“O CLÃ DAS ADAGAS VOADORAS”: AINDA MELHOR QUE “HERÓI”

Em menos de três anos Zhang Yimou retorna ao wuxia, o filme de artes marciais, e acerta em cheio

Por um capricho das distribuidoras, dois filmes feitos pelo chinês Zhang Yimou com um intervalo de quase três anos chegam com apenas uma quinzena de diferença aos cinemas brasileiros – depois de Herói, nesta sexta-feira é a vez de O Clã das Adagas Voadoras (House of Flying Daggers, China/Hong Kong, 2004) entrar em cartaz. Como se corre o risco de achar que assistir a ambos é ver mais da mesma coisa (até porque os dois foram indistintamente propagandeados como filmes de artes marciais), cabe avisar que há aí um engano: Clã não é só um bocado diferente de Herói. É também superior. No ano de 859, nos estertores da dinastia Tang (618-907), chega aos ouvidos de dois policiais que Mei (Zhang Ziyi), a nova cortesã da cidade, é na verdade uma agente da organização de guerrilheiros do título. Cada um a seu modo, eles iniciam uma investigação. Jin (o sino-japonês Takeshi Kaneshiro), que é jovial, inconseqüente e conquistador, faz-se passar por freguês do bordel e agarra Mei – que é cega – à força. Seu companheiro Leo (Andy Lau) chega para dispersar o tumulto arranjado e submete Mei a uma prova destinada a apurar se ela é mesmo a habilíssima dançarina que diz ser. Com o talento da cortesã devidamente demonstrado numa seqüência atordoante, os policiais fazem com que ela acredite estar livre, para assim os conduzir  ao quartel-general do clã. Jin a escoltará, dizendo-se apaixonado por ela, e Leo os seguirá a distância. Durante o trajeto, Jin e Mei se apaixonarão de fato, a identidade verdadeira de Leo será descoberta e, acima de tudo, O Clã das Adagas Voadoras se revelará um encontro sensacional entre a exuberância do cinema chinês e o rigor do filme de samurai – em especial da variedade celebrizada pelo diretor Akira Kurosawa, de quem Yimou é grande admirador.

Há menos de fantasioso do que se possa supor nessa história. A dinastia Tang de fato se esfacelou sob a ação de milícias rebeldes. Esse foi também o período de influência mais marcante da China sobre o Japão. Yimou, contudo, inverte a mão desse trânsito. Aqui é a China, sempre tão impermeável ao que vem de fora, que se dobra ao Japão. Se em Herói o diretor homenageava Kurosawa na estrutura emprestada de Rashomon, em Clã ele o faz de todas as maneiras possíveis, do tem – o dilema entre liberdade individual e lealdade – às cores e composições impressionistas. Mesmo as lutas, sempre lindas, ganham outra força. Em vez de mera exibição de virtuosismo, elas traduzem o crescendo da ligação entre Jin e Mei e o destino trágico para o qual esse romance se encaminha. Na seqüência final, quando a ação é parcialmente encoberta por uma nevasca que corta a tela, o que o diretor quer é que a platéia se lembre de uma cena clássica – a da luta sob a chuva em Os Sete Samurais. Talvez a própria fluidez da personalidade de Yimou, que parece ser um homem diferente a cada filme que faz, venha a impedir que ele ocupe um lugar comparável ao de Kurosawa na história do cinema. Mas, ao menos por um momento, ele chegou bem perto.

Publicado originalmente na revista Veja em 06/04/2005

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