“Messiah”: o (talvez) filho de Deus na era do Instagram

Série da Netflix que imagina como seria o surgimento de um Messias nos dias de hoje provoca o espectador com o desejo – ou não – de acreditar

Dei uma pirada no sexto episódio de Messiah: o jovem al-Masih faz uma coisa, diante de milhares de olhares e de câmeras de celulares, que até quem nunca passou perto dos Evangelhos facilmente reconhece como uma façanha exclusiva de Jesus – ou, para os céticos, uma façanha atribuída a Jesus mas nunca realmente realizada. Al-Masih de fato está fazendo o que aparenta fazer? Ou trata-se de um truque de ilusionismo muito bem bolado? Em todos os supostos milagres praticados por al-Masih ao longo dos dez episódios – a tempestade de areia que se abate sobre Damasco, na Síria, durante 43 dias, a imunidade dele a um violento tornado no Texas, a ressurreição de um menino baleado, entre outros que não vou mencionar –, a série deixa espaço para as duas possibilidades, a mística e a racional. As explicações racionais, por sua vez, também podem ser divididas em duas categorias: coincidência ou acaso, e oportunismo ou fraude. Mas, no momento em que aquela cena do sexto episódio começou a se desenrolar (e ela é um primor de direção e edição: faz você suspeitar, e então acreditar, antes de realmente ver), percebi que estava doida para me convencer de que aquilo estava acontecendo de fato. Messiah não é uma série perfeita, mas acho que essa provocação é a coisa de que mais gosto nela: ostensivamente, ela imagina as implicações e repercussões do surgimento de um possível Messias nos dias de hoje; na prática, ela testa e explora a arquitetura que o cérebro humano foi adquirindo ao longo da evolução, e que praticamente nos obriga a buscar um padrão ou ordenação no caos que é a nossa existência. Em Messiah, aliás, os céticos acreditam na verdade do seu ceticismo com o mesmo fervor com que os religiosos creem no seu misticismo. A fé como um efeito colateral, digamos assim, das nossas necessidades evolutivas – está aí uma ideia arrojada para Roma Downey e Mark Burnett, o casal de produtores conhecido por transformar a Bíblia em espetáculo de ação, e que aqui banca o trabalho do criador Michael Petroni, roteirista de O Ritual e da série Milagres.

O fato de a crença ser um subproduto da nossa fiação cerebral não quer dizer que o objeto de crença não possa ser verdadeiro – e o fato de al-Masih ter um passado duvidoso, que vai sendo desvendado aos poucos, não significa automaticamente que ele não possa ser quem anuncia. Interpretado pelo belga Mehdi Dehbi, um ator tão interessante que é impossível parar de olhar para ele (minha irmã me chamou a atenção para o quanto ele se parece com Viggo Mortensen, não só na fisionomia como na capacidade de se recolher em si mesmo e de sustentar qualquer olhar, por mais hostil que seja, durante tanto tempo quanto for preciso), al-Masih é um Jesus imperioso, petulante até, e que não trabalha muito bem em equipe. No Texas, um pastor evangélico se converte a ele na primeira hora, e então, meio sem querer querendo, começa a tentar capitalizar o acesso privilegiado que tem ao rapaz – e dá com a cara na porta. Uma mãe desesperada tenta fazê-lo curar o câncer de sua filha pequena – mas não é bem assim que funciona. Cristãos, judeus e muçulmanos dividem-se internamente, formando facções que creem ou condenam: pois al-Masih consegue desagradar a todos os múltiplos lados com suas declarações e ações, uma vez que, na verdade, ele não reconhece nenhum establishment religioso como certo ou legítimo, e está também claramente determinado a provocar os establishments políticos – tanto que a primeira coisa que faz é despejar uma migração de sírios bem na fronteira de Israel.

Acredite-se ou não na dimensão mística de Jesus, foi por razões muito similares que Ele foi levado à cruz – não apenas por suas ideias afrontarem o establishment religioso e o establishment romano na Palestina, como por serem tão inesperadas e estranhas à ordem do período que não se prestavam à assimilação ou à manipulação política por parte desses establishments. Um punhado de gente gostou do que Ele tinha a dizer, e no correr das décadas e séculos, os discípulos (a série, aliás, já destacou dois deles, bem interessantes) fizeram a mensagem crescer – mas ali, naquele íncio do século I, a maioria o achava um louco (mais um; o que não faltava naquele momento eram profetas apocalípticos), um impostor ou, sem excluir nenhuma dessas hipóteses, uma ameaça.

Se Messiah faz um excelente trabalho de transformar passagens cruciais dos Evangelhos em situações contemporâneas – e vale dizer que, quanto mais se conhece deles, mais curiosas as coisas ficam –, essa parte, a da ameaça, é aquela em que a série não se sai tão bem. Representando o contingente de céticos e/ou mantenedores do status quo tem-se a personagem da agente da CIA Eva Geller, que Michelle Monaghan interpreta com perpétua cara de amora azeda. Eva é fanática e vive emburrada; acha que al-Masih é um perigo que tem de ser neutralizado a qualquer custo. Para se ter uma ideia, o agente da Inteligência militar israelense Aviram (Tomer Sisley), outro cético que não hesita em usar meios chocantes para chegar aos seus fins, ganha a empatia do espectador com muito mais facilidade do que ela. Toda a trama da investigação é meio matada: agentes ligam uns para os outros de telefones públicos (e isso sim é milagre, achar tanto telefone público dando sopa por aí hoje), figuras cavilosas do governo conspiram, arquivos são suprimidos – todas aquelas coisas de praxe das séries de segunda linha. Messiah, aliás, atravessa uma barriga meio decepcionante no nono e no décimo episódios, em que essa frente da história se impõe sobre as demais. Mas aí, no final… Só o que digo é que, na última cena, senti de novo aquela balançada que havia sentido no sexto episódio: e se? Permaneço confiante, porém, que Messiah não vai passar por cima de 2 000 anos de controvérsia, e vai continuar recusando a tentação de responder sim ou não na sua eventual segunda temporada.

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