George Orwell, de “1984”, prova sua relevância em tempos de autoritarismo

De volta à lista de mais vendidos, “A Revolução dos Bichos” e “1984′ confirmam que ninguém deixou um mapa tão útil — e atual — da tirania

Deixado a sós em uma cela, Winston Smith afinal formula para si mesmo: 2 + 2 = 5. O pensamento é fugidio; tem de ser aceito, mas não examinado. Será verdade sempre que o Partido o determinar, da mesma forma que 2 mais 2 somarão 3, ou mesmo 4, se o Partido assim ditar. A tortura fez Smith ceder à flexão aritmética, e ele agora está a apenas um passo de se conformar com a doutrina Ingsoc (abreviação de “socialismo inglês”), que regula até os pensamentos — principalmente os pensamentos — de cada cidadão a cada minuto de cada dia. Smith pensou diferente; é um criminoso. Se vai viver ou ser executado, não sabe. Mas nem uma coisa nem a outra acontecerão enquanto ele não tiver sido recondicionado desde o âmago. Lançado pelo inglês George Orwell em 1949, o romance 1984 costuma ser descrito como uma “ficção distópica”, ou um cenário futurista de opressão. Tecnicamente correta, a definição deixa escapar o essencial: não era de futuro que Orwell estava falando, mas do presente então em curso. Desenhou um mapa tão preciso que ele nunca deixa de ser útil. Em qualquer presente em que ondas autoritárias ou irracionais se levantem, 1984 volta espontaneamente à tona. O romance disparou nas vendas da Amazon americana em 2017, quando Donald Trump assumiu a Presidência. Coincidindo com a subida de tom do governo Bolsonaro, ele há semanas lidera a lista de mais vendidos de VEJA juntamente com A Revolução dos Bichos, a fábula satírica sobre o stalinismo publicada por Orwell em 1945.

O VÍCIO DA CLAREZA - Orwell na BBC, durante a II Guerra: entendimento vertical da natureza humana

Rever a história passada, ou imaginar a história futura, é uma operação que está ao alcance de muitos. Mas mirar o presente de dentro dele, despindo-o de sombras e artifícios e limpando-o de vieses e partidarismos, requer extraordinárias lucidez e clareza. Orwell tinha-as como quem tem um vício. Enquanto tantos ainda viam no comunismo soviético um oposto ao fascismo da década de 30, ele enxergou desde o primeiro momento as distorções tétricas do regime — o culto ao ditador Josef Stalin, seu reino de terror e de vigilância incessante, o sistema de castas em que o aparato de poder se convertera. Orwell, um socialista, começara a pintar esse retrato em A Revolução dos Bichos. Em 1984, porém, foi muito além da ironia de que “todos os animais são iguais, mas alguns animais são mais iguais do que outros”. Sua reflexão sobre a natureza do totalitarismo é tão profunda e perspicaz que nenhum futuro parece ser capaz de torná-la ultrapassada. Apenas os mecanismos — se tanto — mudam; sua essência permanece inalterada.

Tome-se, por exemplo, a refeitura da história a que Winston Smith se dedica em seu trabalho no Ministério da Verdade, alterando qualquer linha de texto jamais publicada que conflitue com os acontecimentos presentes e perenemente manufaturando uma nova verdade. O atual bombardeio de fake news tem efeito idêntico ao da versão única e incontestável — o de criar tantas versões dos fatos que, no limite, seria impossível distinguir entre verdade e fabricação. Também os outros recursos do Partido soam alarmantemente atuais: a onipresença das telas que transmitem e recebem, a abolição da privacidade, a reformulação da linguagem de maneira a direcionar o pensamento — a “novilíngua” citada pelo ministro do STF Celso de Mello na sua nota do domingo 31 — ou ainda os “dois minutos de ódio”, as sessões coletivas e compulsórias de execração dos inimigos da pátria que levam os participantes a paroxismos. No seu conjunto, o que a Ingsoc faz é produzir cidadãos perfeitamente acríticos. Capazes, portanto, de aceitar que 2 e 2 somam 5, ou 3, ou até 4, conforme lhes seja dito — ou de acreditar que o chavismo e o bolsonarismo são movimentos democráticos, que a Terra é plana, que as vacinas são nocivas, que o novo coronavírus é inofensivo. Como disse o italiano Umberto Eco, só um quarto de 1984 é ficção; os outros três quartos são história (essa é apenas uma das razões, também, pelas quais em 2002 o filósofo americano Christopher Hitchens escreveu o livro-ensaio Por que Orwell Importa).

Procurar Orwell em um momento como este é salutar — e na terça-feira 9 a Companhia das Letras disponibiliza ainda outro título, a coletânea de trechos Sobre a Verdade. Entender de onde veio sua sagacidade, entretanto, é tão importante quanto desfrutá-la. Nascido Eric Arthur Blair em 1903 na Índia, onde seu pai era funcionário público, ele foi despachado na infância para estudar na Inglaterra e completou sua instrução na exclusivíssima Eton, frequentada há 600 anos pela aristocracia inglesa. Aí se desviou da rota programada: em vez de seguir para as universidades de Oxford ou Cambridge, ingressou na Polícia Imperial Britânica da Índia e nela ficou por cinco anos, até o asco pelo colonialismo se tornar insuportável. Em 1928, mudou-se para Paris e viveu dois anos em penúria, lavando pratos até dezessete horas por dia e passando fome. De volta à Inglaterra, repetiu a dose, ora trabalhando como tutor, ora vagando como mendigo. Já atuando como jornalista e ensaísta (ele adotaria o pseudônimo George Orwell em 1933), lutou contra as forças franquistas na Guerra Civil Espanhola, onde adquiriu sua aversão ao stalinismo e levou um tiro no pescoço do qual nunca se recuperaria completamente. Durante a II Guerra, na BBC, transformou-se numa voz influente, e tirou do funcionamento da emissora estatal várias ideias desenvolvidas em 1984.

Nenhum escritor do século XX somou tanto em vendas de dois títulos diferentes — A Revolução dos Bichos e 1984 — quanto Orwell. Ainda assim, ele morreu pobre e em má saúde, aos 46 anos. Viveu muitas vidas, porém, e tirou delas uma experiência vertical de poder e impotência, pobreza e riqueza, dominação e sujeição que não se equipara à de nenhum outro autor e que dispersou nele também qualquer noção romântica acerca dos oprimidos e destituídos. A natureza humana, observou ele em Na Pior em Paris e Londres, é curiosamente a mesma em todas as gradações do espectro fiscal, social e ideológico. Este, enfim, é o fundamento da persistência do “pesadelo orwelliano”: a franqueza, a nitidez, seu vício pela clareza.


Pesadelos Orwellianos

Alguns filmes célebres que têm fragmentos de 1984 em seu DNA

Fahrenheit 451 (1966)

François Truffaut dirigiu a adaptação do romance do americano Ray Bradbury, no qual os livros foram proibidos e um dos bombeiros que, ironicamente, se dedicam a queimar quaisquer exemplares que surjam passa por uma tomada de consciência.
A temperatura de 451 graus Fahrenheit, ou cerca de 233 Celsius, seria a ideal para incinerar papel.


THX 1138 (1971)

Na estreia de George Lucas como diretor, a sociedade do século XXV é um rígido Estado policial que se vale de drogas para apaziguar os cidadãos e no qual os nomes foram substituídos por um código alfanumérico. Robert Duvall é o indivíduo do título, que se rebela contra o controle.


Blade Runner (1982)

Adaptada de um romance de Philip K. Dick, a ficção clássica dirigida por Ridley Scott (criador, aliás, de um célebre comercial da Apple que cita 1984) leva a desumanização retratada por Orwell a um extremo lógico -o de uma sociedade que se vale de “replicantes”, ou seres humanos sintéticos, para diversas finalidades, e os elimina quando deixam de ser úteis.


Brazil (1985)

O diretor Terry Gilliam, então integrante do Monty Python, assina esta espécie de versão de 1984 em clima bizarro, na qual o burocrata de baixo escalão interpretado por Jonathan Pryce refugia-se da realidade cinza e opressiva em voos de fantasia – que, como no livro de Orwell, o levarão a ser perseguido como inimigo do Estado.


Minority Report (2002)

Também adaptada de Philip K. Dick e dirigida por Steven Spielberg, esta visão do futuro distópico de 2054 trata das atividades do PréCrime, uma unidade policial encarregada de identificar e deter os indivíduos que possam vir a cometer crimes – cuja definição é bastante ampla. Uma variação do Pensamento-Crime descrito por Orwell em 1984

Publicado em VEJA de 10 de junho de 2020, edição nº 2690

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