Divulgação

Sinfonia da Necrópole

As aventuras e desventuras de um coveiro relutante

Estou meio atrasada com esta resenha do filme da diretora Juliana Rojas, mas não queria deixar de vê-lo nem de comentá-lo: sou grande admiradora do trabalho de Juliana e de seus companheiros no coletivo Filmes do Caixote – Caetano Gotardo, de O que Se Move, e Marco Dutra, de Trabalhar Cansa (dirigido em parceria com Juliana) e Quando Eu Era Vivo. Este Sinfonia da Necrópole faz juz em tudo ao espírito do coletivo paulista: é totalmente inusitado, profundamente pessoal e deliciosamente surpreendente.

Divulgação

Inusitado, primeiro, porque se trata de um musical passado em um cemitério: entre uma samba, uma balada ou um rock (todas as canções foram compostas por Juliana e Dutra), fica-se sabendo que o jovem Deodato (Eduardo Gomes) veio do interior, onde plantava couves, para ser aprendiz do tio coveiro, Jaca (Paulo Jordão), em São Paulo. Jaca e o outro coveiro, Humberto (Germano Melo), adoram seu trabalho; uma cova bem-feita exige arte e ciência, dizem eles, e é assunto sério, por se tratar da última morada que se dá a alguém. (Jaca e Humberto afirmam também que coveiros fazem o maior sucesso com as mulheres, pelo mistério da profissão.) Deodato, porém, não tem muita vocação para a coisa. Pensa o tempo todo nos que deixaram de ser vivos, medita sobre a própria morte, deprime-se.

Divulgação

Quando Jaqueline (Luciana Paes) aparece no cemitério, Deodato encontra um novo ânimo: funcionária do Serviço Funerário e também ela orgulhosa do papel que desempenha nessa passagem inevitável da vida à morte, Jaqueline veio mapear os túmulos. Quer saber quais estão abandonados, e quais ainda podem ser remanejados, para implantar uma solução urbanística ao excesso de mortes da cidade: jazigos verticais que, como prédios, abrigarão no mesmo espaço um número muito maior de ocupantes. Jaqueline recruta o auxílio de Deodato no mapeamento, e depois roda com ele por São Paulo, em um estiloso rabecão do IML, para obter a assinatura das famílias dos mortos. Deodato está encantado – mas logo estará horrorizado: quando os caminhos burocráticos se esgotam, Jaqueline simplesmente passa a recolher as ossadas dos túmulos sem identificação. Em uma cena que combina humor negro à meiguice de forma exemplar (e o pessoal do Filmes do Caixote é mestre nessas confluências inesperadas de sentimentos), Jaca e Humberto vão desmontando uma ossada e passando úmeros e fêmures para Deodato – que, claro, desmaia (de novo) à beira da cova. E, mais tarde, apavorado, sonha em um número musical que os mortos saíram de seus túmulos para se queixar a ele da perturbação ao seu sossego.

Divulgação

Pode até ser que você demore um pouco para entrar na sintonia do filme – eu demorei um tantinho. Mas, pouco a pouco, fui sendo conquistada pela originalidade da ideia, pelas letras tão caprichosas das canções, pela voz linda de Luciana Paes e sobretudo pela maneira como Juliana Rojas casa o insólito ao divertido, e a melancolia à esperança (preste atenção ao número que Jaqueline e Deodato cantam dentro do rabecão, e que começa com os pingos da chuva tilintando no pára-brisa). Como todos os outros longas saídos desse viveiro de ideias que é o Filmes do Caixote, este aqui é único e inimitável – além de imensamente simpático.


Trailer


SINFONIA DA NECRÓPOLE
(Brasil, 2015)
Direção: Juliana Rojas
Com Eduardo Gomes, Luciana Paes, Paulo Jordão, Hugo Villavicenzio, Germano Melo, Luiz Mármora, Antonio Velloso
Distribuição: Vitrine

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s