Novos canais de streaming recuperam raridades do cinema; veja dicas

Com as salas fechadas, as distribuidoras de produções alternativas lançam plataformas com títulos clássicos e premiados — além de tesouros esquecidos

É populoso o pódio das atividades mais afetadas pela Covid-19: o transporte aéreo, os restaurantes e hotéis, setores da indústria e do comércio — e certamente a cultura. Dentro dela, o cinema definha da produção à exibição. Os grandes estúdios de Hollywood têm caixa para suportar a paralisação e transferir seus principais lançamentos para o fim deste ano ou 2021; o restante do setor, porém, luta para afugentar o fantasma da falência. Desse panorama de angústia, ideias têm brotado. Em vários países começam a reviver os nostálgicos drive-­ins dos anos 50, e espaços como o paulistano Memorial da América Latina recebem motoristas para uma sessão segura. Bem mais amplo é o alcance de uma iniciativa das distribuidoras brasileiras do circuito alternativo ou de arte: sozinhas ou em consórcios, elas vêm fazendo seu catálogo circular em recém-criadas plataformas de streaming que são verdadeiros festivais de cinema.

OS OLHOS DE CABUL (2019) – Em um traço belíssimo, esta animação trata das colisões trágicas entre a normalidade e o fanatismo do Talibã, no Afeganistão de 1998, por intermédio do relacionamento de dois casais muito diversos. No cinemavirtual.com.br

Com a sacudida nos hábitos promovida pela pandemia, também Net­flix, Amazon e Globoplay — que formou uma parceria com a distribuidora de arte Imovision — reforçaram a presença de filmes clássicos ou “de nicho”. Mas sites ou aplicativos como o do Belas Artes à la Carte, Mubi e Cinema Virtual são bem diferentes: o acervo é pequeno, mas é coeso e escolhido a dedo. Entre os títulos inéditos em estreia contam-se o fortíssimo polonês Corpus Christi, o búlgaro O Pai, da dupla de cineastas que assinou os premiados A Lição e Glory, o sérvio A Carga (este, numa parceria do Mubi com o festival Olhar de Cinema) ou ainda o terror psicológico inglês Até que Você Me Ame. Filmes recentes que tiveram exibição restrita são outro forte. É o caso do excelente macedônio Deus É Mulher e Seu Nome É Petúnia ou do curioso francês O Professor Substituto, este oferecido na versão virtual do Festival de Cinema Varilux.

CORPUS CHRISTI (2019) – No reformatório, um rapaz experimenta um intenso despertar espiritual — e, ao sair, passa-se por padre em uma comunidade marcada pela tragédia. Tenso e inquietante, concorreu ao Oscar deste ano. No cinemavirtual.com.br

A maior graça dessas plataformas, entretanto, está na possibilidade de topar com títulos que, por uma razão ou outra, foram caindo pelas frestas da distribuição no Brasil e assim se tornaram raridade. No Mubi e em especial no Belas à la Carte, a seleção é atordoante. Inclui desde clássicos do tipo que cinéfilos descrevem como “indispensáveis” até itens recentes premiados em festivais internacionais. O deleite, porém, está nos tesouros tirados do fundo do baú — filmes nem tão antigos assim, ou que não necessariamente são de primeira grandeza, mas que provocam aquela sensação boa de descoberta. Pode ser Peter O’Toole no papel de um náufrago obcecado por um submarino alemão (Seu Último Combate, 1971), ou um exercício desajeitado de iniciante da diretora Kathryn Bigelow (Quando Chega a Escuridão, 1987). Pode ser, talvez, a estranha saga medieval Navigator, uma Odisseia no Tempo (1988), ou quem sabe o formidável Vá e Veja (1985), do russo Elem Klimov, sobre a invasão nazista à Bielorrússia. A lista não é infinita, claro. Mas é longa o bastante para divertir espectadores curiosos durante semanas ou meses a fio, até que as salas de cinema concluam que cara terá essa criatura tão elusiva chamada “o novo normal”.

O PAI (2019) – No trabalho mais recente da dupla búlgara Kristina Grozeva e Petar Valchanov, pequenas mentiras e segredos fúteis instauram uma crise familiar quando o velho Vasil perde a mulher e viaja com o filho em busca de um médium. No belasartesalacarte.com.br

O Pequeno Buda

Um menino americano talvez seja uma reencarnação de Buda. Paralelamente, Keanu Reeves vive o príncipe que renunciou à vida material e se tornou Buda. Criticado na estreia, o filme de Bernardo Bertolucci sai beneficiado pelo tempo.

Little Buddha , 1993

O Sol Enganador

Esta maravilha do diretor Nikita Mikhalkov como que suspende o tempo: em 1936, um herói soviético colocado em suspeição por Stalin vive um dia perfeito de verão no campo – mas a sua ruína já se faz perceber.

Utomlennye Solntsem, 1994

O Baile dos Bombeiros

Proibida pelo comunismo checo, a deliciosa comédia de Milos Forman (de Amadeus) sobre a festa de aposentadoria de um bombeiro em uma cidadezinha é uma sátira velada aos vícios soviéticos.

Horí, má Panenko, 1967

Pelle, o Conquistador

O “chororô de arte” foi produto de exportação escandinavo nos anos 80 e 90. Aqui, Bille August narra a desilusão de um pai e filho que imigram da Suécia para a Dinamarca.

Pelle Erobreren, 1987

Dersu Uzala

Na virada do século XIX para o XX, um capitão do Exército russo lidera uma expedição na Sibéria tendo como guia um velho caçador nativo. Akira Kurosawa levou quatro anos para rodar o filme em locação.

Dersu Uzala, 1975

Tampopo – Os Brutos Também Comem Spaghetti

Sucesso espontâneo na época de seu lançamento, esta curiosidade japonesa homenageia os faroestes e os filmes de gângster enquanto acompanha os esforços de uma viúva para fazer o lámen perfeito.

Tampopo, 1985

Quando Papai Saiu em Viagem de Negócios

O rompimento entre a União Soviética e a Iugoslávia, nos anos 50, deflagra uma tragédia para a família de Mesa. Narrado em tom memorialístico, é ilustrativo da “nova onda” do Leste Europeu dos anos 80.

Otac na Sluzbenom Putu, 1985

Publicado em VEJA de 17 de junho de 2020, edição nº 2691

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