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A Comunidade

Implacável no olhar mas cheio de empatia, este filme dinamarquês é um assombro

Eu comecei A Comunidade me identificando completamente com Erik, o protagonista soberbamente interpretado por Ulrich Thomsen: quando a mulher dele, Anna (a igualmente soberba Trine Dyrholm), propõe que eles transformem o casarão em Copenhague que acabaram de herdar em república, dá para ver o coração de Erik despencando de tanto horror e desânimo – e eu senti a dor dele. Depois de quinze anos de casamento, uma filha encantadora de 14 anos, uma carreira na universidade e uma vida toda no lugar, ter de dividir a casa com estranhos e votar se depois do jantar vai ter música ou filme? É de arrepiar os cabelos mesmo. Mas Anna anda emitindo sinais de que, para ela, o casamento estacionou em um tédio benigno: em um desses diálogos maravilhosos que o diretor Thomas Vinterberg tira de ouvido como ninguém, Anna diz a Erik que adora ouvi-lo falar tanto como sempre adorou – mas, sei lá, tem a sensação de que tudo já foi dito antes entre eles. A paulada vem disfarçada em elogio, mas é forte. Erik, portanto, cerra os dentes e topa começar a seleção dos novos moradores; tudo para salvar o casamento de que ele tanto gosta.

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E lá se vêm o amigo divorciado e meio destrambelhado de Erik; um casal com cara de chatinho, que tem um filho pequeno com um problema cardíaco (que, no entanto, de início parece bem saudável e esperto); e um imigrante desempregado que cai no choro ao menor indício de rejeição ou reprovação (Fares Fares, um grande ator do cinema e televisão escandinavos). Anna está que é só felicidade: os jantares em grupo, a conversa que nunca para, o movimento na casa, os mergulhos coletivos no lago, com todo mundo pelado – nem sobra tempo para perceber que Erik continua ali, e que está com um bico cada vez mais comprido, sentindo-se completamente deixado de lado. Não fosse essa sensação de abandono, e Erik talvez – talvez – não cedesse ao avanço de Emma (Helene Reingaard Neumann), uma de suas alunas na universidade. Mas ele cede, e a coisa começa a ficar séria. E, aí, a balança de A Comunidade vai pendendo para o outro lado, até o ponto em que era a dor de Anna que eu estava sentindo: nem a primeira nem a última pessoa a calcular mal a elasticidade de um relacionamento, ela sofre horrores com o naufrágio da sua pequena utopia, esgarçada pelas demandas pessoais e coletivas conflitantes.

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Eu adoraria, um dia desses, entrevistar o dinamarquês Vinterberg. A julgar pelos seus filmes magistrais – Festa em Família, Dogma do Amor, Querida Wendy e os sublimes A Caça e Longe Deste Insensato Mundo –, ele parece reunir qualidades que é raro a um cineasta conciliar. Thomas Vinterberg é compassivo e cheio de empatia e, ao mesmo tempo, é implacável no olhar, e desassombrado e justo no julgamento. Ambientado em meados da década de 70, numa Copenhague ainda sob a influência dos sonhos do verão de 1968, A Comunidade não é propriamente autobiográfico, mas se baseia em experiência própria: Vinterberg cresceu em uma comunidade, da qual só saiu aos 19 anos, e mencionou em entrevistas as duas esferas muito distintas desse estilo de vida: um mundo só seu, no seu quarto, e um mundo excêntrico e cacofônico em todas as outras áreas da casa.

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Pela sua idade – 45 anos –, suponho que ele esteja dividido, no filme, em dois alter egos: o menino doente, que tem seus 7 anos, e Freya (a meiguíssima Martha Sofie Wallstrom Hansen), a filha de Erik e Anna, que está no meio da adolescência e, depois de passar boa parte da história como uma observadora, sendo arrastada pelos humores da casa, repentinamente assume um papel decisivo na arbitragem da disputa entre seu pai e sua mãe. A Comunidade até parece simples. Mas são tantos pontos de vista delicada e rigorosamente trabalhados, e tantos fios diferentes entretecidos na narrativa, que não há como não constatar: Vinterberg continua um assombro. Mal posso esperar pelo seu próximo filme, que terá de novo o belga Matthias Schoenaerts, de Insensato Mundo, e será sobre o desastre de 2000 do submarino russo Kursk, cuja tripulação ficou abandonada à própria sorte, nas profundezas, enquanto as famílias pressionavam o governo russo a tentar um resgate.


Trailer


A COMUNIDADE
(Kollektivet)
Dinamarca/Suécia/Holanda, 2016
Direção: Thomas Vinterberg
Com Ulrich Thomsen, Trine Dyrholm, Martha Sofie Wallstrom Hansen, Fares Fares, Helene Reingaard Neumann, Julie Agnete Vang e Lars Ranthe
Distribuição: Califórnia

4 comentários em “A Comunidade”

  1. Parabéns! Sua resenha tornou o filme instigante e pretendo assisti-lo. Contudo, tão brilhante quanto o filme é seu breve comentário”…nem a primeira nem a última pessoa a calcular mal a elasticidade de um relacionamento, ela sofre horrores com o naufrágio da sua pequena utopia, esgarçada pelas demandas pessoais e coletivas conflitantes.” creio que a grande maioria de nós passa por esta situação sem sequer se aperceber do quanto estamos indo longe mais numa relação, sobretudo quando, por vezes inconscientemente, desconsideramos as demandas do parceiro.

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  2. Me agrada muito nas suas resenhas a forma como usa adjetivos sem gratuidade. Invariavelmente, quando leio um elogio aqui (ou mesmo uma depreciação), termino o parágrafo e dou uma “googleada” pra saber mais sobre o referido. Acho que reajo assim porque seus textos deixam transparecer que você assiste cada filme desejando que seja muito bom, sem predisposição negativa. Eu não tinha o nome Thomas Vinterberg na minha “memória cinematográfica” e depois de uma pesquisa rápida já estou a fim de ver tudo que ele fez.
    Glamour não dá em qualquer lugar ;-). Obrigado por escrever e compartilhar opiniões assim elegantes e inteligentes.

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    1. A solução é fácil, Erik:

      “Então a República na sua fantasia pra você é mais importante que nosso amor? Então seja feliz com os estranhos e depois você pode votar se eles vão deixar você assistir a sua novela! Quem não tem problemas e quer importar alguns, faça como na Dinamarca. Adeus, imbecil!”

      ….ou como diz aquela propaganda de uma firma de advogados especializados em divórcios:

      “Ditch The Bitch.”

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