Em “A Escavação”, uma viagem no tempo

Na Netflix, filme com Ralph Fiennes e Carey Mulligan recria um achado arqueológico espetacular

Assista aqui a resenha em vídeo:


Leia aqui a minha resenha da revista VEJA:

“A Escavação’, da Netflix, revela tesouros do mundo anglo-saxão

Filme conta a história de um achado que mudou a compreensão desse universo — e reforça a importância do conhecimento para a humanidade

Do navio propriamente dito, só restava o fantasma — um decalque perfeito, na terra, do carvalho comido pelo solo ácido ao longo de 1 400 anos. Mas, onde um dia estivera a câmara funerária, um tesouro ia surgindo aos poucos: moedas, joias e fragmentos entre os quais, bem mais tarde, se revelariam uma espada e um capacete riquíssimos — coisa para reis. Ainda hoje não se sabe quem foi o figurão que mereceu o trabalho de ter seu próprio navio usado como tumba (a embarcação de 27 metros teve de ser arrastada por terra, por longa distância). Mas o achado de 1939 na propriedade de Sutton Hoo, no condado inglês de Suffolk, mudou a ideia que se fazia do passado distante nas Ilhas Britânicas: o que veio à luz, ali, era uma Alta Idade Média — o período que vai dos séculos V ao X — de comércio, exploração e ritual vibrantes, e com artesania tão elaborada que os ourives do Museu Britânico penam para fazer réplicas dessas riquezas. Sutton Hoo está para o mundo anglo-­saxão mais ou menos como a tumba de Tutancâmon está para a egiptologia. E se essa peça fundamental para o quebra-cabeça da história foi achada, deve-se tudo a Edith Pretty, viúva com má saúde e senso de urgência, e a Basil Brown, homem excepcional que ela contratou para escavar os montes que havia em suas terras.

Com alguma ficcionalização e acomodação dos fatos e bastante delicadeza — às vezes, em excesso —, esse é o episódio que A Escavação (The Dig, Inglaterra, 2021), já na Netflix, recupera para falar sobre como nunca é possível saber ou conhecer demais, e sobre como, qualquer que seja o saldo de iluminar algo, ele é preferível à ignorância ou ao equívoco. Adaptado do romance do escritor e jornalista John Preston e dirigido por Simon Stone, um nome em ascensão no teatro inglês, o filme trabalha esse tema em todos os seus personagens. Por exemplo, na jovem Peggy (Lily James), inexperiente demais para entender por que o casamento com seu professor é tão morno, ou no pequeno Robert Pretty (Archie Barnes), angustiado por pressentir em sua mãe um problema que todos escondem dele. Mas é trabalhado acima de tudo nas figuras de Edith (Carey Mulligan) e de Brown (Ralph Fiennes), opostos no rígido sistema social inglês que convergem na sua inquietação intelectual.

É difícil imaginar muitas situações em que uma mulher rica, instruída e viajada como Edith Pretty (1883-1942) pudesse conviver de perto com um homem como Basil Brown (1888-1977), um filho de lavrador que largou a escola aos 12 anos. Estudando por correspondência, Brown formou-se em geografia, geologia, astronomia e desenho, e ensinou a si mesmo grego, francês, alemão e espanhol. Principalmente, desenvolveu um conhecimento profundo de arqueologia, embora, por não ter instrução formal, fosse chamado de “escavador”. O pedantismo em nada muda o fato de que foi ele quem descobriu e explorou um importante sítio romano para o Museu de Ipswich — e foi ele também quem abriu em Sutton Hoo um caminho para o passado ainda hoje muito longe de se esgotar, tal a quantidade de achados que o sítio continua a render.

Foi um amador, também, munido de um detector de metais, o responsável por outro achado estarrecedor feito em 2009: o “Tesouro de Staffordshire”, localizado no que foi o reino anglo-saxão de Mércia, é o maior conjunto de artefatos anglo-saxões jamais encontrado, com cerca de 3 500 fragmentos em ouro, prata e granadas — a pedra usada também nos adornos de Sutton Hoo —, que podem ter vindo do Afeganistão e ser herança da ocupação romana. Depositado no século VII, o tesouro de Staffordshire começa a contar já outra história: a do forte avanço do cristianismo e a da correspondente rejeição a ele. O punhado de objetos que fogem ao tema marcial do conjunto, entre os quais três crucifixos elaboradíssimos, provavelmente foi colocado ali como modo não de exaltar, mas sim de aniquilar seu valor simbólico. A cada pá de terra que se remove da história, assim, ela ganha nova feição, fica mais completa — e muda também o presente.

Publicado em VEJA de 3 de fevereiro de 2021, edição nº 2723

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