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Sete Homens e um Destino

Um faroeste transgênico – e isso é muito bom


Veja aqui a vídeo-resenha.


Um vilarejo de camponeses que não têm mais do que pás e enxadas com que se defender; um bando de malfeitores que não deixam o povoado em paz; e um último recurso: pagar a um grupo de mercenários para protegê-lo. A riqueza que o diretor japonês Akira Kurosawa tirou desse argumento é incalculável. Não só Os Sete Samurais, de 1954, é um desses colossos que nunca envelhecem (na boa, não dá para alguém dizer que sabe o que é o cinema sem tê-lo visto), como também influenciou diretamente dezenas de faroestes, policiais, e filmes de ação e de guerra desde então. Inclusive uma coisinha chamada Star Wars (George Lucas é um dos muitos fanáticos por Os Sete Samurais, e na sua saga espacial combinou-o ao enredo de outro filme de Kurosawa, A Fortaleza Escondida). Agora veja-se que coisa curiosa: Kurosawa era fã do diretor John Ford, e se inspirou muito nos faroestes dele para Os Sete Samurais. E aí, em 1960, a roda girou de novo: John Sturges, outro mestre do cinema americano, se inspirou em Os Sete Samurais para fazer… um faroeste – o sensacional Sete Homens e Um Destino, com Yul Brynner, Steve McQueen, Charles Bronson, Eli Wallach, James Coburn etc.

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Os Sete de Kurosawa

De maneira que é fútil reclamar que agora o diretor Antoine Fuqua, de Dia de Treinamento e Nocaute, esteja lançando um novo Sete Homens e Um Destino, com Denzel Washington, Chris Pratt, Ethan Hawke, Vincent D’Onofrio etc. Como a anedota aí acima prova, não existe nada intocável no cinema, e nem deveria haver: certas histórias podem e devem ser reaproveitadas, refeitas, revistas, retrabalhadas. Ainda que o resultado, na maioria das vezes, fique aquém do original. É mais ou menos como dizer que o cinema e o teatro deveriam parar de readaptar Hamlet, porque nunca vão chegar perto do de Laurence Olivier mesmo.

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Os Sete de Sturges

Ademais, o Sete Homens e Um Destino de Fuqua tem muito estilo (e também a mão pesada dele, mas essa é habitual). E tem aquela mesma voracidade que animou Kurosawa: Fuqua se aproveita de Os Sete Samurais e do Sete Homens de 1960 – mas também dos chamados faroestes crepusculares como Rastros de Ódio, e dos faroeste-spaghetti que o italiano Sergio Leone faria com Clint Eastwood logo no comecinho da década de 60 (Por um Punhado de Dólares, aliás, é decalcado de outro filme de Kurosawa, Yojimbo), e dos faroestes revisionistas desta última década, e…

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Os Sete de Fuqua

Ou seja, há de tudo aqui, e o resultado é o filme mais vibrante da carreira de Fuqua, e de longe o mais bonito deles todos. Dispensa você de ver Os Sete Samurais, ou o Sete Homens e Um Destino do grande John Sturges? Não, porque eles continuam bárbaros e dificilmente você vai se arrepender de doar seu tempo a eles. Mas isso não invalida a versão de Fuqua, nem qualquer outra que se venha a fazer. O cinema segue a mesma regra que vale para os seres vivos: misturar e diversificar os genes é o segredo da saúde e da evolução. Nem sempre, mas quase sempre.


6 comentários em “Sete Homens e um Destino”

  1. Estou contigo e não abro mão, Isabela: nada no cinema é intocável, e não deve ser. As pessoas tendem a reclamar demais de refilmagens – em muitos casos são os fãs mais fervorosos e eles sequer viram a nova versão. Aliás, em muitos casos eles desconhecem que o original sequer original é.

    Eu penso o seguinte: refilme, mexa em tudo, faça tudo diferente da obra em que é baseada. Se já existe um original, por que eu vou querer ver a mesma coisa? E se não ficar bom, o original está lá esperando por mim.

    Forte abraço!

    Alexandre Carlomagno

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  2. Ótima crítica. Tô sentindo falta de suas críticas de filmes que estão na Netflix, senti falta também de sua homenagem ao diretor de Los Angeles: Cidade Proibida, que morreu nesta semana.

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  3. — Calma aí, Ernie… Pense no lado positivo. Podia ser pior: podia ser aquele francês imprestável que estragou tudo e perpetrou a Fúria de Titãs.

    — É isso aí, Eddie Boy. Meça suas palavras. Cuidado com o que cê vai dizer. Não vá começar um tiroteio por aqui. Senão, a xerife Boscov vai polir a estrela ou as botas dela com a tua orelha. Lá no Oeste de onde cê veio, não existe lei. Mas aqui no Sul as regras são outras.

    Esqueci de dizer que esse aí é o mesmo açougueiro que cometeu aquele HORROR chamado “Nocaute”. E que foi devidamente surrado em outro artigo da matadora Isabela.

    “mão pesada ” é um termo gentil demais para mais um privilegiado diretor INEXPRESSIVO, incapaz de compor um plano decente, de contratar um diretor de fotografia inspirado ou sequer de dirigir atores talentosos de maneira a lhes arrancar atuações vigorosas.

    Se eu tivesse uma espada de samurai, eu só a entregaria para ele cometer harakiri.

    Mas acho que um figurão medíocre de Hollywood não merece provar um aço tão nobre.

    Talvez um revólver Colt .45 com cabo de madrepérola…
    Estaria ele então servido de uma bala?

    Mesmo que fosse só pra dar um susto e botar esse pistoleiro pra dançar sozinho no saloon e então correr daqui até a fronteira com o México.

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  4. Do mesmo incompetente medíocre que afundou o brilhante argumento de “Rei Arthur” (junto com o roteirista estúpido e o produtor mercenário mais bem-sucedido de todos os tempos)… eis mais uma idéia estúpida e oportunista da Era da Mediocridade Moderna. A trilha sonora do trailer é puro som de bandido (rap não é música, e aquele astro do rap é outro cujo nome não deveria ser pronunciado).

    Comparar com o original é covardia. Basta lembrar que o tema musical de Elmer Bernstein é TÃO clássico que se tornou a marca registrada dos comerciais de TV dos cigarros Marlboro. O fumo dos cowboys.

    Só posso lamentar por Denzel Washington por estar cercado e um elenco de energúmenos. Tomara que fracasse. Esta tela de cinema é pequena demais para 2 filmes com o mesmo nome.

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