Todos os posts de Isabela Boscov

“HERÓI”: O TRIUNFO DOS CHINESES VOADORES

É quase excessiva a beleza da primeira incursão de Zhang Yimou nas artes marciais

Um membro da equipe ficou de prontidão no interior da Mongólia, encarregado de dar o alerta no momento em que as folhas de uma floresta de carvalhos atingissem seu melhor amarelo outonal. Quando a hora chegou, o diretor Zhang Yimou deslocou o time inteiro para a locação e colocou-o para trabalhar numa tarefa surreal: classificar segundo sua tonalidade todas as folhas que caíssem das árvores. As mais belas serviriam para passar em frente ao rosto das atrizes Maggie Cheung e Zhang Ziyi, as de primeira linha voariam em torno delas, as de segunda ficariam mais para o fundo do cenário e as restantes seriam devolvidas ao chão. O saldo desse perfeccionismo extremado é uma das muitas cenas sublimes de Herói (Hero, China/Hong Kong, 2002), a primeira incursão de Yimou, um dos expoentes dos festivais internacionais, nas artes marciais. Herói quebrou o recorde de audiência na China, concorreu ao Oscar de filme estrangeiro em 2003, acumulou uma bilheteria mundial de quase 180 milhões de dólares e animou Yimou a voltar a essa seara com o ainda superior O Clã das Adagas Voadoras, que deve estrear no Brasil em 8 de abril. Se esse fenômeno merece uma ressalva, é que sua beleza às vezes excessiva distrai a atenção do que mais esteja em jogo no filme.

Herói revisita um episódio central para a história da China: a unificação do país pelo rei de Qin, que no século III a.C. submeteu as monarquias rivais e tornou-se o primeiro imperador – além de construtor da Grande Muralha. No filme, o rei recebe um oficial de província (Jet Li) que acaba de eliminar os assassinos que ameaçavam seu trono, e pede para ouvir sua narrativa. Seguem-se então três versões de como o obscuro Sem Nome derrotou os lendários Céu (Donnie Yen), Espada Quebrada (Tony Leung) e Neve que Voa (Maggie Cheung). Cada versão é encenada em uma cor diferente, e todas elas servem de mote para o maior atrativo do filme: as lutas estupendamente coreografadas, que vão do estilo mais ortodoxo ao mais lírico, como um combate travado sobre as águas de um lago. Tudo o que há de drama em Herói está expresso na atmosfera diversa de cada uma das lutas e no êxtase dos cenários, figurinos e cores. Essa, enfim, é a habilidade que responde pelo prestígio de Yimou: mais do que qualquer outro cineasta, ele sabe mimetizar um gênero de forma tão completa que, ao final, estabelece para ele um novo patamar.

Não deixa de ser irônico, porém, que Yimou, que passou seus dezoito anos de carreira às turras com os censores chineses por causa de filmes como Lanternas Vermelhas, A História de Qiu Ju e Tempos de Viver, tenha adotado o rei de Qin como pivô de Herói. Os massacres promovidos pelo monarca foram tão extensos e brutais que, apesar de seus feitos, sua memória persistiu em relativa desgraça até ser reabilitada por Mao Tsé-tung, que viu nele uma inspiração para a Revolução Comunista de 1949. Como personagem, o rei de Qin tem o selo de aprovação do Partido – e o tratamento dado a ele por Yimou, de um déspota iluminado e incompreendido, só fez reforçar a impressão de que o diretor teria se juntado ao inimigo. Herói talvez seja, assim, politicamente incorreto. Mas, como espetáculo, está acima de qualquer suspeita.

Publicado originalmente na revista Veja em 23/03/2005

NO AMOR VALE TUDO. ATÉ O ÓDIO

Com o implacável Closer – Perto Demais, o diretor Mike Nichols expõe a crueldade do mais decantado dos sentimentos

É uma daquelas tomadas clássicas: em meio à multidão que caminha pela calçada em câmera lenta, aos poucos se destacam um rapaz e uma moça – que vão se conhecer, trocar diálogos inteligentes como só um bom roteirista poderia escrever, apaixonar-se e então desentender-se. No sentido inverso ao óbvio, porém, Perto Demais (Closer, Estados Unidos, 2004) não vai devolvê-los à felicidade romântica instantes antes dos créditos finais. Bem ao contrário. A stripper Alice e o escritor de obituários Dan (Natalie Portman e Jude Law), que se envolvem a partir do atropelamento dela numa rua de Londres, vão se torturar e trair um ao outro, em reflexo, causa e efeito do processo que Anna e Larry (Julia Roberts e Clive Owen), os dois outros personagens do filme, também atravessam. Decerto esses dois casais, que em vários momentos se separam e se recombinam, vivem interlúdios de contentamento. Mas não é desses que o diretor Mike Nichols, que adapta a peça homônima do inglês Patrick Marber, quer tratar. Perto Demais é um filme sobre começos, finais e recomeços. Ou, mais precisamente, sobre como o amor é em grande medida uma ilusão que, ao ganhar alguma nitidez, deixa de corresponder à expectativa e passa a exigir uma nova miragem de que se alimentar. A falha, postulam o autor e o diretor, não é do sentimento, mas de quem o sente. Como um não existe sem o outro, entretanto, tem-se aí uma charada, que Nichols destrincha com um rigor implacável como ele não tinha coragem de exercitar desde seu primeiro filme, Quem Tem Medo de Virginia Woolf?, de 1966.

Não que os quatro personagens tenham visões similares sobre o que esperam de um relacionamento. Alice, a garota que foi para Londres fugir de alguém que a maltratava, se agarra a Dan como a uma oportunidade de amor e devoção eternos. Dan tira de Alice o que ela tem de ainda mais atraente que a beleza: sua história infeliz, que ele usa num livro – o qual, em seus planos, vai removê-lo de sua insignificância e transformá-lo no homem que ele quer ser. Quando ainda se acredita às vésperas desse sucesso (que não se realizará), Dan conhece a fotógrafa Anna, americana como Alice e divorciada. Anna é uma mulher sem subterfúgios e aparentemente sem carências. Como ela não precisa dele, é ela que Dan passa a desejar. E, em sua obsessão, ele a entrega sem querer ao médico Larry, um homem que não vê insulto em sua masculinidade e em sua franqueza e que, por causa dessa honestidade, é o único aqui com algum poder transformador. Quando Dan rouba Anna dele, Larry maquina um plano para recuperá-la – e, não menos importante, para destruir a virilidade do adversário – que poderia ser descrito como monstruoso, não fosse ter nascido de um desespero tão legítimo. Não há nudez ou sexo em Perto Demais, mas a exposição do íntimo dos personagens é tão cruel, e a linguagem que eles usam tão forte e direta, que a sensação é de explicitude total. Ver Julia Roberts, por exemplo, sem maquiagem e com todas as imperfeições físicas e de caráter à mostra, contando em detalhes para o marido o que fez com o amante na cama, é uma experiência tão incômoda quanto revigorante.

Jude Law, que faz o pusilânime Dan, é o lado mais fraco desse quarteto. Julia Roberts e Natalie Portman brilham, e Clive Owen, por sua vez, ofusca. Sua atuação como Larry é tão vulcânica e impetuosa que David Thomson, o mais prestigiado dos críticos britânicos, escreveu que gostaria de montar uma temporada inteira dos textos do dramaturgo Harold Pinter só para ele. Essa habilidade, a de fazer os atores ir além do que se espera deles e mais um tanto, sempre foi o ponto forte do alemão naturalizado americano Mike Nichols. Desde a década de 70, porém, o diretor vinha diluindo seu estilo numa impostura decepcionante de sofisticação. Mas, desde que dirigiu Emma Thompson em Wit e adaptou Angels in America como uma minissérie para a rede HBO, Nichols reencontrou sua verve. Aos 73 anos, e numa altura de sua carreira em que ninguém mais esperava uma ressurreição, ele acaba de fazer um dos melhores filmes americanos dos últimos anos.

Publicado originalmente na revista Veja em 19/01/2005

Mestre dos Mares – O Lado Mais Distante do Mundo

Todo pano à frente.

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Como se ergue um reino

Com O Senhor dos Anéis – O Retorno do Rei, o diretor Peter Jackson finaliza a tarefa de dar forma à saga escrita por J.R.R. Tolkien

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