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Mundo Cão

Violência e vingança opõem Lázaro Ramos e Babu Santana numa tragicomédia que é o filme certo na hora certa

Neném tem, sim, amor no coração. Ele ama Nero acima de todas as coisas – e também Calígula, e Herodes, e Salomé. E, pelos nomes que dá aos cães que ama tanto, já se vê que tipo de pessoa Neném é: um desequilibrado da modalidade narcisista-megalomaníaca. Em mais um grande desempenho, Lázaro Ramos interpreta Neném com doses variáveis, conforme a ocasião, de extroversão e ameaça. Ex-policial que toca uma rede ilegal de máquinas caça-níqueis, Neném é alguém de que se deve manter distância. E com quem, em caso de proximidade, deve-se ter cuidado. Ignorante desses fatos, Santana (Babu Santana, excelente), um sujeito boa-praça, agente da carrocinha paulistana, perde sua costumeira tranquilidade numa discussão com Neném. Santana capturou Nero, o rottweiler de 60 quilos e coleira de pontas de metal que andava aterrorizando o pátio de uma escola. Passados três dias sem que ninguém viesse procurá-lo, Nero foi sacrificado, conforme manda a lei (está-se em 2007; em 2008, ela mudou, e o sacrifício de animais saudáveis foi proibido). Mal Nero dá seu último suspiro, Neném aparece, bufando e exigindo explicações. Na briga que se segue, Santana tenta explicar quais são as regras – e Neném, indignado por alguém ter o topete de aplicar as regras à sua pessoa (e às extensões dela, como Nero), jura que vai não deixar barato e vai partir para cima de Santana.

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São tantas as qualidades de Mundo Cão, o quarto longa-metragem do curitibano Marcos Jorge, que fico indecisa: de qual dessas qualidades falo primeiro? Do roteiro de construção exemplar, que vai numa escalada de reviravoltas chocantes – e sempre rigorosamente plausíveis? Ou falo do elenco impecável, que inclui ainda Adriana Esteves, como a mulher de Santana, e Thainá Duarte e Vini Carvalho como os filhos do casal – todos peças fundamentais na engrenagem da história? Tenho que mencionar também o cenário inusitado armado por Jorge, um dos diretores que revigoram o cinema nacional ao tirá-lo das suas fixações temáticas e estilísticas. E elogiar a sua veia para o humor negro, ainda mais lapidada do que no seu excelente (e, na minha opinião, imperdível) filme de estreia, Estômago, de 2008 (leia aqui a resenha publicada na ocasião do lançamento).

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Mas, nesta semana incendiária para o país, o que vem espontaneamente para o primeiro plano, em Mundo Cão, é a perspicácia com que ele identifica os mais daninhos vícios sociais brasileiros no seu recorte de personagens: gente que não é nem muito pobre nem muita rica, nem muito poderosa nem muito oprimida, nem trágica demais nem trágica de menos, e que tem todas as tonalidades de pele que as pessoas têm nas ruas. A cinedramaturgia brasileira em geral acha que gente de relevo assim tão comum, que não vem separada em trincheiras, não tem muito valor “didático”, mas Marcos Jorge prova o exato oposto – há muito mais para entender aqui do que na maioria da produção da última década. Ou das últimas décadas. Releia a sinopse da história no primeiro parágrafo: ela poderia ser um resumo do que está em jogo no noticiário de hoje, a quinta-feira 17 de março. E não, não faço a ressalva “guardadas as devidas proporções”, porque a natureza da coisa é a mesma, em qualquer escala. Ameaçar a vida de um menino por causa de um cão e achacar as instituições para livrar a própria pele de um processo são essencialmente a mesma coisa – são produto de um ambiente em que qualquer um que tenha algum poder (ou ex-poder) se sente no direito de achar que regras são coisa de otário, e no qual a indiferença às catástrofes que se provoca pode facilmente deslizar para a sociopatia, produzindo outras tantas distorções na sua esteira (distorções de que o filme, aliás, também trata, e em detalhes arrepiantes).

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Mundo Cão, claro, não é um tratado socio-político. É um thriller tragicômico escrito com tanto suingue e tanta esperteza, e dirigido com tanta habilidade e tanto ritmo que, se quisesse ser meramente diversão, poderia sê-lo, sem problema nenhum. Mas é o fato de ser tudo isso e também ser mais que o torna tão palpitante: por que o cinema brasileiro deveria se contentar em ser uma linha de montagem de comédias besteirol e ocasionais dramas que requentam as mesmas teses há cinquenta anos se ele pode ser isto aqui?


Entrevista com Lázaro Ramos e Marcos Jorge


Trailer


MUNDO CÃO
Brasil, 2016
Direção: Marcos Jorge
Com Lázaro Ramos, Babu Santana, Adriana Esteves, Thainá Duarte, Vini Carvalho, Milhem Cortaz, Paulinho Serra, Tony Ravan
Distribuição: Paris/Downtown

6 comentários em “Mundo Cão”

  1. Eu assisti a esta porcaria no festival de cinema do Rio. A crítica se limitou a reproduzir algumas passagens do release/kit imprensa. O filme é podre. Um grande perda de tempo e as “reviravoltas” só existem na cabeça do diretor/roteirista. Muito, muito ruim.

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  2. Mais do que nunca, e digo isso sem me sentir minimamente hiperbólico, precisamos da arte para nos situar e nos trazer preenchimento crítico. O país vive dias efervescentes. Que junte-se à fervura um cinema vigoroso e cheio da agudeza trazida por filmes como esse.

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