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Matadores de Velhinha

Mera imitação

Os irmãos Coen pisam em falso com Matadores de Velhinha, tirado de um clássico dos anos 50

Antes de Alec Guinness passar à história – para seu desgosto – como o Obi-Wan Kenobi de Star Wars, ele era conhecido como um ator de versatilidade inimitável, capaz de se sentir igualmente à vontade num drama de guerra como A Ponte do Rio Kwai ou no ciclo de comédias que fez para o estúdio inglês Ealing, nos anos 50, e que virou um sinônimo do humor britânico – polido, mas negro e cortante, e com um pé no nonsense. Dessa meia dúzia de filmes, o mais conhecido é Quinteto da Morte, em que Guinness interpreta um sujeito de ar professoral que, junto com outros quatro companheiros (entre eles Peter Sellers), aluga a casa de uma velhinha para os ensaios de seu conjunto de música clássica. Na verdade, eles querem usar os aposentos para perpetrar um crime – que a velhinha, em sua inocência, vai frustrar de maneira formidável. Além de ser uma grande comédia, Quinteto da Morte é um retrato da Londres típica do pós-guerra, empobrecida mas determinada a manter as aparências, e um veículo ideal para Guinness, que não só adorava usar disfarces – aqui, dentes tortos e um jeito arrevesado de falar – como efetivamente sabia ocultar-se atrás deles. Que Tom Hanks não tenha esse mesmo dom é apenas um dos tropeços de Matadores de Velhinha, a refilmagem dos irmãos Joel e Ethan Coen para Quinteto da Morte.

Em sua versão, os Coen transpõem a história para o sul dos Estados Unidos, nos dias de hoje. No lugar da velhinha inglesa, tem-se uma senhora negra vigorosamente religiosa, que conversa com o retrato de seu finado marido e mora sozinha num casarão a poucas quadras de um cassino flutuante – para cujo cofre o professor G.H. Dorr (Tom Hanks) e seus amigos pretendem cavar um túnel, usando o porão de sua locadora como ponto de partida. Está-se, portanto, numa comunidade provinciana repleta de tipos pitorescos, um cenário do qual os irmãos Coen tiraram grande partido – além de algumas considerações mordazes sobre a natureza humana – em filmes como Arizona Nunca Mais e Fargo. Dessa vez, porém, a ênfase fica mais na imitação do que na recriação, e mais nos tipos do que nas idéias. Assim, o tempo que os diretores despendem focalizando a elaborada (e estéril) caracterização de Tom Hanks e do restante do elenco é desproporcional ao que os personagens têm a dizer, que é pouco ou nada. A exceção fica por conta da ótima Irma P. Hall, que faz a velhinha apanhada na trama criminosa. Caminhando no sentido contrário ao do filme, Irma tira da figura genérica que lhe foi confiada uma ingenuidade e uma honestidade críveis e encantadoras. Embora seja a personagem mais distante do Quinteto da Morte de 1955, é a única que faz jus ao original e ao espírito humorístico de Guinness. Quando ela está em cena – e apenas quando ela está em cena –, Matadores de Velhinha consegue ser uma grande comédia.

Isabela Boscov
Publicado originalmente na revista VEJA no dia 23/06/2004
Republicado sob autorização de Abril Comunicações S.A
© Abril Comunicações S.A., 2004

MATADORES DE VELHINHA
(The Ladykillers)
Estados Unidos, 2004
Direção: Joel e Ethan Coen
Com Tom Hanks, Irma P. Hall, Marlon Wayans, J.K. Simmons, Tzi Ma, George Wallace

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