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Hoje me deu vontade de rever… Colateral

O dia em que Tom Cruise deixou de ser Tom Cruise para ser só um personagem

Às vezes acha que não vale a pena relembrar um filme porque imagina que ele é manjadíssimo e todo mundo já o viu. Mas OMG!, já faz doze anos que este noir esplêndido do diretor Michael Mann foi lançado. De acordo com a lei das probabilidades, portanto, deve estar assim de gente por aí que precisa vê-lo pela primeira vez – ou revê-lo (e ele está disponível em DVD e também no Netflix).

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Em Colateral, Tom Cruise é um assassino de aluguel que entra no táxi de Jamie Foxx e o obriga a rodar com ele por Los Angeles durante toda uma noite, enquanto despacha suas várias encomendas (e “despachar”, no caso, não é figura de linguagem). O taxista é efetivamente um prisioneiro do assassino, mas ambos são profissionais consumados em suas respectivas áreas de atuação, assim como a promotora pública interpretada por Jada Pinkett Smith que foi a primeira passageira de Foxx naquela noite, e que vai se enredar na história. Assim, mais do que uma oposição de personagens, o que se tem aqui é uma curiosa e muito inusitada complementação entre eles: seja qual for o tema principal de seus filmes (Caçador de Assassinos, O Último dos Moicanos, Fogo Contra Fogo, O Informante, Ali, Inimigos Públicos e, bem, ninguém é perfeito, Miami Vice), o assunto verdadeiro de que o diretor Michael Mann trata sempre é a ética profissional – a precisão, o conhecimento, o orgulho do trabalho bem-feito. Condizentemente, Mann é um cineasta soberbo, que sabe tudo (friso: tudo) sobre fazer cinema, uma afirmação que Colateral ratifica além de qualquer dúvida. Em tempo: o restante do elenco também é um arraso. Dê uma olhada na ficha técnica do filme, lá no pé do texto.

Leia a seguir a resenha que publiquei quando o filme foi lançado no cinema.


 O cabelo dele mudou…

…E a carreira de Tom Cruise também não vai ser a mesma depois do intenso Colateral

Colateral parece singularmente despreocupado com o fato de que Tom Cruise encabeça o seu elenco. Na belíssima seqüência introdutória, toda a atenção do filme está centrada em Max (Jamie Foxx), um motorista de táxi que se prepara meticulosamente para iniciar o turno da noite. No meio da confusão ensurdecedora da garagem, Max limpa o carro, coloca uma foto das Ilhas Maldivas no console, fecha as janelas para cortar o barulho e sai para o crepúsculo de Los Angeles como se estivesse em sua própria ilha. Por alguns minutos, ele vai compartilhá-la com sua primeira passageira do dia, uma promotora pública (Jada Pinkett Smith) com quem tem uma discussão sobre a melhor rota – Max conhece todas, e as tem cronometradas – e com quem estabelece uma ligação que vai bem além de um flerte. É uma afinidade, que o diretor Michael Mann explora com deliberação e inspiração. Quando Cruise, de barba e cabelos grisalhos, e vestido de cinza dos pés à cabeça, entra no táxi de Max, todos os alicerces do filme já estão fincados: uma Los Angeles tumultuada e desconectada, e personagens que se definem, se reconhecem e se comunicam através de sua obsessão por trabalho. Todos aqui estão trabalhando madrugada adentro: a promotora, que vai começar um julgamento pela manhã, policiais de homicídio, agentes do FBI, trompetistas de jazz e, claro, Max e o personagem de Cruise, que se apresenta como Vincent.

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Acenando com seis notas de 100 dólares, Vincent recruta o taxista para levá-lo a cinco locais diferentes nas horas seguintes. Na primeira parada, um corpo cai de uma janela no quarto andar sobre o carro de Max, que pergunta, apavorado, a seu passageiro: “Você o matou?”. Vincent explica que não. As balas de seu revólver e a queda é que mataram o sujeito. Vincent tem outras quatro encomendas para despachar e, já que Max se inteirou involuntariamente desse fato, o que o assassino espera dele é o mesmo que ele próprio tem a oferecer: frieza, expediente e capacidade de propor soluções para os empecilhos que possam surgir. Além de respeito profissional, que será a base sobre a qual, novamente, motorista e passageiro irão estabelecer uma ligação e uma afinidade. É esse dado que de imediato tira Colateral da vala comum dos filmes sobre reféns e captores, ou sobre personalidades antagônicas que têm de conviver. Não há oposição aqui. Há apenas visões diversas, e curiosamente complementares, sobre uma crença comum: trabalho é trabalho, e tem de ser bem-feito.

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Em qualquer criação de Michael Mann, da série Miami Vice a filmes como O Informante e Ali, essa ética do trabalho, seja ele qual for, é o que existe de mais importante. É condizente que Mann, de 61 anos, dirija Colateral sem pausas para respirar e transparecendo uma inquietação que não é o que se espera de alguém com sua longa experiência. Mann sabe tudo que há para saber sobre como fazer um filme. Mas essa bagagem, em vez de constituir um peso, é um estímulo a mais para que o diretor se imponha um sem-número de dificuldades lógicas. Um filme quase todo rodado à noite (com uma nova geração de câmera digital, muito mais sensível à cor), no encalço de um táxi que percorre sem parar uma das cidades mais espalhadas do mundo, é antes de tudo uma prova de resistência. A de Mann é comparável à de um maratonista, e quem tem de passar no teste é a platéia, desafiada a acompanhá-lo numa jornada espetacularmente intensa.

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Mann também não é diretor de se rebaixar a fazer suspense com trunfos escondidos na manga. Como nos melhores noir, as cartas de Colateral estão sempre sobre a mesa. A mais alta delas – e, em tese, a mais arriscada – é obviamente Tom Cruise. Os especialistas da indústria de cinema há tempos vêm detectando um declínio na popularidade dos superastros do calibre de Cruise, Tom Hanks e Julia Roberts. Como a produção é cada vez mais voltada para os espectadores jovens, esses ícones já entrados na meia-idade não significam muito para a nova geração – e suas bilheterias recentes confirmam a teoria. Com Colateral, entretanto, Cruise não tenta agradar a quem não quer ser agradado e, com isso, se coloca um lance à frente do jogo. Vincent é um sociopata sem atenuantes, o que é habitualmente considerado uma opção perigosa para um astro. Cruise torna-a ainda mais difícil: em vez de facilitar a condenação moral de Vincent, ele o dota de senso de humor, de uma inteligência pragmática que não há como não admirar e também de uma personalidade atraente. Sempre melhor em papéis que pedem mais exerção física do que emocional, o ator tira todo o proveito dos diálogos curtos e incisivos do roteirista Stuart Beattie. Quando Max pergunta a Vincent há quanto tempo ele está na sua profissão, o matador devolve, sem um traço de ironia: “No setor privado? Há seis anos”. É uma atuação econômica e obstinada, e a primeira em que Cruise deixa de ser Cruise para ser seu personagem. Muito bem orientado por Michael Mann, ele abriu mão inclusive do seu sorriso e da mania de usar o cabelo, aqui cortado à escovinha, como muleta dramática. Ainda que nunca mais se aventure por outro personagem como Vincent, o que Cruise fez em Colateral é o mais inatingível dos feitos para um astro de sua categoria: uma reinvenção.

Isabela Boscov
Publicado originalmente na revista VEJA no dia 25/08/2004
Republicado sob autorização de Abril Comunicações S.A
© Abril Comunicações S.A., 2004

COLATERAL
(Collateral)
Estados Unidos, 2004
Direção: Michael Mann
Com Tom Cruise, Jamie Foxx, Jada Pinkett Smith, Mark Ruffalo, Peter Berg, Bruce McGill, Javier Bardem, Irma P. Hall, Barry Shabaka Henley, Debi Mazaar

4 comentários em “Hoje me deu vontade de rever… Colateral”

  1. Seu texto inteiro é uma delícia, um caso clássico (de livro de estudos de classe) a ser estudado por qualquer profissional de Letras que se preze. E isso independente de Cinema. Meus pais são professores de Filosofia da Literatura (Brasileira e Universal) e eu sei desde cedo o que é exigência em tudo: conteúdo, estrutura, ritmo, fluência, a própria musicalidade da língua portuguesa.

    Eu sempre digo aos meus colegas de profissão: não importam as divergências. Isabela Boscov é o padrão-ouro de nossa arte do ensaio de crítica cinematográfica. Brasileira e Universal. O seu estilo é espetacular, intenso, profundo. Este seu artigo é antológico. Devia ser matéria de estudos em todos os idiomas.

    Meu trecho favorito: “Com Colateral, entretanto, Cruise não tenta agradar a quem não quer ser agradado — e com isso, se coloca um lance à frente do jogo.”

    E querem saber? Isso também é uma lição de ética profissional. E pessoal. Devemos todos tomar essa atitude como modelo. É o que eu sempre fiz.

    Dá pra sentir quando uma pessoa faz seu trabalho por prazer — e pelo rigor profissional elevando a qualidade ao máximo. Até mesmo na arte de comentar. Já tive um comentário meu postado em pedaços num cyber-jornal, como um libelo ideológico; estava só metendo o pau num jornalista político de uma certa revista da grande imprensa que faltou gravemente com a ética jornalística; mas que agradou tanto a editoria do site que acabou sendo remontado e publicado como um artigo do mesmo cyber-jornal. E arrancou dezenas de comentários entusiasmados! Fora isso, trabalhei como articulista na mesma publicação.

    Eu sou o melhor no que faço. Você é a melhor no que faz. Não importa o que digam os invejosos: se para eles nós abusamos dos adjetivos, se nos detemos muito nas descrições, se alongamos demais as sentenças. Problema deles, que são pessoas tão limitadas que não sabem o que é a paixão pelo ofício. Ou se a labuta deles é tão desagradável. Ou ambos.

    Claro que nem sempre se sente prazer no trabalho (em língua grega e latina, a palavra tem origem num primitivo instrumento de tortura (“sofrerás trabalhos” dizia Homero no diálogo da deusa Atena a Ulisses na Odisséia); já em inglês, “my works” significa “minhas obras”). Afinal, para cada filme obra-prima, é preciso assistir outros 20 que são verdadeiras torturas. São os ossos do ofício. Mas quando se trata de ESCREVER — ah, aí a coisa muda de figura. Escrever é a arte mais solitária, pessoal e intransferível. Se é ficção, somos deuses. É todo um universo que criamos em nossas mentes. Mudamos a realidade ao nosso bel-prazer. Tudo pela arte. Jorge Luis Borges já escreveu magnificamente sobre esse fato.

    “Miami Vice” envolve tudo o que Michael Mann criou de melhor (a série de TV revolucionária que uniu arte e pop num só corpo, belo e narcisista) e de pior (o filme com elenco e roteiro todo equivocado, que pena…) mas por isso mesmo é um cartão de visitas perfeito. São os altos e baixos dessa corrida de vida e morte. Borges escrevia mesmo cego. Mann é outro gênio incompreendido como mestre das imagens. Nós somos felizardos por apreciar ambos.

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  2. Isabela tu já viu The Wolfpack?
    Outra coisa, será que seria possível você escrever aqui sobre Veludo Azul, Coração Selvagem e Cidade dos Sonhos, por favor!!!!!
    Vou ficar eternamente agradecido pois adoro suas críticas e adoro o Lynch!!!
    Beijos novamente!!!!

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  3. Michael Mann é somente um dos tantos ótimos diretores que nunca tiveram o devido reconhecimento da indústria, espero que isso mude logo, pois Mann ta muito longe se ser somente um diretor de filme de ação e mesmo que fosse é filme de ação feito para adulto, coisa rara hoje em dia, principalmente em Hollywood.
    Beijos Isabela!!!

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  4. Parabéns pelo comentário, Isabela! Também gosto muito deste filme. O Tom Cruise tá muito bem, assim como o Jamie Foxx. Gosto também da participação do Javier Bardem. A cena de perseguição no final do filme é muito tensa, e com uma ótima trilha de fundo. A cena noturna em que o taxista e a promotora estão se conhecendo me chama a atenção pela bela música de fundo – quando o táxi é mostrado externamente, através da tomada aérea de câmera -, e o papo descontraído dos personagens, que destoa do restante do filme. Michael Mann, através de sua maneira peculiar de filmar, nos faz sentir como se fôssemos passageiros daquele táxi.

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