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Primeira impressão: Pablo Escobar – El Patrón del Mal

Novelão colombiano tem trancos e barrancos, mas Andrés Parra brilha no papel do narcotraficante

Há alguns dias publiquei um post sobre Limón, um personagem fascinante da segunda temporada de Narcos, e vários leitores sugeriram que eu fosse conferir a mega-série colombiana Pablo Escobar – El Patrón del Mal, que está disponível no Netflix e no NOW. Pois obedeci e fui conferir, e me peguei bem mais interessada do que imaginava (na época em que a série estava sendo exibida na TV a cabo, meu marido e eu morríamos de rir com as chamadas dubladas de Patrón del Mal, que nos deixaram uma impressão desfavorável do programa). Fiquei surpresa, acima de tudo, com Andrés Parra, que interpreta Escobar em 73 dos 74 capítulos: Parra é um ator brilhante – é sagaz, é ardiloso, é extraordinariamente consistente e é profundamente comprometido com a ideia de compor um Escobar de facetas variadas. Aliás, a voz e a maneira de falar dele são essenciais para essa composição, e fica todo mundo proibido de assistir em versão dublada. (Eu não sou uma falante de espanhol tão sofisticada assim, mas um leitor assinalou, inclusive, o cuidado com o sotaque e a gíria de Medellín.)

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Andrés Parra como Pablo Escobar

Eu disse ali no título que esta é uma primeira impressão porque Patrón del Mal tem capítulo que não acaba mais, e eu ainda estou na dezena inicial deles. Mas achei que valia a pena comentar desde já porque, nesta primeira leva, encontrei algo instigante: um retrato do narcotraficante quando jovem, digamos assim. Começando nos negócios, este Escobar faz coisas que não caberiam no Escobar bem mais compacto de Wagner Moura em Narcos, já fixado na sua sociopatia e nos traços narcisísticos de sua personalidade: o Escobar principiante de Parra adula bandidos mais poderosos do que ele, puxa o saco de gente importante, faz bobagem, comete erros de cálculo, leva bronca da mãe (ela acha o cúmulo que um criminoso se deixe apanhar por incompetência para o crime), é questionado pelos irmãos e pelo primo, enfrenta crises de liderança e até apanha – do irmão da menina que está paquerando, nova demais para ele. É um Escobar que está aprendendo a bandidar e a exercer o poder. Mas, caramba, como ele aprende rápido. É como diz uma malvada de Medellín: esse rapaz é um visionário.

Outro dado relevante: essa quantidade de nuance no retrato de Escobar é ainda mais admirável quando se considera que a série é produzida por pessoas que foram vítimas diretas dele. Um dos produtores é filho de um jornalista assassinado por Escobar. A outra produtora é filha de uma mulher sequestrada pelo traficante, e sobrinha do candidato presidencial Luis Carlos Galán, também assassinado por ele.

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Há um bocado de humor no retrato que Parra faz do protagonista nesta altura, e ele é muito bem-vindo. Há uma fuga da prisão que é engraçadíssima, resultado de zero de planejamento e 100% de oportunismo. Só há uma coisa que faz Escobar tremer, e é o mau-humor de sua mulher. Quando Escobar diz que vai se lançar na política, todos os seus comparsas de tráfico se espantam: “Mas a política é um ninho de cobras! É uma gente muito corrupta, sem ética!”. São piadas fáceis, sem dúvida, mas Patrón del Mal as entrega de um jeito charmoso. Há em cena, também, uma quantidade assombrosa de pessoas, cabelos, roupas e cenários cafonas – voluntariamente e também involuntariamente cafonas. Mas acho bacana, porque fica autêntico; se os anos 80 foram o poço sem fundo da estética até no Upper East Side nova-iorquino, na periferia de Medellín não há de ter sido melhor.

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E aí há algumas ressalvas a fazer. Em ordem decrescente: a produção não é má; a direção frequentemente é amadorística; os diálogos tendem a ser óbvios ou a se repetir; a edição é rudimentar; a trilha sonora é pavorosa. Estou até agora sem entender por que raios Escobar foi vivido pelo ator Mauricio Mejía no episódio inicial e só no segundo capítulo substituído por Parra: o salto temporal é mínimo, e não justifica a opção. Sem falar que a semelhança entre Mejía e Parra é nula. Em um dos capítulos, entrei em desespero: cadê o/a figurinista, que não foi capaz de pôr um sutiã decente na atriz Cecilia Navia, que faz a mulher de Escobar? Em outro capítulo, eu simplesmente parava de acompanhar a ação (e coisas importantes estavam acontecendo) cada vez que entravam em cena quatro supostas mulatas brasileiras – me distraía o fato de serem todas evidentemente colombianas da gema, fazendo um rebolado dengoso de merengue e atrapalhando-se com os penachos na cabeça.

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Mauricio Mejía como Pablo Escobar

São desleixos grosseiros – mas dramaturgia televisiva é algo que evolui, e imagino que Patrón del Mal tenha ajudado a instituir avanços significativos na produção colombiana. Ademais, como continuo assistindo à série com bastante gosto, posso afirmar empiricamente que essas falhas não tiram da novela o que ela tem de substantivo: a coragem, a raça, o conhecimento de causa, o foco. E, sobretudo, esse ator maravilhoso que é Andrés Parra.

2 comentários em “Primeira impressão: Pablo Escobar – El Patrón del Mal”

  1. CONCORDO 100% com você em relação á série.

    Quanto ao gosto estético:

    1 – Todo povo latino-americano é CAFONA de doer.

    2 – Os anos 70 foram o poço sem fundo do HORROR estético até no Upper East Side nova-iorquino — mas o Movimento Punk salvou a década.

    3 – Os anos 80 no Primeiro Mundo foram TRÉS CHIC — a elegância imperou. Bem, não totalmente. É claro que houve excessos em ilhas de deselegância. Mas mesmo os equívocos oitentistas são belos.

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