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Guillermo del Toro

“Os monstros nunca me decepcionam”

O diretor Guillermo del Toro conta a VEJA como bolou os kaiju, e explica por que as criaturas e mundos estranhos que vivem em sua imaginação são o seu motor criativo.

À parte um malfadado Godzilla, em 1998, o cinema americano até aqui deixara quietos os filmes japoneses de monstro. De onde veio a ideia de homenageá-los?

Sou fã incondicional da tradição do filme de kaiju, e isso era o que eu queria: recriar para a plateia a alegria que eles me proporcionavam quando eu era um garoto de 11 anos. Mas o que me convenceu foi a sacada do roteirista Travis Beacham de tornar os robôs máquinas operadas por dois pilotos ao mesmo tempo. Isso põe no centro da história a noção de que nada de significativo pode ser conquistado nessa guerra sem a confiança essencial entre os dois indivíduos no interior dos jaegers.

É verdade que o senhor quis que todos os kaiju pudessem ser, hipoteticamente, fantasias de borracha com um ator dentro?

Fiz questão absoluta. Os kaiju de Círculo de Fogo são criados em computação gráfica, claro. Mas, se fosse em 1968, eu poderia fazer o mesmo filme, com os mesmos monstros e robôs, usando roupas de borracha, marionetes e miniaturas. Não ficaria tão convincente ou tão bonito, mas seria essencialmente o mesmo filme.

Já para os jaegers o senhor deu preferência tanto quanto possível a efeitos mecânicos.

Quando você quer passar a sensação de peso e força, não há nada que se compare à coisa de verdade. Construímos uma centena de sets, todos eles quase integralmente mecânicos, o que é infernal. E várias partes dos robôs foram feitas em escala real: as mãos, os pés. Uma coisa linda de ver.

Muita coisa é destruída em Círculo de Fogo – mas não se presencia o arraso de nenhum grande símbolo nacional. Por quê?

Porque eu não queria fazer um filme militarista ou que insuflasse sentimentos nacionalistas. Eu queria que neste filme, apesar das desavenças, nações e indivíduos se sentissem compelidos a unir-se para chegar a uma solução, contribuindo cada um com o seu melhor – sua inteligência, seu poderio, sua determinação, seus talentos.

O grande enfrentamento entre os kaiju e os robôs se dá em Hong Kong, e não em Tóquio, como seria de esperar. Por quê?

Primeiro eu queria que Tóquio, que tantas vezes foi destruída nos antigos filmes de kaiju, fosse homenageada com uma cena especial – aquela em que a menininha que depois se tornará a piloto Mako Mori tenta escapar do ataque de um kaiju: visto pelos olhos de uma criança, ele volta a ser um terror primal, como aquele que a plateia das décadas de 50 e 60 experimentava ao assistir a esses filmes. Depois, porque adoro Hong Kong: à noite, quando as luzes se acendem, não há lugar igual no mundo. É como um arco-íris noturno, algo que parece saído de uma fantasia.

O senhor passou os últimos três anos fazendo Círculo de Fogo – e, antes disso, outros tantos trabalhando em dois projetos dos quais teve de desistir, O Hobbit e Nas Montanhas da Loucura. Foi um período especialmente difícil?

Não me lembro de ter tido um único ano fácil na minha vida profissional. Trabalho numa área que as pessoas tendem a encarar de maneira meio leviana; esse tipo de filme em geral é visto como um negócio para ganhar muito dinheiro, e rápido, e seja como for. Mas, por temperamento, não consigo deixar de levar a sério o que eu faço. Minha ambição é sempre tentar criar algo de permanente. O que, de certa forma, é um jeito garantido de se desapontar. A única coisa na minha vida que nunca, jamais, me desapontou foram os monstros: eles estão sempre lá, despertando pavor, mas também admiração e um sentido diferente do que é a beleza. Meus monstros vêm do meu coração.

Isabela Boscov
Publicado originalmente na revista VEJA no dia 07/08/2013
Republicado sob autorização de Abril Comunicações S.A
© Abril Comunicações S.A., 2013

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