Clint Eastwood faz 90 anos na ativa: 10 filmes para ver no streaming

Maior ícone americano vivo, o ator e diretor continua inquieto, lúcido – no sentido superior da palavra – e firme no trabalho

Não há carreira tão longa no cinema americano – nem tão cheia de altos e baixos, de triunfos formidáveis e de revisões desassombradas da própria trajetória, do próprio país, das próprias crenças. Clint Eastwood é, sem dúvida, o maior ícone americano vivo. Para mim, porém, é acima de tudo a prova de que poucas coisas podem ser mais valiosas do que a independência de espírito – que, nele, vem conjugada à disposição de rever, reavaliar e reconsiderar. Lamentavelmente, não achei à disposição em nenhuma plataforma de streaming brasileira Menina de Ouro, de 2004, um dos filmes mais fustigantes que Eastwood fez. Mas esses outros nove títulos que se seguem (mais ou menos na minha ordem de preferência) 


Os Imperdoáveis

Globoplay, Looke, NOW

Viúvo e miserável, o ex-pistoleiro de aluguel Will Munny se vê obrigado a deixar a fazendinha falida e retomar uma última vez a vida que deixara para trás. Clint Eastwood põe na balança nove décadas de westerns e vários séculos de violência. Sai carregando o peso do mundo nos ombros, em um faroeste trágico, grandioso e belíssimo que é um dos maiores da história do cinema.

 Unforgiven 1992

Gran Torino

Looke, NOW

Racista, ranzinza, irascível e desgostoso com a frivolidade que tomou conta da vida americana, o operário aposentado Walt Kowalski aprende coisas que nunca sonhara na vida ao travar contato com o rapaz e a garota asiáticos da casa ao lado. Outra máxima no credo de Eastwood: a de que é pelos princípios, e não pelo sangue, que as pessoas se unem. Lindo – e com um final acachapante

 Gran Torino, 2008

Perseguidor Implacável

Globoplay

“Dirty” Harry Callahan é um herói, ou é um anti-herói? Prova da complexidade do policial icônico vivido por Eastwood e dirigido por Don Siegel é que até hoje essa é uma questão que está longe de ser decidida. Em São Francisco, então a capital do paz-e-amor, Harry enfia o revólver na cabeça de um ladrão e sofisma com ele: já disparou todas as balas, ou ainda falta uma? Harry é um anjo vingador, e encarna algo de essencial em Eastwood: a ideia de que um homem tem de prestar contas sobretudo às suas próprias convicções. É o melhor e mais complicado retrato da passagem dos sonhadores anos 60 para a desencantada década de 70.

 Dirty Harry, 1971

A Trilogia Spaghetti

(Por um Punhado de Dólares, Por uns Dólares a Mais, Três Homens em Conflito – 1964-1966)

Looke, NOW

À toa na vida depois de sair do seriado Rawhide, o jovem Clint topou ir rodar um filme na Itália sob direção do então desconhecido Sergio Leone. O resultado: um trio de clássicos estupendos, um gênero novo e até hoje copiadíssimo – o faroeste-spaghetti –, e uma carreira que repentinamente se tornou icônica.

 The Good, the Bad and the Ugly, 1966

Sniper Americano

Looke

Recriando a trajetória de Chris Kyle (Bradley Cooper), atirador de precisão com 160 mortes confirmadas na Guerra do Iraque, Eastwood encara de frente o peso da responsabilidade individual: a solidão de um sniper é verdadeira, a consequência de suas decisões é inalterável e a intimidade com o alvo em sua mira não tem paralelo nas outras situações de combate. A tração sobre sua psique, portanto, é incalculável. Como disse o próprio Eastwood – ou seu personagem – em Os Imperdoáveis, “matar um homem é uma coisa infernal. É tirar dele tudo que ele tem, e tudo que jamais vai ter”. Matar 160 homens, ainda que em situação de necessidade imperativa e conforme as regras militares, é todos os nove círculos do inferno.

 American Sniper, 2014

O Caso Richard Jewell

Looke, NOW

Obeso, meio simples, apegado à mãe – portanto, objeto constante de ridículo – e sempre sonhando com uma carreira na polícia, o segurança Richard Jewell evitou um grande número de mortes ao identificar uma bomba durante os Jogos Olímpicos de Atlanta, em 1996. Mas, em dois dias, passou de herói a suspeito, em uma campanha assustadora de demolição pessoal liderada pelo FBI. Parte de uma leva recente de Eastwood sobre o heroísmo de que às vezes são capazes as pessoas comuns – e sobre o preço que elas pagam por isso.

 Richard Jewell, 2019

Sully: O Herói do Rio Hudson

Netflix, NOW

Examinando ao mesmo tempo a manobra de pouso no Rio Hudson que salvou todos os passageiros de um jato em 2009, e a investigação implacável das autoridades aéreas sobre essa mesma manobra, Eastwood localiza na figura do piloto Chesley Sullenberger III (Tom Hanks) a definição do que, para ele, significa o “fator humano”: não o motivo de erros, mas a razão de acertos quase impossíveis.

 Sully, 2016

Sobre Meninos e Lobos

Globoplay, Looke, NOW

Numa tarde qualquer, três meninos têm sua amizade, e a infância, interrompidas por um ato brutal. Anos depois, já adultos, os três se veem novamente ligados pela brutalidade – o assassinato da filha adolescente de um deles – e descobrem que sempre viveram sob a sombra daquela primeira agressão, e que ela ainda tem muito a ditar. Eastwood leva aqui muito adiante a sua reflexão sobre o poder que a violência tem de corromper e sobre o abismo catastrófico que separa a justiça da retribuição.

 Mystic River, 2003

Além da Vida

Globoplay, Looke, NOW

Três personagens que nada têm entre si – e cujas histórias nem se cruzam – vivem experiências que os levam a crer em algo após a morte. Eastwood é tão comedido que nem há como identificar quais suas convicções pessoais sobre a sobrevivência do espírito. Tudo o que importa é que seus protagonistas, seja com entrega, seja com relutância, acreditam nela: foram tocados de perto pela morte muito antes do que seria justo ou natural, e ela agora define suas vidas. Entender as dúvidas que uma perda enseja já seria bastante. Mas o que ilumina este filme é a certeza funda sobre as coisas pelas quais vale viver.

 Hereafter, 2010

A Mula

HBO

Duas constantes nos filmes em que Eastwood é diretor e também ator são a necessidade de crescer moralmente – vale dizer, aprender ou rever alguma coisa crucial a respeito do mundo e de si mesmo – e a relação entre pais e filhas. As duas coisas estão ligadas: nos seus filmes, as filhas (biológicas ou não) chacoalham o mundo do protagonista e reorganizam o seu sistema de valores. É esse o ponto a que se destina A Mula, sobre um velho inconsequente que usa o salvo-conduto da idade para transportar drogas para um cartel e que, na hora em que a coisa realmente aperta, ganha apoio de onde menos espera, e de onde menos merece. Allison Eastwood, uma de seus sete filhos, faz a filha a em questão.

 The Mule, 2018

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