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Amor e Amizade

Jane Austen ganha uma versão corrosiva – e saborosíssima

Como maníaca por Jane Austen, é sempre com apreensão que eu começo a ver um filme ou uma série adaptados da obra dela: vão fazer jus? Vão entender direito o humor finissimamente calculado para parecer educado, mas que é sempre corrosivo e frequentemente cruel? Vão transformar a coisa toda em história de amor e pôr de escanteio o aspecto trágico dos romances delas – o de mulheres sempre acuadas pela necessidade financeira de um casamento, e sempre à mercê da opinião alheia, por mais ignorante que ela seja? Começando a ver Amor e Amizade, senti apreensão redobrada: o filme do diretor americano Whit Stillman se baseia em Lady Susan, uma noveleta em forma de cartas que Austen escreveu aos 19 anos e então pôs na gaveta. E lá o manuscrito ficou por quase oito décadas. Só foi publicado em 1871, 54 anos depois da morte dela. Austen era uma crítica implacável do seu próprio trabalho. Se achou que ele não merecia ver a luz do dia, é porque não queria ser conhecida por ele, e não sei se alguém tem o direito de ir contra o julgamento de um autor sobre si mesmo. Mas que surpresa deliciosa: Stillman é uma alma gêmea de Austen. Ele a compreende pelo direito e pelo avesso, e conseguiu corrigir aquilo que ela achou que não podia ser corrigido. E ainda por cima achou em Kate Beckinsale uma atriz de talentos talhados à perfeição para encarnar Lady Susan Vernon, uma viúva trintona e bonitona que não tem nenhum escrúpulo.

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Lady Susan Vernon perdeu o marido faz só alguns meses, mas está desesperada para fazer um novo casamento: ela precisa do dinheiro e do status para continuar a viver como está acostumada. Mas Lady Susan tem também certos apetites carnais que não são muito bem vistos: hospedada há algum tempo na casa de uma família aristocrática, ela arrumou um cacho escandaloso com o seu anfitrião, Lorde Manwaring – para indignação de Lady Manwaring, que não quer mais ser traída assim, bem na frente do seu nariz.

A coisa toda vira escândalo em sociedade, e Lady Susan se despacha então para a casa de seu cunhado para deixar a poeira assentar. Mas continua empenhada em arranjar um novo marido – e em casar também sua filha Frederica, de 16 anos, a quem ela trata como uma idiota e um estorvo. Para Frederica, ela já tem um candidato em vista: o milionário Lorde Martin, que é um completo paspalho (mas um paspalho feliz, já que não faz a menor ideia de sua estupidez). Para si mesma, ela não se decide; Lady Susan quer um homem com renda gorda, mas, sabendo da vida tudo que já sabe, quer se sentir também atraída por ele. Atenção: estamos aqui no finalzinho do século 18. A ideia de que uma mulher manipule as regras do jogo em seu favor sem nenhuma culpa é positivamente audaciosa.

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Jane Austen nasceu em 1775, em uma família de recursos moderados, e nunca se casou. Viveu a vida toda em fricção com uma sociedade provinciana, de gente tacanha, na qual mesmo toda sua inteligência e brilho, e seu sucesso como escritora, não bastavam para fazer dela mais que uma solteirona aos olhos das pessoas com as quais ela tinha de conviver. É bem provável que ela tenha tido um ou outro caso clandestino, mas foi tão discreta que não sobraram evidências conclusivas deles. Como eu já disse, Austen era uma crítica implacável de si mesma – e, usando a mesma régua, sabia também o quanto seu talento era real e singular. Deve ter sido como passar a vida metida numa roupa que pinica e coça.

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Austen transformou esse incômodo numa obra que não tem rival na literatura, mas não há como olhar para a impaciente, cínica e ácida Lady Susan que Kate Beckinsale interpreta com precisão cronométrica e não imaginar que Austen se vê em certas partes dela. E não há também como ver Lady Susan conversando com sua melhor amiga, Alicia – uma excelente Chloë Sevigny – sem imaginar que Alicia é uma espécie de alter ego de Cassandra, a irmã que Jane Austen adorava e que considerou sempre sua igual, a única pessoa com quem ela se permitia franqueza absoluta. Logo antes de morrer, em 1817, aos 42 anos, Austen celebremente disse que não precisava de mais nada da vida que não a morte. Lady Susan Vernon é incapaz de fazer assim as pazes com seus desejos. Mas Jane Austen a compreende integralmente – e Whit Stillman e Kate Beckinsale também.

Obs.: Quem viu Os Últimos Embalos da Disco, que Whit Stillman lançou em 1998, vai pegar a brincadeira: as protagonistas eram Kate Beckinsale e Chloë Sevigny.


Trailer


AMOR E AMIZADE
(Love & Friendship)
Irlanda/Inglaterra/França/Holanda/Estados Unidos, 2016
Direção: Whit Stillman
Com Kate Beckinsale, Chloë Sevigny, Xavier Samuel, Tom Bennett, Morfydd Clark, Stephen Fry
Distribuição: Califórnia

4 comentários em “Amor e Amizade”

  1. Sou homem e tal, mas um leitor assíduo da obra de Jane Austen, objeto de meu mestrado. Confesso que estava receoso com essa adaptação. Uma obra em que você lê gargalhando e cheio de espanto! A julgar pelo trailer e por sua crítica, creio que o cara acertou!

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    1. Nunca a li nem a lerei, mas é claro que a respeito inteiramente e a recomendo a todas, como um clássico cânone literário e como brilhante e honesta cronista de uma época extremamente hipócrita e cretina (muito melhor que o proto-nazista Shakespeare, que é sempre uma “pain in the as.s”).

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    1. Só o fato de chutarem pro olho da rua aquela cara de paisagem da Keira Knightley e contratarem uma MULHER MARAVILHOSA como Kate Beckinsale, já merece todos os aplausos. Não vou assistir porque não é o meu gênero (sexual e ficcional – literário / cinematográfico) mas recomendo á mulherada. Finalmente, Jane Austen pode suspirar feliz dando aprovação. Viu? Por mais que se esforce, ás vezes Hollywood sem querer acerta.

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