Como se ergue um reino

Com O Senhor dos Anéis – O Retorno do Rei, o diretor Peter Jackson finaliza a tarefa de dar forma à saga escrita por J.R.R. Tolkien

A ambição era muito semelhante: criar uma saga heroica passada num universo fantástico e detalhada em três filmes que, ao final, poderiam ser vistos como um só. Tanto Matrix, de 1999, quanto O Senhor dos Anéis — A Sociedade do Anel, de 2001, foram também entregues a diretores que ainda não haviam passado pelo teste do mercado de massa — os americanos Larry e Andy Wachowski, no primeiro caso, e o neozelandês Peter Jackson, no segundo —, mas com visões muito firmes e controle quase total sobre seus projetos. Ambos dependiam ainda de um volume maciço de produção e efeitos especiais pioneiros. Os caminhos seguidos por cada um é que se mostraram muito diferentes. Matrix, com seu tom pop e pós-moderno, parecia de longe o projeto mais próximo do público atual. O Senhor dos Anéis, que se encerra agora com O Retorno do Rei, de pop não tem nada.

O diretor Peter Jackson

Adaptado da obra do escritor inglês J.R.R. Tolkien, é uma história de valentia à moda antiga, com muitos cavaleiros e espadas, e sem nenhuma ironia. O que se especulava é que o filme pregaria aos já convertidos — os fãs de Tolkien —, mas não faria muito mais fiéis além deles. O saldo dessas duas trajetórias, porém, é curioso. Com a decepção gerada pelo segundo e terceiro episódios, Matrix se consagrou como o modelo de trilogia a evitar: vazio, gratuito e mercantilista. O modelo a seguir é O Senhor dos Anéis: coeso, audacioso sempre que se faz necessário (e só quando se faz necessário) e vigorosamente centrado nos seus personagens. Não há dúvida de que o que fez a diferença, aqui, foi a integridade com que o diretor Peter Jackson abordou a adaptação, além de sua capacidade de liderança.

De acordo com todos os relatos, Jackson, de 42 anos, é incansável. Em junho, quando VEJA passou uma semana no set, em Wellington, na Nova Zelândia, ele pilotava as filmagens adicionais com o elenco de O Retorno do Rei. Nesse último capítulo, os hobbits Sam e Frodo (Sean Astin e Elijah Wood) cumprem a etapa mais sofrida de sua peregrinação, a que leva ao vulcão em que o anel forjado por Sauron, o senhor do mal, terá de ser destruído. Ao mesmo tempo, Sauron reúne seus exércitos para uma batalha final contra Aragorn (Viggo Mortensen), Gandalf (Ian McKellen) e seus aliados. À medida que concluía as cenas, Jackson editava o material rodado, corria com a pós-produção (que iria até o fim de outubro) e já supervisionava os primeiros desenhos de cenários e figurinos para a refilmagem de King Kong que deverá lançar em 2005, e que desde já gera muita expectativa.

Em vez de atualizar a história, o diretor decidiu ambientá-la no mesmo período em que foi lançado o filme original — o início da década de 30. E, claro, vai rodá-lo na Nova Zelândia, com sua equipe. Jackson, que é um doce-de-coco, mas tem fama de ser também um negociador duro, vai ganhar pelo novo trabalho o recorde, para um diretor, de 20 milhões de dólares, a ser depois descontados de seus 20% sobre a bilheteria. Diante da grita dos outros estúdios, a Universal argumenta que não está pagando um salário, e sim um pacote completo: da concepção à supervisão das cópias, o diretor cuida de tudo. É só dar o dinheiro a ele e ir jogar golfe. Jackson, aliás, gera seu próprio calor, tanto que sua equipe garante nunca tê-lo visto de calças compridas. Mesmo nas temperaturas congelantes dos Alpes do Sul neozelandeses, que serviram de locação a algumas cenas da trilogia, o diretor não se separou de suas bermudas — “sempre as mesmas”, brinca o inglês McKellen.

O feito de Jackson vai além da trilogia. Com uma produção de cinema apenas esporádica, a Nova Zelândia teve de se reinventar para hospedar a produção de O Senhor dos Anéis. Os móveis usados nos filmes, e hoje guardados nos imensos armazéns no subúrbio de Miramar, em Wellington, estão ainda em perfeito estado: na falta de cenógrafos em número suficiente, eles foram confeccionados por artesãos que vivem de fazer mobília de verdade. O mesmo vale para os talheres dos elfos, ou as catapultas dos orcs, ou ainda as roupas e adereços, todos inteiros após anos de aproveitamento intenso: por não poder contar com gente especializada no faz-de-conta, o diretor recorreu a profissionais que não estão para brincadeira. Formou um time tão grande e eficiente, e criou um clima de tal entusiasmo com o cinema, que abriu um novo mercado.

Hoje a Nova Zelândia não produz apenas filmes como Encantadora de Baleias, um sucesso-surpresa nos Estados Unidos e na última Mostra BR de Cinema, em São Paulo — e, claro, como o próprio Senhor dos Anéis, cujos dois primeiros episódios acumulam uma renda de 1,8 bilhão de dólares. Graças à sua variedade de paisagens, a essa nova oferta de mão-de-obra e aos incentivos que o governo vem oferecendo, o país passou a sediar também filmagens americanas de todos os calibres, de uma comédia modesta com Burt Reynolds (Without a Paddle) a uma superprodução com Tom Cruise (O Último Samurai).

Essa capacidade de improvisar é o orgulho dos neozelandeses, que a chamam de “engenhosidade kiwi”. Se ainda hoje a Nova Zelândia é remota, no tempo da navegação a vela ela era literalmente o fim do mundo. Qualquer encomenda feita à Inglaterra demorava pelo menos seis meses para chegar. Como raramente é prático esperar um semestre por um arado, ou uma arma, os colonos se acostumaram a se virar sozinhos — e o hábito ficou. Para filmar cenários em miniatura, por exemplo, e depois casá-los às cenas rodadas com os atores e aos efeitos digitais, é preciso dispor de gruas robotizadas que repitam um mesmo movimento de câmera quantas vezes seja necessário, com precisão de milímetros, para que a justaposição com os outros elementos fique perfeita. São aparatos imensos e com custo de milhões de dólares. Dada a escala de O Senhor dos Anéis, vários desses seriam precisos, o que tornaria a despesa proibitiva.

O time de Jackson coçou a cabeça, foi atrás de bons engenheiros neozelandeses e terminou por construir suas próprias gruas, com peças de fundo de quintal. Custo: cerca de 20.000 dólares a unidade. Precisão: absoluta, diz, com um brilho nos olhos, Alex Funke, o chefe da área. Em junho, Funke ainda enfrentava um cronograma esmagador, de 200 novas tomadas a ser completadas em trinta cenários diferentes. O trabalho já vinha de tão longe que, desde o início de O Senhor dos Anéis, dez bebês aumentaram as famílias do departamento de miniaturas.

Qualquer número que se refira a O Senhor dos Anéis é, por definição, acachapante. A equipe técnica chegou a empregar 2.400 pessoas ao mesmo tempo, e recrutaram-se 26.000 figurantes. Mais de 48.000 armas brancas foram confeccionadas, além de quase 1.000 armaduras e 300 perucas de cabelo natural, adquirido em Moscou, onde os preços são mais convidativos. Isso sem contar os 15.000 trajes e os 25.000 objetos de cena, segundo uma estimativa conservadora. Para a Batalha de Pelennor, a seqüência mais dramática de O Retorno do Rei, foi preciso varrer a Nova Zelândia em busca de 250 cavaleiros de primeira classe. Como não havia homens que bastassem, colocaram-se várias mulheres, em trajes masculinos, no meio da tropa. Isso, claro, sem falar naquele número que poderia ter posto tudo a perder: 500 milhões. De dólares — 300 milhões investidos na produção do filme e 200 milhões para custear a distribuição e o marketing.

Se A Sociedade do Anel tivesse sido um fracasso, ou um sucesso apenas mediano, o estúdio New Line teria se tornado a bola da vez, pela decisão intimorata de rodar três filmes de um só golpe. Hoje, ao contrário, a New Line é objeto de inveja, para a satisfação (e saúde) do produtor Mark Ordesky, que bancou a aposta de Jackson junto ao estúdio e no início do mês completou quase quatro dezenas de viagens de ida e volta entre Wellington e Los Angeles.

Peter Jackson e o compositor Howard Shore

Uma produção que é um monstro de várias cabeças e uma montanha de dinheiro em jogo: seriam justificativas razoáveis para um set com temperatura e pressão equivalentes às de um reator nuclear. Em Miramar, ao contrário, reinava a paz, apesar da atividade e dos dias de trabalho que se estendiam por dezoito horas. Nada de relações-públicas tentando manter a imprensa confinada, ou de astros isolados em trailers luxuosos. Meses antes do lançamento de cada filme, Peter Jackson analisava sua primeira montagem atrás de furos ou cenas que ainda deixavam a desejar, e reunia seu elenco para tomadas adicionais. Todos voltavam à Nova Zelândia e agiam segundo a moda da terra: com o máximo de bom humor e sem stress.

Dos atores principais aos puxadores de cabos, todos faziam fila, à hora da refeição, para se servir dos mesmos pratos e comer na mesma tenda improvisada, sem estrelismos. De certa forma, é como se O Senhor dos Anéis fosse o maior filme independente de todos os tempos. E Jackson, ao que parece, encontrou a fórmula para um casamento feliz, a julgar pelos seus planos para King Kong. Para que ele não acabe em divórcio, o melhor é manter o clima de namoro, com os donos do dinheiro numa casa, nos Estados Unidos, e o dono do filme em outra — na Oceania, a uma distância prudente de 11.000 quilômetros.


Tudo o que um épico deve ser

Enumerar as falhas de O Retorno do Rei é, diante dos acertos desse último capítulo da trilogia, uma mesquinharia — mas pode ajudar a entender suas qualidades. Depois de uma abertura esplêndida, na primeira hora o filme engasga aqui e ali e demora a engrenar. Vários dos diálogos trazem ainda os vincos do texto escrito. O filme se encerra um pouco depois do necessário. E, embora tenha sido criada pelo linguista e escritor inglês J.R.R. Tolkien entre as décadas de 30 e 50, a história tem as limitações clássicas das sagas de origem medieval, nas quais ele se inspirou: o que se tem aqui é o bem contra o mal, sem zonas cinzentas entre os dois extremos.

O que é surpreendente, entretanto, nesse terceiro filme como nos dois anteriores, é que só haja problemas de ritmo na primeira hora (são 200 minutos de projeção), que tantos dos diálogos soem críveis — quando não emocionantes —, que as diversas histórias paralelas se equilibrem, e que se escape do maniqueísmo e do tom triunfalista tão comuns às sagas. A verdade é que, por mais empolgante que possa ser no papel, a obra de Tolkien é uma massa intratável, que derrotara todas as tentativas de adaptação até aqui. Que o diretor Peter Jackson não só tenha feito jus às possibilidades que ela engendrava, como seja capaz de entregar um filme que, em muitos aspectos, supera sua fonte, é um feito admirável. Mais ainda quando se lembra que O Senhor dos Anéis é uma fantasia, um gênero que, como o próprio diretor admite, está sempre a um pequeno passo de descambar para o paródico. Não dar esse passo, portanto, é outra conquista.

Jackson se mostra sempre no seu melhor nas passagens sombrias e épicas, e há muitas dessas em O Retorno do Rei, em que a própria existência humana está em jogo. Se o hobbit Frodo não destruir o anel de Sauron — tarefa que se torna cada vez mais penosa para ele —, o senhor das trevas vai triunfar. O mesmo acontecerá se Aragorn, o rei do título, não assumir plenamente seu posto de liderança. Da luta solitária de Frodo, portanto, à colossal Batalha de Pelennor, todos os personagens são colocados contra seus limites — uma contingência que mostra também o valor do elenco escolhido por Jackson.

Relutar sem recuar, aceitar que não há vitória sem perda ou mostrar coragem apesar do medo são lugares-comuns desse tipo de ficção, que poderiam cair facilmente no vazio sem atores como Viggo Mortensen, Elijah Wood, Miranda Otto e Bernard Hill para lhes dar corpo. O que o diretor põe em relevo, no entanto, é menos a oposição entre bem e mal, ou nós e eles, e mais um pensamento, digamos, metafísico: o bem sabe do que o mal é capaz, mas o mal é incapaz de compreender o bem e imaginar que sacrifícios se podem fazer em nome dele, e é essa a sua fraqueza. Nos momentos em que, com a ajuda de seu elenco, da trilha sempre soberba de Howard Shore e do seu instinto para criar imagens arrebatadoras, Jackson consegue pôr essa ideia em evidência, O Retorno do Rei cresce para além dos limites do fantástico e entra na categoria dos verdadeiros épicos.

Publicado originalmente em VEJA de 17 de Dezembro de 2003

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