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Tudo a ver: As Loucuras de Dick e Jane

Jim Carrey faz comédia rasgada com a tragédia de perder o emprego

Dei três pulos de alegria quando vi que As Loucuras de Dick e Jane entrou no acervo do Netflix: sou admiradora convicta e de longa data de Jim Carrey, e este filme de 2005, com roteiro de Judd Apatow e direção de Dean Parisot (veterano de ótimas séries como Justified, The Good Wife e Monk) é um dos melhores trabalhos de Carrey: adoro o recorte real/surreal da história do executivo que perde o emprego e cai junto com a mulher e o filho pequeno na dureza mais dura que se pode imaginar. Tem cenas antológicas, como a família tomando banho nos sprinklers do vizinho e correndo para tirar o sabão antes que eles desliguem, ou o desespero do garoto quando fica sem suas telenovelas mexicanas da Telemundo. É hilariante e é trágico; tanta gente que eu conheço está perdendo o emprego e não consegue encontrar outro que, daqui a pouco, vai rolar uma onda de assaltos a lojas de conveniência – o último recurso de Dick, Jane e os outros demitidos da corporação quebrada em que Dick trabalhava. Isso se as lojas de conveniência também já não tiverem falido.

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E aproveito para comemorar que Carrey, que andava muito sumido, volta em duas versões radicalmente diferentes este ano: fazendo drama em True Crimes, que é dirigido pelo grego Alexandros Avranas, de Miss Violence (e quem viu esse filme fortíssimo sabe que dá para esperar algo muito lúgubre), e comédia (presumo) em The Bad Batch, que tem também Keanu Reeves e Jason Momoa e, ao que parece, é uma história de amor passada em uma comunidade de canibais no Texas (!!!!).

Leia aqui a resenha que publiquei quando As Locuras de Dick e Jane foi lançado no cinema:


Ele está com raiva

Jim Carrey dá sua versão hilariante e ácida de um escândalo corporativo em As Loucuras de Dick e Jane

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Enquanto Dick Harper (Jim Carrey) diz na televisão que a Globodyne é uma empresa sólida e suas contas, transparentes, um gráfico mostra, ao vivo, as ações da corporação despencando até o fundo do poço. Promovido a vice-presidente de comunicações especialmente para fazer papel de bobo, Dick encontra, na volta ao escritório, as picadoras de papel a todo o vapor – e, em casa, sua mulher, Jane (Téa Leoni), feliz por ter se demitido do emprego e começado a cavar a piscina. O casal está, é claro, condenado à pindaíba mais indigna, e metade da graça de As Loucuras de Dick e Jane está na maneira insidiosa como a pobreza vai se instalando, da decisão incômoda de parar as obras da piscina ao corte de luz e, numa cena antológica, o banho no sprinkler do vizinho (nem gramado mais os Harper têm). Refilmagem de uma comédia estrelada por George Segal e Jane Fonda em 1977, essa nova versão tem o mesmo senso de oportunidade do original: em lugar da recessão e da quebradeira do início dos anos 70, tem-se aqui os escândalos ocasionados pela “contabilidade criativa” de grandes corporações como a Enron e a WorldCom (que, nos créditos finais, ganham agradecimentos irônicos). A outra metade da graça está na raiva com que o filme, produzido por Carrey, aborda o que é, afinal, uma tragédia: a ruína da confiança nas fundações da economia e, na sua esteira, milhares de desempregados privados até dos seus direitos mínimos de rescisão contratual.

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Dick e Jane não tem nenhum traço de santimônia. Ao contrário: o filme parte quase de cara para uma situação surreal, em que, derrotados em todas as tentativas de se reerguer, os Harper progridem de ladrões de loja de conveniência para assaltantes de banco – como vários outros ex-funcionários da Globodyne, que se descobre serem os protagonistas de uma bizarra onda de crimes. Escrito pelo Judd Apatow de O Virgem de 40 Anos com inspiração admirável, Dick e Jane é rápido, enxuto, incisivo e não raro hilariante. Marca, além disso, um momento singular na carreira de Carrey. Pela primeira vez, ele consegue aqui calibrar sua tão desejada fusão de humor com interpretação fundada no drama. E, pela primeira vez também, abre de boa vontade espaço para o restante do elenco, secundado por Téa Leoni, uma comédienne de primeira linha, e por Alec Baldwin, em mais uma ótima variação do tubarão corporativo. Uma comédia estrelada por um nome do calibre de Carrey e passada no mundo real é uma ave rara no cinema americano – espera-se que não seja a última de sua espécie.

Isabela Boscov
Publicado originalmente na revista VEJA no dia 18/01/2006
Republicado sob autorização de Abril Comunicações S.A
© Abril Comunicações S.A., 2006

AS LOUCURAS DE DICK E JANE
(Fun with Dick and Jane)
Estados Unidos, 2005
Direção: Dean Parisot
Com Jim Carrey, Téa Leoni, Alec Baldwin, Richard Jenkins, Angie Harmon, Aaron Michael Drozin, Gloria Garauya

4 comentários em “Tudo a ver: As Loucuras de Dick e Jane”

  1. Você poderia quando puder destrinchar sua opinião sobre o filme “O Show de Truman” ou até mesmo analisar a carreira do Carrey em filmes dramáticos, que é curiosamente onde ele se sobressai. Assim como você eu também sou um grande fã do trabalho dele. Para falar a verdade gosto muito de atores tipicamente de comédia em papéis dramáticos como ele, o Robin Willians, e até mesmo o Will Ferrell (no “Mais estranho que a ficção”).

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  2. Ele cantando “I Believe I Can Fly” no elevador é antológico. Foi ali que fiquei fã da música e cantava também no elevador quando ficava sozinho. Mas são águas passadas… hehehe

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