A Chegada

O importante não é se equiparar a 2001 (até porque é impossível): é ter a ambição de tentar

As naves são imensas – têm meio quilômetro de altura –, mas elas transmitem uma certa placidez: com a forma da íris de um olho, lisas e delicadamente orgânicas, elas pairam sem esforço nem ruído, a poucos metros do chão. Elas chegaram sem aviso nem estrondo; a impressão que as pessoas têm é que todas simplesmente se materializaram, de um instante para o outro, em doze locais distintos da Terra. Não parece haver lógica na escolha; uma nave apareceu flutuando sobre as favelas de Caracas, outra sobre o deserto do Sudão. Uma se colocou sobre o Mar da China, outra sobre a Sibéria. Outra ainda sobre Sydney, e mais uma sobre o Paquistão. A que está no meio da paisagem silvestre de Montana, no interior montanhoso dos Estados Unidos, é que será a protagonista do novo filme do diretor canadense Denis Villeneuve, de Incêndios, Os Suspeitos e Sicario (e de Blade Runner 2049, que estreia no ano que vem). É para ela que são chamados a linguista Louise Banks (Amy Adams) e o físico Ian Donnelly (Jeremy Renner). Em todas as localidades, forças-tarefa se apressam em tentar compreender quem são os recém-chegados, e qual o propósito deles, se a paz ou a guerra; é de suma importância tentar estabelecer algum diálogo. A apreensão da população mundial e dos governos está rapidamente progredindo rumo ao pânico. E, do pânico para o desastre, o passo é curto, ainda mais porque a China e a Rússia, particularmente, vêm se comportando de maneira indócil.

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Quando uma ficção científica se propõe a especular e investigar, como o faz A Chegada, há muita coisa que ela precisa comunicar por meio unicamente de imagens: comece a inventar explicações ou teorias nos diálogos, e é quase certeza que a coisa toda vai parecer mais pobre. Por outro lado, crie imagens verdadeiramente evocativas, e os sentidos se alargam. Não é acaso que 2001 – Uma Odisseia no Espaço, a mais influente de todas as ficções científicas do cinema, quase não tenha diálogos durante suas duas horas e meia de duração: Stanley Kubrick sabia que o que se diz logo pode soar datado ou inadequado; já uma imagem, ou uma música – ou a conjunção certa entre imagem e música –, essas podem atravessar o tempo sem perder nada da sua força e do seu poder de provocação.

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É isso que Denis Villeneuve busca em A Chegada: a potência da imagem. Ver as naves pairando, ou experimentar a vertigem que Louise e Ian sentem quando entram no túnel vertical que leva ao interior da nave, cuja gravidade específica causa um efeito visual desorientador – ou receber o impacto da aparência ao mesmo tempo estranhíssima e muito familiar dos alienígenas: trabalhando com o excelente diretor de fotografia americano Bradford Young, de filmes como O Dono do Jogo e O Ano Mais Violento, e com a música soberba do islandês Jóhann Jóhannsson, de Sicario, Os Suspeitos e A Teoria de Tudo, essas são as matérias-primas sensoriais que Villeneuve molda de maneiras belíssimas, levando a história para trás e para a frente, em uma estrutura que que, a certa altura, vai se revelar como a razão de ser do filme. Eu sei que o trailer dá a impressão de entregar muita coisa da história. Mas garanto que é só impressão, e que Villeneuve não deixou entregar nadinha do que vem pela frente.

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Pode parecer contraditório que toda a atenção se concentre sobre os sentidos em um filme protagonizado por uma linguista cuja missão é desenvolver um vocabulário em que terráqueos e alienígenas possam conversar. Pode soar também bastante abstrato, mas não é: é muito palpável, e o diretor consegue tirar daí quantidades surpreendentes de tensão. Com aquela sua tração emocional característica, seu dom para o suspense e o trabalho exímio de seus atores – Amy Adams em particular, mas também Jeremy Renner, Forest Whitaker e Michael Stuhlbarg –, Villeneuve faz de A Chegada uma sinfonia sobre a linguagem: como ela pode limitar ou expandir nossos horizontes, e como tem de servir não só para uma comunicação limpa, livre de mal-entendidos, mas também (ou principalmente) para exprimir a nossa sensação de maravilhamento com o mundo, com o novo e com o inesperado. É 2001 – Uma Odisseia no Espaço? Esqueça: nada vai ser 2001, porque não há quem tenha o radicalismo formal e conceitual de Kubrick, e porque o mundo de hoje é muito diferente do de 1969; o impacto de um filme não depende só dele, mas também da sua plateia. O importante em A Chegada, assim como no Interestelar de Chris Nolan, é que esses cineastas sabem que sempre vão perder na comparação – mas continuam a se inspirar na ambição do cinema de Kubrick, e a almejar um entretenimento com alguma inquietação.

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Trailer


A CHEGADA
(Arrival)
Estados Unidos, 2016
Direção: Denis Villeneuve
Com Amy Adams, Jeremy Renner, Forest Whitaker, Michael Stuhlbarg, Tzi Ma, Mark O’Brien
Distribuição: Sony Pictures

11 comentários em “A Chegada”

  1. Eu li essa resenha varias vezes antes de ver o filme e li varias vezes depois. as criticas da isabela tem o dom de trazer significados inesperados ate nos filmes mais comuns e quadrados. Num filme dessa grandeza a tarefa é decidir quais significados ocultos a gente vai deixar de lado pra tentar entender melhor na próxima vez que ver o filme. maravilhoso.

    P.S: Isabela, Porque você não escreveu sobre Aquarius ? é um grande trabalho do Kleber e gostaria de ler a sua opinião.

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  2. Dennis Villeneuve me conquistou desde que vi Incêndios. Procurei ver todos os filmes dele e, exceto O Homem Duplicado que achei mediano, todos os outros são excelentes!
    O cara ainda não decepcionou e por isso estou tão ansiosa por esse filme!
    Surpresa ele não trabalhar com o Roger Deakins, hein? Não sabia disso.

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    1. Mestra Isabela Boscov, creio que você vai gostar deste presente:

      Duelos Épicos de Rap com Celebridades :
      Geniais, Espetaculares, Contundentes e Engraçadíssimos…
      morra de rir!

      Steven Spielberg vs Alfred Hitchcock vs Quentin Tarantino vs Stanley Kubrick vs Michael Bay

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  3. Depois de ter lido diversas críticas muito negativas sobre o filme de Dennis Villeneuve (“a primeira vaia de Cannes 2016”), enfim alguém escreve algo de positivo sobre este filme. O filme de ficção científica que me desperta mais curiosidade desde “Sob A Pele”, e por duas razões: a aparente fuga da tábula (muito) rasa do maniqueísmo hollywoodiano (nós mocinhos, eles bandidos), abordando a verdadeira grande questão que se imporia à chegada de uma civilização diferente, a comunicação e o entendimento (bela metáfora para as barreiras que o “civilizado” ocidente tem erigido contra os outros que, mesmo tão parecidos, não falem sua língua ou professem suas crenças), e a presença do excelente cineasta, que sempre me traz à lembrança o fabuloso “Incêndios”, um dos dez melhores filmes que vi na vida, e do ótimo “Os Suspeitos”. Aliás, se a questão foi usar o silêncio como forma de transmitir a mensagem, eis um diretor adequado, já o fez soberbamente nos filmes anteriores. Enfim, eis um dos poucos lançamentos cinematográficos em inglês que espero com alguma ansiedade, para purgar-nos de “Independence Day” e similares.

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  4. Cineasta de peso ( Os Suspeitos é uma obra prima) º vida a uma roteiro fantástico e intrigante, é sucesso na certa. Como fã desta linha de ficção e futurologia , estou ansioso para agregar esta produção aos pioneiros 2001 , Blade Runner, Alien ( o original) e O Planeta dos Macacos ( o 1º, lógico) além, é claro, de Prometheus ( honrosa preparação para Alien) e o interessantíssimo 5º Elemento. Embora o tema ja tenha sido abordado em outras produções de menor valor , tenho certeza de que Vileneuve fez seu melhor trabalho nesta produção, nos trazendo beleza , suspense e surpresa muito bem dosadas. Vamos aguardar o lançamento!

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  5. Se o filme diz muito com pouco, o texto também poderia seguir a mesma linha. Mas ovnis aparecendo em lugares aleatórios do mundo e uma especialista chamada pelo governo norte-americano para estabelecer contato já não teve em O Dia em que a Terra Parou, de Scott Derrickson?

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