Em “A Fita Branca”, o ninho da serpente

Em um filme notável, o diretor Michael Haneke mostra uma aldeia alemã, às vésperas da I Guerra, como criadouro do nazismo

Estabelecido na cidade de Delft, o holandês Johannes Vermeer (1632-1675) pintou, com genialidade assombrosa, instantâneos do cotidiano: janelas que derramam luz sobre salas aconchegantes, mulheres debruçadas sobre seus afazeres, jovens que adornam a beleza com simplicidade (como no famoso Moça com Brinco de Pérola). São celebrações da domesticidade, serenidade, recato e ordem, valores tão prezados no mundo protestante do qual Vermeer fazia parte. Em A Fita Branca (Das Weisse Band, Áustria/Alemanha, 2009), que estreia no país na próxima sexta-feira, o diretor alemão Michael Haneke se apropria do estilo de Vermeer. Mas seu propósito é literalmente subversivo: voltar essa ordem contra si mesma e localizar nela a raiz do impulso que levaria a Alemanha a estar no centro das duas grandes guerras do século XX. Cada cena de A Fita Branca poderia ser um quadro de Vermeer ou dos outros pintores flamengos do período. Mas quadros em preto e branco, e que mostrassem flagrantes sinistros. À moda dos nomes que essas pinturas ganharam, as cenas de Haneke poderiam se chamar Menino com Jarro – na qual um rapaz, indo buscar leite, depara com o pai enforcado. Ou Mulher com Bacia e Esponja – em que uma senhora prepara um corpo para o funeral. Ou ainda Pai Seduz Filha, Menino Afoga o Amigo, Pastor Castiga Seus Filhos. São vinhetas perversas. Mas a perversidade aqui não está em Haneke, o provocador de Violência Gratuita, A Professora de Piano, Código Desconhecido e Caché. Está na história que ele deslinda com notáveis rigor formal e autocontrole.

            No enredo, uma aldeia alemã, situada em um cenário de beleza rural arrebatadora, vive acontecimentos desnorteantes, no ano que antecede o início da I Guerra (1914-1918). Alguém provoca um acidente com o médico. Uma criança é torturada, depois outra. Um celeiro é incendiado. Não há pista sobre o autor, ou os autores, de tais crimes, que engendram outros eventos perturbadores – delações, vinganças, pelo menos um suicídio e um sem-fim de castigos às crianças. São elas, em geral, as maiores vítimas de tudo o que se passa de ruim. Mas sempre há alguma figura de autoridade pronta a declarar que elas incorreram em erro e devem ser punidas. A certa altura, o espectador se vê obrigado a concluir que talvez sejam elas mesmas as criminosas. Quando o mestre-escola leva essa suspeita ao pastor, é enxotado: bem se vê que o professor não tem filhos, diz o pregador; se os tivesse, nunca aventaria que eles fossem capazes de tanta monstruosidade. É sabido, claro, que o pastor está equivocado: a geração dos seus filhos (e os seus próprios parecem ter papel preponderante nos acontecimentos), moldada em uma cultura que preconizava ideais inatingíveis de pureza e negação, é que conduziria Adolf Hitler ao poder. E assim legaria à geração seguinte, a de Michael Haneke (que nasceu em plena II Guerra, em 1942), a tarefa interminável de entender como, e por quê, se chegou até ali.

Publicado originalmente na revista Veja em 10/02/2010

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