mesma – uma imaginação prodigiosa, em que o assustador e o belo são uma só coisa, encarnados na mesma criatura. Cidades são dizimadas, milhares perdem a vida; e o sofrimento e o sacrifício são tão genuínos quanto o espanto, o pavor e a admiração.

Com Círculo de Fogo, Del Toro ambiciona transportar a plateia de hoje ao estado de choque e catarse que o público das décadas de 50 e 60 experimentava ao assistir aos filmes de kaiju: aquelas produções em geral saídas do estúdio Toho que expressavam o pânico nuclear japonês por meio de monstros como Godzilla, Gamera ou Mothra (que aqui passou com o delicioso subtítulo de “A Mariposa Assassina”). Kaiju, em japonês, quer dizer “fera estranha”, e as de Del Toro são fiéis à tradução: algo como versões desfiguradas de tubarões, sapos, tartarugas ou lagartos, capazes de ensurdecer toda uma metrópole com seus gritos, encobrir todo o céu com suas silhuetas terríveis e de, quando mortas, contaminar costas inteiras com a “maré azul” provocada por suas carcaças. Os jaegers (do alemão para “caçador”) não são menos acachapantes: humanoides mecânicos feitos com milhares de toneladas de aço, articulados por pistões do tamanho de prédios, com torso grande como uma montanha e – esse o detalhe tão improvável quanto cativante – pilotados por seres humanos reais abrigados no interior de seu crânio metálico. Sempre dois ao mesmo tempo: operar tais gigantes seria demais para uma pessoa só. São necessárias duplas unidas por uma afinidade intangível e capazes de sincronizar seus pensamentos ao ponto de, das grandes decisões aos gestos mais casuais, agirem como um só indivíduo.

Lógico ou verossímil não é. Mas é lindo: um retorno ao deslumbramento em estado puro, feito com alegria sincera e uma convicção que contagia o elenco – Charlie Hunnam, da série Sons of Anarchy, como Raleigh, o piloto que se retirou da ativa quando seu irmão e parceiro foi morto em combate; a excelente Rinko Kikuchi, de Babel, como Mako Mori, a única pessoa capaz de entrar em sintonia com Raleigh e torná-lo novamente parte de uma dupla; o impressionante Idris Elba, das séries The Wire e Luther, como o marechal cegamente determinado a deter os kaiju; e Ron Perlman, o Hellboy, como um contrabandista caolho. O grande personagem de Círculo de Fogo, porém, é outro. Quando Raleigh leva, sozinho, seu jaeger para uma praia gelada do Alasca e tomba estrondosamente na neve, ou quando Mako, garotinha, foge de um kaiju com lágrimas escorrendo dos olhinhos inchados, não são só atores, monstros e um diretor que estão em cena – o que está em primeiro plano é o poder primordial do cinema, o de assombrar e transportar.

Isabela Boscov
Publicado originalmente na revista VEJA no dia 07/08/2013
Republicado sob autorização de Abril Comunicações S.A
© Abril Comunicações S.A., 2013

CÍRCULO DE FOGO
(Pacific Rim)
Estados Unidos, 2013
Direção: Guillermo del Toro
Com Charlie Hunnam, Rinko Kikuchi, Idris Elba, Diego Klatenhoff, Ron Perlman, Charlie Day, Burn Gorman, Max Martini, Clifton Collins Jr.

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