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Filho de Saul

Por que é preciso continuar fazendo filmes sobre o Holocausto

Esqueceram de acertar o foco, pensa o espectador, enquanto se esforça para distinguir o que está acontecendo na tela: o verde do mato no fundo, pessoas que estão chegando, o ruído aumentando. E então, abruptamente, o rosto de uma figura que vem caminhando em direção à câmera entra em foco – e não mais sairá dele. Pelos 107 minutos seguintes, a lente do diretor László Nemes permanecerá colada ao rosto de Saul Auslander, judeu húngaro de meia-idade recrutado como Sonderkommando no campo polonês de Auschwitz-Birkenau – a maior de todas as indústrias de extermínio montadas pela Alemanha nazista.

Nesse longo e extraordinário plano-sequência que abre Filho de Saul, e que é todo ele uma engrenagem de organização e caos simultâneos, começa-se a formar alguma ideia de quem é Saul, e de qual seu trabalho ali. Nos cantos da tela ocupada pelo rosto quase pétreo do ator (na verdade, não-ator, e sim poeta e professor) Géza Röhrig, percebem-se de relance alguns elementos da balbúrdia que o cerca – pessoas sendo conduzidas e tropeçando ou amontoando-se, gritos de susto ou de ordens que vêm de todos os lados, sons que mal e mal se compreendem mas que parecem golpes, estampidos, latidos. Logo a multidão que Saul está ajudando a arrebanhar estará tirando suas roupas numa ante-sala, enquanto outros homens como Saul, com um “X” vermelho pintado nas costas, dirigem os que já se despiram para dentro de um câmara – cuja porta de aço será então trancada, e na qual Saul e os outros vão se encostar para que ela não se abra à medida que a convulsão lá dentro aumenta até um volume horripilante. Quando o silêncio sobrevem, os homens voltam apressados às suas tarefas: separar as roupas, entregar as jóias aos guardas, lavar o sangue das paredes e do chão da câmara, arrastar os cadáveres, transportá-los aos fornos crematórios, despejar as montanhas de cinzas num rio.

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E então algo para por um instante essa linha de montagem: ao arrastar o cadáver de um menino, um prisioneiro se dá conta de que ele ainda está vivo. Os guardas são avisados; o menino é imediatamente executado, e ordena-se que ele seja levado para a autópsia – como resistiu ao gás, ele é uma curiosidade médica. Nessa breve parada, porém, Saul inadvertidamente saiu de sua blindagem e olhou o garoto ainda respirando. Salvar o corpo do menino do crematório e dar a ele um funeral vira imediatamente sua obsessão – uma necessidade incontornável, na verdade.

László Nemes, de 38 anos, é um cineasta estreante – e é um prodígio. Filho de Saul se manterá no mesmo nível de agitação e intensidade dessa sequência inicial durante todo o tempo, e vai propor um novo ângulo e todo um novo vocabulário com que tratar do Holocausto: ser um Sonderkommando, ou um prisioneiro judeu escolhido para tocar as unidades “operativas” de um campo de extermínio, significava ser selecionado ao mesmo tempo para a morte instantânea – a da alma – e uma vida prolongada durante a qual ter de suportar essa morte. É sobre esse impasse íntimo que Filho de Saul se desenrola: sempre seguindo Saul, fixado em seu rosto, enquanto ele tenta sequestrar o corpo para enterrá-lo e procura um rabino que possa rezar a oração dos mortos sobre ele.

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Os Sonder em geral eram empregados durante três meses antes de serem também eles executados; nesse tempo, passavam todas as horas do dia levando outros judeus para a morte e dispondo de seus restos mortais. Como necessitavam estar aptos para o trabalho, usufruíam alguns privilégios: alojamento à parte (para que não divulgassem o segredo do qual faziam parte), cigarros, às vezes bebida, rações menos magras. Por causa disso – do trabalho que realizavam e dos “privilégios” –, os Sonder foram frequentemente considerados colaboradores, ou “meio vítimas, meio carrascos”, como disse o escritor Primo Levi, ele próprio sobrevivente de Auschwitz. Trata-se de um engano terrível: nem um prisioneiro selecionado como Sonder sabia o que ia fazer, nem podia recusar a seleção. Poucos sobreviveram à libertação dos campos pelos Aliados, mas, nos relatos que foi possível reunir, encontra-se uma constante: a de que os Sonder bloqueavam de imediato toda e qualquer emoção – exceto a culpa.

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Não é só por causa da sua quantidade que os filmes sobre o Holocausto compõem um gênero cinematográfico; é porque eles abarcam um sem-número de procedências, de linguagens e de pontos de vista, e porque continuam sendo feitos e continuam também avançando sobre as suas próprias convenções. Existe uma visão cínica de que o cinema explora uma certa “indústria do Holocausto”. Ou seja, de que se vale do apelo emocional do tema para atrair atenção e recolher prêmios. Eu, pessoalmente, rejeito essa ideia: nem todo filme sobre o Holocausto é um bom filme, claro – mas é surpreendente, sim, a quantidade de bons filmes, ou mesmo filmes extraordinários, feitos sobre o Holocausto. Passados setenta anos do fim da II Guerra, o genocídio industrial de judeus, o complexo fabril montado em torno dele, a adesão em larga escala de militares e burocratas e a rotina meticulosamente programada de sofrimento dos que não iam direto para as câmaras de gás são coisas tão incompreensíveis hoje quanto o foram para os primeiros russos e americanos a topar com os campos de extermínio. O Holocausto, na verdade, é um enigma que só se aprofunda – e continuar a investigá-lo é trabalho não só da história e da filosofia como também do cinema e da literatura.

Nesse sentido, Filho de Saul é um marco. Se a câmara de gás e o crematório são o centro desse enigma, os Sonderkommando são os fantasmas que o rodeiam. Em outubro de 1944, quando o filme se passa (é possível precisar a data porque a peregrinação de Saul pelo campo coincide com uma rebelião dos Sonder que de fato aconteceu), Auschwitz-Birkenau estava operando no máximo de sua capacidade: poucos meses antes, 400 mil judeus húngaros haviam sido deportados para lá; os Aliados estavam cada vez mais próximos e a ordem era “terminar o trabalho” antes que eles pudessem resgatar prisioneiros; e as execuções e incinerações, portanto, iam em ritmo incessante. O diretor László Nemes descarta esse tipo de esclarecimento histórico que estou dando aqui em troca de algo igualmente válido, e fortíssimo: uma tentativa de recriar, para a plateia, o bloqueio emocional de seu protagonista, e o ataque sensorial que sobrevem quando esse bloqueio se desfaz. É uma experiência intolerável. E está-se falando, aqui, apenas desses 107 minutos na sala de cinema.


Trailer


FILHO DE SAUL
(Saul Fia)
Hungria, 2015
Direção: László Nemes
Com Géza Röhrig, Levente Molnár, Sándor Zsótér, Jerzy Walczak, Christian Harting, Urs Rechn
Distribuição: Sony Pictures

6 comentários em “Filho de Saul”

  1. Isabela, muito interessante ler sua matéria. Pois eu faço parte da audiência que coaduna com a ideia “cínica” acerca de uma certa exploração da “indústria do holocausto”. No entanto, isso não invalida e nem relativiza, é claro, a dimensão dos eventos ocorridos no passado. De fato, como você pondera, os filmes sobre essa temática têm, em geral, uma qualidade técnica incrível, roteiro, música, fotografia, etc. ” O caminho de ida”, último que vi do gênero, é um grande filme por exemplo. Há tempos, em uma de uma de suas resenhas você disse algo assim: “ Foram 6 milhões de judeus, mortos, portanto, são possíveis 6 milhões de histórias (A chave de Sarah) ”.
    Imagino que, por terem sido os vitimados dessa atrocidade um povo tradicionalmente ligado ao conhecimento, a cultura e a palavra isso tenha como consequência uma produção cinematográfica mais prolifica.
    O que me angustia, no entanto, não é o “excesso” desse tipo de filme quando a abordagem é falar sobre o mal, mas ausência de outros panos de fundo. A humanidade é assombrada pelo mal e os genocídios ocorreram e ocorrem… quem irá contar, e contar bem, a história daqueles que ocorreram em outros lugares. A maldade é uma das facetas da natureza humana e deve, ou deveria, ser contada por mais vozes…

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  2. Tem 4 meses que eu estou desesperado pra ver esse filme e não consigo. Ainda não há previsão de estreia na Colômbia e nem um torrent na net pra aplacar a curiosidade.

    Sou fascinado pelo tema, possivelmente porque, além dos motivos que você citou, o holocausto – em termos literários – é um ação narrativa tão subversiva e aristotelicamente dramática que é impossível um escritor não se sentir interessado.

    E quando se trata dos Kappors então há mil ângulos para se estudar essa situação.

    Já fui no campo de Dachau e em abril pretendo ir em Auschwitz. Muita gente me fala que isso é turismo mórbido, talvez até seja, mas é importante fazê-lo porque as pessoas se esquecem muito rápido de tudo. Meu vizinho russo que meio que adotou a Alemanha (mas em compensação segue odiando os EUA), um dia desses veio com uma história de que exageraram, que o Holocausto não foi isso tudo. Quase bati nele. Rsrsrs,

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    1. Uzi, recomendo vivamemente como leitura preliminar Zone of Interest, do Martin Amis. A sua visita ao Buna-Werke vai ganhar outro sentido. Pior, mas mais próximo do que você imaginaria.

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      1. Ah, vou procurar pra ler. Acho que o último livro bom sobre o holocausto que eu li foi “É Isto um Homem?”, porque ultimamente o que tem aparecido de bomba literária sobre o holocausto não tá no gibi.

        Mas você indicando eu confio. Num vídeo antigo, lá por 2011, você sugeriu o longa “O Silêncio do Lago” (holandês), rodei a internet pra achar, assisti e até hoje esse filme não me sai da cabeça. Inclusive bem que você poderia colocá-lo no garimpo da semana.

        Ou então algum filme da Agnieszka Holland. Acho ela fantástica quando o assunto é judeu. Na Escuridão (se Saul Fia for mais claustrofóbico, ave-maria…), Colheita Amarga (esse é pra perder a fé na humanidade)… Ia curtir vê-los no garimpo.
        Abraços.

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