Hoje é um bom dia para ver (ou rever)… Layer Cake

Uma história de gângsters londrinos que é uma reunião estrondosa de talentos

Tanta água correu embaixo da ponte desde que este filme matador (em vários sentidos) foi lançado. Por exemplo: naquela altura, a virada de 2004 para 2005, ainda tinha muita gente esperneando com a notícia de que o ator principal de Layer Cake (que está disponível no Netflix e, em português, se chama Nem Tudo É o que Parece), um loiro de orelhas de abano, seria o próximo James Bond – e eu, que nunca tive nada contra o cabelo nem as orelhas de ninguém, achava que Daniel Craig seria louco de topar um risco como esse, porque 007 afunda carreiras com a mesma voracidade com que as impulsiona. Pois é, quanta gente errada ao mesmo tempo.

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Naquele tempo, também, Matthew Vaughn ainda não tinha propriamente um currículo: trabalhara como produtor de Guy Ritchie na fase mais barata e raçuda da carreira dele, e estava estreando na direção com Layer Cake. Já dava para ver que ele era um talento à parte, mas Vaughn ainda passaria pelo fracasso de Stardust – O Mistério da Estrela antes de sair quebrando a banca com Kick-Ass, X-Men: Primeira Classe e sobretudo com o fabuloso e escalafobético Kingsman: Serviço Secreto (por cuja continuação, prometida para junho do ano que vem, eu mal posso esperar).

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Outras coisas curiosas sobre Layer Cake: o formidável Michael Gambon, de longuíssima carreira, tinha acabado de virar o Albus Dumbledore de Harry Potter, mas ninguém fazia a menor ideia de quem era aquele sujeito fortão, de voz diferente, chamado Tom Hardy – só dali a seis anos, em A Origem, é que todo mundo iria notá-lo ao mesmo tempo. (Já os fãs de Burn Gorman, esses sempre souberam quem ele é.) Sally Hawkins era bem conhecida dos seguidores do cinema inglês, mas demoraria outros dez anos para (na minha opinião, ao menos) ela dar um banho em Cate Blanchett em Blue Jasmine, de Woody Allen, e ser indicada ao Oscar.

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Não há nada de acidental, porém, na reunião de tanto talento em Layer Cake: Matthew Vaughn realmente sabia para onde queria seguir, e precisava se cercar de originalidade e individualidade para chegar lá. Até as menores participações do elenco são marcantes, nítidas, cheias de voz própria. A história é um estrondo, e o final… Mas claro que eu não vou contar. Vá ver e confira se não tenho razão.

Leia aqui a resenha que publiquei quando Layer Cake foi exibido nos cinemas:


Uma questão de classe

Gângsteres versus a ordem social inglesa: eis o tema do ótimo Nem Tudo É o que Parece

Em nenhum momento de Nem Tudo É o que Parece a plateia toma conhecimento de qual é, afinal, o nome de seu protagonista. XXXX (Daniel Craig), um traficante londrino que pretende se aposentar antes dos 40 anos e do fim do filme, se crê um especialista nas artes da dissimulação e da discrição. Sua operação é dirigida com técnicas eficientes de administração que não incluem armas nem violência, sua ligação com o mundo do crime é efetuada por meio de um único canal — que ele acredita ser de mão única — e seu dinheiro é lavado em vários negócios legítimos, pelos quais ele recolhe imposto como qualquer cidadão. XXXX é, enfim, um exemplo do espraiamento dos métodos corporativos para todos os setores da atividade econômica, legais ou não. Como todo gângster inglês, ele é também alguém que está tentando furar o sistema de classes sociais tido por reputação (e provavelmente também por direito) como o mais rígido do Ocidente. O que os novos tempos lhe permitem, entretanto, é não ter de fazê-lo por meio da força bruta, mas com suavidade. Com seu apartamento que é um modelo do chic masculino, suas roupas discretamente fashion e seu sotaque bem mais cultivado que o de seus parceiros, XXXX é um tigre que de fato conseguiu perder suas listras. E isso, em última análise, é o que fará o caldo entornar. Um parceiro de tráfico, mais poderoso que XXXX mas secretamente invejoso de sua bem-sucedida reinvenção social, montará para ele uma armação destinada a fazê-lo tropeçar nas próprias e ambiciosas pernas.

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Estréia na direção de Matthew Vaughn, que foi produtor do cineasta Guy Ritchie em filmes pop de gângster como Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes, Nem Tudo É o que Parece prefere o viés dramático — quase desesperado, aliás — ao paródico, mas compartilha com seus antecessores o pendor para o visual inventivo e o humor negro. Tem também, no protagonista, um trunfo e tanto. Diz-se no meio artístico britânico, com muita maldade e alguma perspicácia, que basta arranhar um ator para encontrar, logo abaixo da superfície, uma atriz. Daniel Craig, que se especula ser o novo James Bond (não se ele for tão esperto quanto parece, porém), pertence ao grupo seletíssimo de atores como Russell Crowe e Clive Owen — os que, arranhados, não mudam de gênero. Tragado por uma confusão que envolve traficantes arrivistas e genocidas sérvios, entre outras categorias profissionais, XXXX passa mais medo do que jamais imaginou, mas sem nunca largar das suas tábuas de salvação e razões de ser — a autoconfiança, a habilidade de seduzir e a atitude blasé. É um papel que exige partes iguais de carisma e técnica, qualidades que poucas vezes andam juntas. Não é só por Craig, porém, que o filme se sustenta. O que dá brilho a Nem Tudo É o que Parece é também o olhar atualizado sobre os dois elementos que tornam o filme inglês de gângster tão diverso de seus similares americanos. Em primeiro lugar, a ausência quase completa de armas de fogo, que termina por acentuar a crueza e a crueldade da violência física — resolvida sempre na base do espancamento. Em segundo e mais relevante lugar, a dissecção de uma das instituições mais intrincadas e impenetráveis que se conhece: a sociedade de classes britânica — mais ainda do que o dinheiro fácil, é subir nesse “bolo em camadas” a que se refere o título original o que atrai o criminoso inglês. Ao menos o de celulóide.

Isabela Boscov
Publicado originalmente na revista VEJA no dia 03/08/2005
Republicado sob autorização de Abril Comunicações S.A
© Abril Comunicações S.A., 2005

NEM TUDO É O QUE PARECE
(Layer Cake)
Inglaterra, 2004
Direção: Matthew Vaughn
Com Daniel Craig, Michael Gambon, Tom Hardy, Sienna Miller, Sally Hawkins, Burn Gorman, Jamie Foreman, George Harris, Colm Meaney, Kenneth Cranham, Ben Whishaw, Jason Flemyng

5 comentários em “Hoje é um bom dia para ver (ou rever)… Layer Cake”

  1. A melhor coisa em “Nem Tudo É o que Parece” é também é também a pior coisa nos filmes de 007 : ver como Daniel Craig é um ator 10 vezes melhor do que parece ser como James Bond. Não é á toa que ele ODEIA interpretar o espião.

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