“Drácula” da Netflix é anêmico e sem dentes

Uma freira deliciosamente interpretada pela atriz Dolly Wells é quem salva um ou outro momento – e olhe lá – desta minissérie dos mesmos criadores de “Sherlock”

Prática, direta e com um senso de humor seco como giz, a Irmã Agatha (Dolly Wells) entra em cena e, imediatamente, algum sangue começa a correr nas veias de Drácula. A Irmã Agatha sai de cena e Drácula volta a ser uma série morta-viva: um espetáculo superproduzido mas que não tem ideia de qual mundo quer habitar, e que não para de tentar chamar a atenção mas nunca consegue ser mais do que banal. Sozinho no mundo, este Drácula já mereceria no máximo um nariz torcido. Por azar, porém, o que não lhe falta é companhia mais ilustre com que compará-lo. Dos Nosferatu alemães de F.W. Murnau (1922) e de Werner Herzog (1979) ao Drácula de Bram Stoker (1992) de Francis Ford Coppola, e até dos satíricos Dança dos Vampiros (1967) de Roman Polanski ao Morto mas Feliz (1995) de Mel Brooks e o genial O que Fazemos nas Sombras (2014) de Taika Waititi e Jemaine Clement, entre centenas de outros, é difícil achar algum que não deixe no chinelo esta criação de – inacreditavelmente – Mark Gatiss e Steven Moffat, a mesma dupla do saborosíssimo Sherlock com Benedict Cumberbatch.

Drácula tem gargantas rasgadas, corações arrancados e corpos em estágio adiantado de decomposição, mas não tem medo. Aliás, nem nojo provoca. Tem sexo, mas nenhuma sensualidade – e aí os criadores podem dividir a culpa com o ator dinamarquês Claes Bang, de The Square, que faz um Conde pesado, canastrão e sem sem nenhum senso de comédia, que é o mínimo que se poderia esperar na falta de alguma sensação de perigo ou de depravação. Tem montes de ideias, mas nenhum propósito. Como pode algo tão bem embalado ter tão pouco a oferecer? O fato é que o horror gótico exige uma sensibilidade muito particular para ele – os olhos de Gary Oldman que não piscam no Drácula de Bram Stoker, a luxúria dele, aquela sequência apavorante que Coppola faz com lanternas chinesas, mostrando o horror em que o Conde Vlad transformava os campos de batalha, ou o detalhe tão arrepiante da sombra do Conde, que se move à parte do corpo dele. Ou ainda aquele coro de matar de medo do Popol Vuh com que Herzog abre seu Nosferatu, e o contraste entre o pesadelo dos ratos invadindo uma cidade e o lirismo com que Klaus Kinski bebe o sangue de Isabelle Adjani até o amanhecer.

E por aí poderíamos ir, com exemplo atrás de exemplo. Mas fico em um deste momento: por acaso, no dia seguinte a ter terminado o Drácula da Netflix, vi o trailer de Penny Dreadful: City of Angels, a série com que o criador John Logan vai dar continuidade à sua magnífica Penny Dreadful com Eva Green (aquele segundo episódio, Séance? Gótico na veia, e uma das coisas mais aterrorizantes que já vi na vida). Veja o trailer e confira a quantidade de atmosfera que Logan consegue comprimir em cada imagem. Com a nuca arrepiada, percebi que, em 1 minuto e 19 segundos, ele já fez muito mais do que Gatiss e Moffat em todos os 264 minutos de Drácula.

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