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Águas Rasas

Com Blake Lively e um tubarão, o diretor Jaume Collet-Serra faz uma ótima brincadeira com Encurralado, o filme de estreia de Steven Spielberg

A amiga deu o cano; Nancy (Blake Lively) não só está sozinha como nem sequer sabe exatamente onde a praia fica ou o nome dela (o pessoal do lugar faz segredo, para proteger seu santuário da turistada que vai ao México barbarizar): ela mostrou a foto que sua mãe tirou ali 25 anos antes e um sujeito deu carona a ela na sua caminhonete velha. Para além da arrebentação, Nancy enxerga dois surfistas – e mais ninguém. Não há viv’alma na baía azul-turqueza, na qual tubos perfeitos rolam sobre uma cama de corais. Não que Nancy queira companhia: ela está ali para lembrar da mãe, curtir a fossa pela morte dela – e pegar onda. Os dois surfistas tentam mexer com ela, mas a coisa não vai longe. Quando eles vão embora, ela fica, apesar de ser quase hora do pôr-do-Sol.

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Antes ela tivesse ido embora, e rápido. Se você viu o trailer, sabe que Nancy está a cinco minutos a nado da areia, mas poderia estar na Lua: entre ela e a segurança, surge um tubarão branco em fúria. Nadando desesperada para se refugiar em uma rocha no meio do mar, ela faz um talho horroroso na perna. Sangrando muito, Nancy é como um farol aceso; o tubarão sempre vai saber onde ela está. Encarapitada na rocha, machucada, gelada de frio, queimada de sol, esfolada pelos corais, sem água e sem comida e apenas com uma gaivota de asa quebrada por companhia, Nancy vai atravessar um suplício durante a hora seguinte do filme do diretor catalão Jaume Collet-Serra – e o tubarão (ou tubaroa, na verdade, diz o diretor), esse nem por um instante dá uma chance a Nancy.

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Confesso que adoro os filmes de Jaume Collet-Serra. Nem tanto a fase de terror da qual A Órfã é o destaque, mas sim aqueles que eu chamo de seus filmes de via-crúcis: Desconhecido, Sem Escalas e Noite Sem Fim, nos quais o ator-fetiche do diretor, Liam Neeson, atravessa martírios (cada filme o submete a um martírio de natureza diferente) durante um intervalo fechado de tempo. Mas, antes que alguém pense que Collet-Serra de alguma maneira se repete por usar sempre esse tipo de premissa, já vou esclarecendo que ele filma que é uma beleza e é de uma criatividade e um dinamismo notáveis, e cada variação desse mesmo tema soa como uma melodia diferente.

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Em Águas Rasas, a coisa fica ainda mais interessante: quando fica sabendo da história do filme, todo mundo lembra de Tubarão. Claro, não haveria como não lembrar. Mas a inspiração de Collet-Serra é outra, embora da mesma autoria: é o Encurralado com que Steven Spielberg estreou em 1971. Quem não viu Encurralado não sabe o que está perdendo. São exatos 90 minutos de puro desespero. O motorista interpretado por Dennis Weaver ultrapassa um baita caminhão na estrada, e o caminhoneiro reage como o tubarão de Águas Rasas ao ser perturbado durante a refeição – ou seja, reage com uma fúria primitiva de predador, com aquela persistência encolerizada de bicho que não pode perder a presa de vista nem, em hipótese nenhuma, deixá-la escapar. Spielberg frisa essa alusão a uma ira primitiva e bestial com um recurso simples e extremamente eficaz: nunca mostra o rosto do caminhoneiro. Às vezes veem-se suas botas, ou suas mãos, ou o chapéu. Mas nunca ele inteiro, e jamais seu rosto. Em Águas Rasas, Collet-Serra faz o mesmo com o tubarão, quase até o último minuto.

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Um dos aspectos determinantes da progressão de Encurralado, que Spielberg (então com 24 anos) usa com maestria, é a linearidade da estrada, da qual o pobre Dennis Weaver não tem como fugir e na qual ele está sempre em evidência. É uma alegria ver a maneira como Collet-Serra transmuta esse princípio para a circularidade da baía – da qual Nancy também não pode fugir, e na qual ela também está sempre em evidência. Acho estimulante quando um diretor se propõe a transformar um problema lógico para o qual não há solução em um ponto forte do filme, explorando-o até o limite da sua imaginação.

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Agora, a surpresa maior de Águas Rasas: Blake Lively. Não sou muito da turma de Gossip Girl e, embora tenha gostado muito de Blake em Atração Perigosa e em Selvagens, tinha achado bem sem graça o único papel principal dela até aqui, em A História de Adaline. Agora está claro que, em Adaline, ela foi mal aproveitada – e que Collet-Serra identificou bem os fortes dela (além dos óbvios e muito bonitos mesmo, que são o cabelão, o corpão e o rosto lindo). Blake (que está ainda em outra estreia da semana, o Café Society de Woody Allen) tem força e perseverança sob a beleza, e tem também uma certa capacidade de se recolher dentro de si e se recompor. Ao contrário de Liam Neeson, que nos filmes de Collet-Serra usa a cabeça mas também distribui muita pancada, ela aqui não teria a menor chance de medir forças fisicamente com o tubarão. São esses atributos então, os de personalidade, em que o diretor tem de se apoiar, e Blake corresponde à confiança dele com um compromisso inflexível com a sua personagem. Por causa dela, Collet-Serra se obriga a ser ainda mais criativo que de costume – e não há homenagem maior que um diretor possa prestar a uma atriz.


Trailer


ÁGUAS RASAS
(The Shallows)
Estados Unidos, 2016
Direção: Jaume Collet-Serra
Com Blake Lively, Óscar Jaenada, Angelo Jose
Distribuição: Sony

11 comentários em “Águas Rasas”

  1. Um filme muito bom, gostoso de assistir. Desde o primeiro indício do tubarão um sentimento de aflição tomou conta de mim, sentimento que durou até o “ato final”. Antes que eu pudesse me dar conta, a trama já tinha chegado ao fim, e não há uma consideração melhor que essa para se definir um filme tão envolvente.

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  2. A praia, a enseada, a natureza, são lindas. A melhor cena: a metade do corpo do bêbado se arrastando pela praia, acompanhada, simetricamente, pela outra metade. Ah, não podemos esquecer do corpo do jovem surfista abocanhado, também simetricamente deitado sobre a areia, intacto. O filme pode ter seus méritos técnicos, destacados pela mestre Isabela, de quem sou fã e admirador…. mas não dá… o filme não vale o ingresso. Pobre tubarão.

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  3. Gostei muito da sua crítica! Confesso que me surpreendi com a Blake. Pra falar vdd eu nem a conhecia direito, mas ela me conquistou. Uma excelente atriz! Sobre o filme: o melhor de tubarão desde do clássico Tubarão, sem mais!

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  4. Sobre a praia, tem umas cenas que as pedras e rochas ao fundo lembra as a orla das ilhas de Coronado Islands, no México. Tem uma uma ilha, chamada de Pilón de Azúcar, próximo a costa de Tijuana – México. Mas disseram que as gravações foram feitas lá pelas bandas da Austrália. Então pode ser lá na Ilha de Lord Howe, lá pelo mar da Tasmânia. Lá tem umas formações rochosas e mar com esse azul turquesa!

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  5. Cara Isabela, confesso que assisti ao filme sem pretensões e ele me surpreendeu. Blake caiu como uma luva no papel, pra mim um dos pontos fortes do filme! Sem desmerecer o enredo , direção e… que fotografia! O filme é diversão garantida e recomendei a todos meus amigos.

    Não sou expert, muito menos cinéfilo xiita… mas é fácil reconhecer quando um filme é bem executado, mesmo com alguns pontos fracos como (spoilers!!!): Cena do bêbado ladrão… cena final do tubarão.

    Bela resenha, foi um prazer lê-la.

    Alex.

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    1. Rapaz, num entendestes nada que a Isabela falou porque provavelmente nunca viste Encurralado do Spielberg. E foi exatamente o que senti enquanto assitia The Shallows …”parece Encurralado”…pensei na minha santa ignorância e vi que acertei. Bela critica Sra. Boscov ! A premissa de Jaws é completamente diferente da de The Shallows. Tomei ótimos e empolgantes sustos….

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