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A Vingança Está na Moda

Até Kate Winslet, às vezes, erra no figurino

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Faz parte do meu trabalho, às vezes, avisar que se você quer por que quer ver certos filmes, é por sua conta e risco. Mas não diga que eu não falei. Se você fez promessa de amor para Kate Winslet, ou se desafiou a ver todos os filmes australianos jamais produzidos, ou acha que um minuto e meio de Liam Hemsworth sem camisa vale o preço do ingresso, ou tem a convicção que um trailer (e o de Vingança Está na Moda é bem simpático) é o resumo fiel de um filme  – então pronto, não há o que discutir. Em qualquer outra hipótese, pense bem antes de decidir que este é o programa certo, porque o quarto filme da diretora australiana Jocelyn Moorhouse (e o primeiro em dezoito anos, desde Terras Perdidas) é, francamente, uma colagem sem pé nem cabeça.

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Kate Winslet é Tilly, que no início da década de 50 volta para o vilarejo minúsculo e poeirento no interior da Austrália do qual ela saiu escorraçada anos antes, quando ainda era menina. Os locais acreditam que Tilly matou outro menino no pátio da escola, mas ela própria não tem nenhuma lembrança de tê-lo feito. Mesmo antes do suposto crime, Tilly e sua mãe, Molly (Judy Davis), já eram as párias do lugar: pobres, sujinhas, vestidas em trapos e sem pai (ou marido) à vista. A surpresa é que, longe dali, Tilly fez a vida: virou modista, ficou linda e decididamente glamourosa. Assim que põe os pés ali de novo, vira objeto de inveja – e é exatamente esse seu talento, de criar vestidos, ensinar elegância e despertar discórdia, que ela usará para descobrir os segredos do seu passado se vingar-se dos que a prejudicaram e à sua mãe (que está louquinha de tudo).

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Até parece interessante, eu sei. Mas os personagens são mal escritos que é um susto: vão daquelas caricaturas de cidade pequena – a malvada, o adúltero, a sofrida, a excêntrica etc. – ao completamente desatinado (o policial vivido por Hugo Weaving, e a própria protagonista). Comédia, melodrama, farsa, romance e suspense colidem entre si de qualquer jeito, como pinos de boliche. A impressão é de que não há ninguém no comando – certamente não Jocelyn, ao menos. E chamar a trama disso, de “trama”, é uma bondade, já que aqui não há fios que se ligam ou se entretecem, apenas uma sucessão de entrechos inverossímeis que se acumulam sem respeito pela lógica. Liam Hemsworth, coitado, tem a difícil missão de unir dois ou três desses emaranhados do filme, mas suspeito que deve ter se sentido como se estivesse fazendo dois ou três filmes diferentes – nenhum deles muito bom.

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No que toca à direção, essa bagunça não chega a ser surpresa: Jocelyn Moorhouse teve uma recepção moderada com seu primeiro filme, A Prova, de 1991, no qual Hugo Weaving fazia um fotógrafo cego. Mas nunca conseguiu reunir novamente a mesma boa vontade em torno de suas produções americanas seguintes, Colcha de Retalhos (1995), com Winona Ryder, e Terras Perdidas (1997), com Jessica Lange e Michelle Pfeiffer – ambos dramas um tanto frouxos, mornos e sem personalidade. O roteirista de A Vingança Está na Moda, P.J. Hogan (que é casado com Jocelyn), já fez melhor: seu Casamento de Muriel, de 1994, foi um dos grandes sucessos da nova onda australiana que estava surgindo então. Em tese, seu estilo satírico-fabulesco serviria bem ao enredo de A Vingança; na prática, a absoluta falta de estilo do filme invalida essa presunção. (Vale anotar que o filme se baseia no livro homônimo de uma certa Rosalie Ham, o qual, na boa, não pretendo conferir.) O mistério é o que, exatamente, Kate Winslet está fazendo no meio desse rolo. Suspeito que ela também não saiba.


Trailer


A VINGANÇA ESTÁ NA MODA
(The Dressmaker)
Austrália, 2015
Direção: Jocelyn Moorhouse
Com Kate Winslet, Liam Hemsworth, Judy Davis, Hugo Weaving, Sarah Snook, Caroline Goodall, Kerry Fox, Barry Otto, Shane Bourne, Alison Whyte
Distribuição: Imagem

2 comentários em “A Vingança Está na Moda”

  1. Adorei sua sinceridade. Deu até vontade de ver para comprovar que é assim tão ruim. E de repente o livro é bom, já que como vc mesma disse em seu primeiro paragrafo, a estória tinha tudo para ser interessante.

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    1. É interessante ler uma resenha de tom leve, sobre um pequeno filme desconhecido, com um visual primoroso (ao menos nas fotos da maravilhosa Kate Winslet) e ao mesmo tempo descrevendo os comos e os porquês deste ser um programa de índio (ou de aborígene) de maneira serena e objetiva, numa linguagem ora técnica, ora coloquial, sempre mantendo a desenvoltura com o leitor. Ás vezes, até mesmo analistas de vocabulário elevado podem se dar ao luxo de soltar um “na boa” evitando o desastre que seria um “de boa” que os jovens de hoje costumam cometer aos nossos olhos e ouvidos. Eis aqui uma boa leitura petisco para o café da manhã.

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