Eu também, afinal, me rendi a “Cobra Kai”

É uma graça a história de como Danny LaRusso e Johnny Lawrence, os rivais de “Karatê Kid”, continuam a bater cabeça na meia-idade

Achei que não era muito a minha praia: em 1984, quando Karatê Kid foi lançado, eu estava em outra; vi na época, achei bonitinho, mas não entrou para a minha galeria de favoritos sentimentais (como, por exemplo, Curtindo a Vida Adoidado, que é uma paixão até hoje). Eu lembrava de Danny LaRusso, do sr. Miyagi e de “wax on, wax off”, e olhe lá. Mas, de tanto todo mundo falar, fui conferir. E não é que adorei? Gosto mais da primeira temporada que da segunda – explico já já –, mas é bem escrito e cheio de graça, nos dois sentidos: tem humor e tem também uma meiguice que não é comum em séries sobre rivalidades adolescentes. Cobra Kai tem, acima de tudo, um tipo de charme que não pode ser fabricado – a nostalgia sincera dos atores por aquele momento, e a vontade de revivê-lo com criatividade. O que me ganhou na maneira como Ralph Macchio e William Zabka retornam aos personagens de Danny e Johnny Lawrence é que, cada um à sua maneira, ambos empacaram lá no passado (mais ou menos como a carreira dos dois atores, algo que eles assumem com finesse): aquele torneio de 1984, que terminou com o bonzinho Danny vitorioso e o beligerante Johnny derrotado, ainda é a coisa mais importante que aconteceu na vida dos dois . Por isso, quando o caminho deles se cruza mais uma vez, eles imediatamente entram em modo adversário de novo. São dois marmanjos de meia-idade se comportando como adolescentes amuados – e o jeito adorável como a brincadeira é levada responde pelo estouro da série, que passou praticamente despercebida na primeira temporada, feita para o YouTube Red, e virou mania no momento em que a Netflix a encampou.

De tão competitivos, aliás, Danny e Johnny acabam arrastando um bando de garotos e garotas para a rivalidade deles – e essa é outra graça da série. Johnny, cuja vida virou um fracasso, se reencontra ao reabrir o dojo Cobra Kai, arrebanhando para ele todos os meninos vítimas de bullying da escola e ensinando-os a ser tão valentões quanto ele próprio (as sensibilidades de Johnny para questões de gênero e aparência também estacionaram nos anos 80, algo que os criadores exploram de modo muito divertido). E Danny, que ficou rico com suas concessionárias de automóveis de luxo e é um pai de família muito realizado, embirra na hora ao ver o velho inimigo dando um jeito na vida: tenta de todas as maneiras boicotar Johnny e ainda abre o próprio dojo, o Miyagi Do. Mas não entusiasma muito a freguesia com sua mensagem pacifista. Só a própria filha dele e o filho de Johnny, o rebelde Robby (Tanner Buchanan), que vai indo pelo mau caminho, aderem aos métodos serenos de Danny. Frustrado, ele acaba dando vazão aos piores instintos – mas, enquanto isso, Johnny vai aprendendo uma coisa ou outra, o que faz com que os dois se revezem o tempo todo nas funções de mocinho e bandido.

Para mim, a rivalidade entre os dois e entre os respectivos dojos já era tudo de que a série precisava. Por isso gosto menos da segunda temporada, que abre espaço para um vilão que é só isso mesmo, um sujeito mau-caráter e rancoroso. É uma maneira de fazer a trama andar, mas ela vem com prejuízo àquela atmosfera de aventura inocente tão à moda dos anos 80. Também não gosto do ator, um tipo muito careteiro e monótono; embora Macchio e Zabka não tenham exatamente carregado para a fase adulta as glórias da adolescência, eles dão conta dos seus personagens com enorme simpatia – e Zabka, em especial, é uma revelação, além de ter uma ótima química com a parte jovem do elenco. O vilão, infelizmente, vai continuar na história. Mas, à parte ele, dá tudo tão certinho em Cobra Kai que já anotei na agenda: começo a terceira temporada no dia da estreia, em 8 de janeiro, com a paz de espírito garantida pelo anúncio de que a temporada 4 já está também ela a caminho.

Uma consideração sobre “Eu também, afinal, me rendi a “Cobra Kai””

  1. Johnny é um personagem delicioso, ficou nos 80 com todo politicamente incorreto da epoca, o que já é um grande tapa na cara nesse atual momento.

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