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Nossa Irmã Mais Nova

Japonês não é só o da Federal: alguns filmes japoneses maravilhosos, de ontem e de hoje, para você conferir

Está em cartaz nos cinemas o lindíssimo Nossa Irmã Mais Nova, de Hirokazu Koreeda, que eu (que sou caçula) adoraria ter visto na companhia das minhas duas queridíssimas irmãs. Explico: um trio de irmãs já lá pelos 20 anos de idade conhece, no funeral de seu pai, Suzu, de 13 anos, filha do segundo casamento dele. Suzu está muito triste com a perda e está também desamparada: vai ter que viver com a madrasta – a terceira esposa do pai –, com quem ela não tem nenhum laço de sangue. Subindo no trem para retornar à sua cidadezinha costeira, as três irmãs mais velhas fazem o convite repentino a Suzu: por que não ir morar com elas em sua casa velha mas espaçosa? Com o trem já em movimento, Suzu, seguindo-o nos trilhos, se abre em um sorriso e aceita; e segue-se uma das mais belas histórias que eu já vi sobre o amor fraterno. Especificamente, sobre como ele vem lá do fundo e é tão primordial que uma pessoa em quem você nunca tinha postos os olhos antes subitamente pode parecer indispensável à sua vida. É como se Suzu fosse aquilo que sempre estivera faltando na vida das três irmãs mais velhas, embora elas nunca tivessem se dado conta de que algo lhes faltava. Com ela, elas são completas – um sentimento que eu reconheço muito bem, e do qual Koreeda já tratou várias vezes em sua carreira.

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Quando é operístico como os filmes de Akira Kurosawa e, às vezes, de Takeshi Kitano, ou quando é pequeno e intimista como os filmes de Koreeda e do mestre Yasujiro Ozu – e isso sem falar nas animações de Hayao Miyazaki -, o cinema japonês prima sempre pela delicadeza e pelo rigor formal: esse pessoal leva a composição visual muito a sério. Mas o que eu gosto no cinema japonês é sobretudo a maneira como ele é discreto e cheio de decoro no trato dos sentimentos: para mim, isso os deixa muito mais fortes do que se eles fossem derramados. Assim como Suzu completa suas irmãs, você, o espectador, completa os filmes com a sua própria experiência.

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Aí vai, então, uma pequena seleção de filmes japoneses que eu adoro – e que sim, você pode encontrar com certa facilidade, já que eles foram todos lançados em DVD no Brasil. Ela é meio aleatória, confesso. E deixei de fora Akira Kurosawa, Kenji Mizoguchi e Yasujiro Ozu (mentira: incluí meu favorito de Ozu) não só porque eles são os mais manjados (com toda razão) mas porque – boa notícia – uma parte expressiva da filmografia deles foi lançada em DVD no Brasil e é bem fácil de achar.


Trailer


NOSSA IRMÃ MAIS NOVA
(Umimachi Diary)
Japão, 2015
Direção: Hirokazu Koreeda
Com Haruka Ayase, Masami Nagasawa, Kahu, Suzu Hirose
Distribuição: Imovision


Pai e Filha

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Banshun, 1949

Quem nunca viu os filmes de Yasujiro Ozu (1903-1963) leva uma vantagem sobre os demais cidadãos: ainda vai ter a alegria de vê-los pela primeira vez. Pai e Filha é uma obra-prima. Setsuko Hara, cujo sorriso luminoso foi aproveitado pelo cineasta em seis de seus filmes, é Noriko, tão unida ao pai que não imagina prescindir dele; o maravilhoso Chishu Ryu, que marcou presença em quase toda a obra de Ozu, é o pai, um velho professor que aprecia a companhia da filha em igual medida, mas preocupa-se com o fato de que ela não deseja passar à próxima etapa da vida – ou seja, casar-se e iniciar sua própria família. Ambos, então, farão um sacrifício um pelo outro. E cada um dos dois vai também tentar impedir que o outro perceba a dimensão desse sacrifício. O cinema de Ozu é o da família, do vilarejo, das coisas pequenas do dia-a-dia, que ele encenava em imagens disciplinadas, mas imensamente emotivas.

Isabela Boscov
Publicado originalmente na revista VEJA no dia 06/02/2008
Republicado sob autorização de Abril Comunicações S.A
© Abril Comunicações S.A., 2006

O Que eu Mais Desejo

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Kiseki, 2011

Koichi e seu irmão Ryu estão separados pelo divórcio dos pais. Koichi mora com a mãe e os avós numa cidade que está recoberta pelas cinzas de um vulcão, e anseia pela reunião da família. Ryu, solar e muito realista, mora com o pai músico, e lembra-se bem demais das brigas entre o casal. Koichi, porém, não descansa: seguindo um raciocínio só seu, determina que o momento em que os trens-bala que ligam sua cidade à do irmão se cruzarem será ideal para fazer desejos. Logo, coleguinhas em ambas as pontas dos trilhos estarão formulando seus pedidos. Os filmes do diretor Hirokazu Koreeda têm uma beleza tão fundamental que chega a machucar. Este aqui, embora bem menos sombrio que Ninguém Pode Saber, sobre quatro irmãos largados num apartamento por sua mãe dissoluta, compartilha dessa mesma qualidade: em uma conclusão antitética à do drama familiar ocidental, os meninos entenderão que mais sábio do que tentar moldar a vida é aceitá-la.

Isabela Boscov
Publicado originalmente na revista VEJA no dia 23/05/2012
Republicado sob autorização de Abril Comunicações S.A
© Abril Comunicações S.A., 2012

O Samurai do Entardecer

tasogare
Tasogare Seibei, 2002

Em meados do século XIX, Seibei Iguchi (o maravilhoso Hiroyuki Sanada), samurai do terceiro escalão, perde a mulher, endivida-se com o funeral e vai se descuidando até o ponto de incomodar os colegas com seus quimonos sujos e cabelos desgrenhados. Secretamente, porém, Seibei está feliz: viver para suas filhas, de 5 e 10 anos, é como ver flores desabrochando, diz ele. Se há um tema raro no cinema japonês é esse, o do afeto masculino – ainda mais tratado com a maestria do veteraníssimo diretor Yoji Yamada. Um dos casos infreqüentes em que a Academia acertou em cheio numa indicação ao Oscar de filme estrangeiro.

Isabela Boscov
Publicado originalmente na revista VEJA no dia 14/06/2006
Republicado sob autorização de Abril Comunicações S.A
© Abril Comunicações S.A., 2006

Harakiri

seppuku
Seppuku, 1962

Hanshiro (o magistral Tatsuya Nakadai), um samurai sem mestre, pede ao clã Iyi o obséquio de que o deixem cometer o haraquiri, o suicídio ritual, em seu pátio: ele não mais suporta a pobreza e a vergonha de não pertencer a um senhor, diz. Não é a primeira vez que o clã ouve um pedido como esse; está-se no início do Período Edo, no século XVII, quando a centralização do shogunato pôs fim a casas tradicionais e deixou muitos guerreiros ao deus-dará. Temeroso de que o velho samurai esteja usando o pretexto do haraquiri para obter dinheiro ou um emprego, o conselheiro do clã decide contar a ele o que se passou ali alguns meses antes, quando um jovem samurai apareceu com essa mesma história – um episódio que terminou de forma brutal. Existem, porém, ligações entre o velho e o jovem, as quais o diretor Masaki Kobayashi vai desenhando com estupendas tensão narrativa e composição visual – e também com fortíssima verve contra o bushidô, o código de honra samurai, que ele expõe neste filme magnífico em toda a sua tirania e hipocrisia. O DVD traz também a refilmagem de 2011 do diretor Takashi Miike, lindíssima mas bem menos potente.

Isabela Boscov
Publicado originalmente na revista VEJA no dia 26/11/2014
Republicado sob autorização de Abril Comunicações S.A
© Abril Comunicações S.A., 2014

Verão Feliz

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Kikujiro, 1999

Ator, diretor, escritor e até mesmo jogador bissexto de beisebol, o japonês Takeshi Kitano ficou conhecido por aqui com o sucesso “cabeça” Hana-bi – Fogos de Artifício. Neste novo filme, ele mostra sua versatilidade. Verão Feliz conta a história do menino Masao, que sofre por não ter um pai e viver longe da mãe. Planejando uma fuga para visitá-la, ganha a companhia de um vagabundo (vivido pelo próprio Kitano). Apesar do jeito grosseirão e amalucado, ele se revelará tão carente quanto o próprio garoto. É um tema clássico do cinema, visto, por exemplo, em Central do Brasil. Aqui, no entanto, ele ganha um tratamento ao mesmo tempo pungente e alegre.

Isabela Boscov
Publicado originalmente na revista VEJA no dia 03/05/200o
Republicado sob autorização de Abril Comunicações S.A
© Abril Comunicações S.A., 2000

Depois da Chuva

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Ame Agaru, 1999

Quando o cineasta Akira Kurosawa morreu, em 1998, deixou um projeto por realizar: um roteiro sobre um samurai que, apesar de sua perícia no manejo da espada, não consegue encontrar um senhor a quem servir. O motivo de sua dificuldade é que ele é amigável e humilde, qualidades não muito apreciadas em seu, por assim dizer, ramo de atividade. Os colaboradores habituais do diretor não se conformaram em deixar essa história no papel. Reuniram-se sob a liderança de Takashi Koizumi (assistente de Kurosawa por quase três décadas) e rodaram Depois da Chuva. Em tom de fábula, o filme acompanha as vicissitudes do samurai Ihei Misawa e sua mulher, obrigados a interromper sua busca por emprego por causa de uma chuva prolongada. Isolados numa pensão, eles se preocupam com a hostilidade reinante entre os hóspedes. Ihei, então, decide lutar por dinheiro – uma desonra – para bancar uma festa e dissipar o antagonismo. O problema é que isso pode colocá-lo em maus lençóis com o senhor feudal da região, que simpatizou com ele e deseja contratá-lo. A simplicidade da encenação sublinha a beleza arrebatadora da história, da natureza (da qual o samurai pode ser considerado um elemento) e do personagem, interpretado de forma soberba por Akira Terao. Ao final, é impossível não ter a sensação de que o mundo pode, sim, ser um lugar feliz. Era isso que Kurosawa desejava transmitir.

Isabela Boscov
Publicado originalmente na revista VEJA no dia 16/05/2001
Republicado sob autorização de Abril Comunicações S.A
© Abril Comunicações S.A., 2001

Zatoichi

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Zatoichi, 2003

O homem cego sentado à beira da estrada parece um alvo fácil para o bando de malfeitores que o aborda. Só dois ou três bandidos, porém, sobreviverão para contar como ele é não o mero massagista que finge ser, e sim um samurai que permanece sem rival no manejo da espada. Também as duas jovens gueixas que descansam numa hospedaria do vilarejo parecem inocentes – mas só até usarem as cordas do seu shamisen, o tradicional alaúde japonês, para estrangular o cliente. E o rapaz que chega com a mulher à mesma aldeia é obviamente um ronin, um samurai sem senhor. O que não está à vista é que ele é também um samurai sem honra, já que se dispõe a trabalhar para a gangue da Yakuza – a máfia japonesa – que está levando os aldeões à ruína com suas extorsões. Tudo em Zatoichi é uma questão de representação. O próprio filme do diretor Takeshi Kitano (que faz ainda o papel do massagista-espadachim) segue esse credo: posa de aventura tirada da ficção popular – no que é muito divertido -, mas acaba se revelando algo bem mais complicado.

Zatoichi é, antes de tudo, uma resposta aos vários filmes recentes que adotam o estilo chinês de filmar artes marciais. Se neles a beleza está na agilidade e nos vôos impossíveis, aqui a poesia está no oposto: uma precisão tão extrema que beira a imobilidade. Nenhum gesto dos samurais pode avançar, no tempo ou no espaço, além do absolutamente necessário. Até as gotas de sangue das vítimas de Zatoichi parecem resistir à gravidade: elas ficam em suspenso por uma fração de segundo além do esperado, densas como tinta. Kitano tem um olhar apuradíssimo para as composições e as cores, e aqui ele soma a esse talento um ouvido soberbo. O mundo do cego Zatoichi é o dos sons, e todas as ações cotidianas, das enxadas dos camponeses entrando na terra à lenha sendo partida pelo machado, viram cadências musicais.

Zatoichi, o samurai cego que defende os oprimidos, foi o protagonista de 26 filmes e 100 episódios de televisão entre 1963 e 1989, sempre interpretado pelo ator Shintaro Katsu. No Japão, não há quem não conheça o personagem. O que Kitano faz com ele, entretanto, não tem nada a ver com as adaptações americanas de séries de TV. O diretor dos excepcionais Hana-Bi e Dolls recria Zatoichi para seus próprios fins: um diálogo em que participam uma visão intensamente nipônica a respeito de valores como honra e justiça, mais a conexão Hollywood-Japão exemplificada por filmes como Os Sete Samurais, e também um tanto de filosofia pós-moderna, em que o filme de samurai não é só um gênero decalcado do passado. Como o faroeste, ele reinventa uma identidade nacional para as gerações presentes, e o faz com tanta força que a ficção passa a integrar a realidade. Se parece estranho que o filme se encerre com um número de sapateado dançado por camponeses e camponesas em trajes típicos do Japão medieval, é aí que está a beleza do que Kitano fez. Contagiados pela dança, os intérpretes despem momentaneamente seus personagens, deixando entrever uma alegria e uma espontaneidade insuspeitas. Talvez, então, o Japão como ele se apresenta ao mundo também não passe de uma encenação, que de tanto ser repetida se tornou quase verdadeira.

Isabela Boscov
Publicado originalmente na revista VEJA no dia 15/12/2004
Republicado sob autorização de Abril Comunicações S.A
© Abril Comunicações S.A., 2004

5 comentários em “Nossa Irmã Mais Nova”

  1. Pai e Filha, de Yasujiro Ozu: uma obra-prima do cinema, belo como uma poesia da vida real. Delicadeza de sentimentos, sem pieguices, sem exageros, tudo na medida certa.

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  2. E “A Partida” não? Acho tão lindo… Mas tenho que confessar minha dificuldade de separar os diretores orientais, os filmes são belíssimos, mas parecem oriundos de um único país. Que vergonha! 😡

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