Só filmão: 9 ótimas novidades no catálogo da Netflix

Reforço no acervo de clássicos – modernos e nem tanto – garante uma semana de programação de primeira


Psicose

Em fuga com 40 mil dólares roubados de seu chefe e a caminho de encontrar seu amante na Califórnia, a secretária Marion (Janet Leigh) é pega por uma tempestade. Cansada de dirigir e sobressaltada, decide passar a noite em um motel de beira de estrada tocado pelo jovem Norman Bates (Anthony Perkins), um rapaz estranho e dominado pela mãe tirana. E pronto: quem por um acaso não sabe o que se passa daí por diante tem pela frente um dos suspenses mais formidáveis já feitos – uma coleção de cenas antológicas (o chuveiro, Norman na frente de sua casa, o momento em que o detetive Arbogast sobe a escada etc. etc.) unidas de maneira também ela antológica e ressaltadas pela trilha, digamos, matadora de Bernard Herrmann. Não há o que discutir: Alfred Hitchcock sabia tudo sobre como filmar com o mínimo de elementos para o máximo de efeito. E, se hoje é norma entrar na sala de cinema antes do início da sessão, e não a qualquer momento, é porque Hitchcock institui a regra nos cinemas americanos que exibiam Psicose – para proteger as surpresas da trama e porque era também um gênio do marketing.

 Psycho, 1960

Bravura Indômita

Em princípio, seria uma temeridade que um diretor (ou dois, no caso) ousasse refazer aquilo que já havia saído tão bom da primeira vez – o Bravura Indômita com John Wayne, de 1969. Mas, à sua maneira, o Bravura Indômita dos irmãos Ethan e Joel Coen (que não é uma refilmagem, mas sim uma readaptação do livro de Charles Portis) é um filme tão grande quanto o original. Mattie (Hailee Steinfeld), de 14 anos, vai buscar em outra cidade o corpo de seu pai, que foi assassinado por um empregado, e fica sabendo que o assassino não será levado à Justiça porque fugiu para território indígena. Mas, de uma forma ou de outra, ele terá o que merece, decide a menina, que contrata o xerife federal Rooster Cogburn (Jeff Bridges) para perseguir o criminoso. Mattie opta por Rooster porque ele é o sujeito mais implacável, valente e tenaz que já passou por ali (além de meio velho, meio gordo e meio cego, e um dos mais amigos da garrafa também). Junta-se a eles ainda LaBoeuf (Matt Damon), um Texas Ranger certinho e galante. Os diálogos são um sonho: uma troca incessante de rebarbas curtas que reproduzem com fidelidade o linguajar oblíquo e curioso do Oeste dos anos 1880 – e que, à medida que o relacionamento entre os três protagonistas evolui, vai ganhando aqui e ali as interjeições e os vocativos de uma discreta afeição. Onde o filme original às vezes via apenas graça, os Coen enxergam brutalidade, mas também poesia.

 True Grit, 2010

Rio Grande

E, por falar em John Wayne, ele comparece aqui na sua forma de santíssima trindade do faroeste: na companhia de Maureen O’Hara e sob a direção de John Ford. No papel do oficial da cavalaria Kirby Yorke, ele emprega todas aquelas suas consoantes arredondadas e aquele jeito inimitável de andar à tarefa de conter ataques dos apaches, pôr um freio no seu filho, um recruta dado a atitudes intempestivas, e reconciliar-se com a mulher, de quem está há muito separado. É verdade que não tem a grandeza de outros westerns magistrais estrelados por Wayne e dirigidos por Ford, como No Tempo das DiligênciasForte Apache ou o sublime Rastros de Ódio – mas, em se tratando dessa parceria, dizer que um filme é “menor” não significa de maneira nenhuma dizer que ele é “mediano”. Caloroso e doce-amargo, é uma boa porta de entrada à produção da dupla.

 Rio Grande, 1950

Cassino

Uma escolha impossível: qual o melhor filme de máfia de Martin Scorsese, Os Bons Companheiros (1990) ou Cassino? Melhor nem tentar optar e simplesmente assistir aos dois, pela ordem. Se Os Bons Companheiros trata em registro embriagante da ascensão e queda nas fileiras mafiosas de um “soldado” vindo de fora do círculo siciliano (o descendente de irlandeses interpretado por Ray Liotta), Cassino o faz em clima de “bad trip” ao acompanhar a trajetória do judeu Sam Rothstein (Robert De Niro) no comando de um cassino de Las Vegas para a Cosa Nostra. Tenso, angustiante, amargo e conduzido por uma narração atordoante em voice-over (além de uma seleção musical fantástica), tem ainda um Joe Pesci de meter medo e um desempenho de pura bravura de Sharon Stone, como a prostituta e viciada que se casa com Rothstein apesar de ter asco dele.

 Cassino, 1995

Indiana Jones e o Templo da Perdição, Indiana Jones e a Última Cruzada, Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal

Fica completa a quadra de aventuras do arqueólogo, agora que os três títulos que faltavam juntam-se a Caçadores da Arca Perdida, que já estava no acervo. Templo da Perdição é bacana, A Última Cruzada é uma maravilha (e como não seria, tendo Sean Connery?) e Caveira de Cristal é fraquinho que dói, mas vá lá.

 Indiana Jones and the Last Crusade, 1989

O Resgate do Soldado Ryan

Aquela quase meia hora inicial do desembarque Aliado na Normandia, em 6 de junho de 1944, é de arrepiar os cabelos: nunca a plateia estivera tão dentro de um operação semi-suicida de guerra quanto aqui. Aí começa a busca, lenta e episódica, do pelotão de Tom Hanks pelo soldado Matt Damon, e chovem as acusações habituais a Spielberg a respeito de seu sentimentalismo e seu enaltecimento do heroísmo. Digo por mim: quanto mais eu revejo o filme, mais gosto dessa parte – da maneira como Spielberg retrata o downtime da guerra, aqueles dias ou horas em que nada parece acontecer e então, em um instante, algo acontece.

 Saving Private Ryan, 1998

Amor Sem Escalas

Mais de 320 dias ao ano, Ryan Bingham (George Clooney) repete o ritual. Faz a mala, sai do hotel e embarca para outro destino, rumo a mais uma cidade que pouco significa para quem não more nela – Tulsa, Des Moines, Wichita, Kansas City –, para mais um dia de um trabalho que ele desempenha com maestria, em todo o seu trágico exotismo: Ryan é um “demissor”, contratado por outras empresas quando há corte de pessoal a fazer. Viaja, senta-se em um escritório no qual nunca esteve e demite pessoas que nunca viu, impelindo-as a interpretar esse momento catastrófico como a chance de recomeçar; como um agente funerário, ele compreende que o consolo de um rito de passagem é essencial. É um homem tão compassivo que sua própria impessoalidade é um gesto de piedade. Nunca diga ao demitido quanto é desagradável demiti-lo, ensina: o seu incômodo nada significa diante do sofrimento de perder o sustento e o respeito. O diretor Jason Reitman toma personagens frequentes na iconografia americana, aquelas pessoas que compensam a paralisia emocional com a eficiência profissional, e cuida de expô-las no que têm de mais tenro e terno; cada demissão efetuada por Ryan é uma pequena tragédia distinta, e cada pequena história revela algum novo detalhe sobre Ryan, sobre Alex (Vera Farmiga), a mulher madura com quem ele inicia um relacionamento que eles fingem ser casual, e sobre Natalie (Anna Kendrick), a novata que tem o plano de fazer demissões mais econômicas via internet. O título nacional nada significa; o original, Up in the Air, além de mencionar o modo de vida itinerante do protagonista, quer dizer que as coisas estão “no ar”, indefinidas.

 Up in the Air, 2009

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