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Cinco Graças

O pavor de ser uma adolescente comum engolida pela islamização.

Último dia de aula, início das férias de verão, uma tarde de sol: em vez de tomar o ônibus, as cinco irmãs resolvem voltar a pé para casa. Vão fazendo o caminho pelo mato e pela praia, brincando com um punhado de meninos da escola. O escândalo chega antes delas; a avó já está à espera, na porta de casa, para surrá-las pela “indecência”. O tio decide que agora elas viverão trancadas – mas antes leva-as todas ao médico para comprovar (por escrito, com atestado) que elas continuam com a virgindade intacta apesar de, como diz a vizinhança, terem ficado “se esfregando” nos garotos.

Não faltam filmes poderosos sobre o pavor que é ser mulher em um país regido pela lei religiosa islâmica – como O Círculo, de Jafar Panahi, ou A Separação, de Asghar Farhadi. Mas Cinco Graças, o filme de estreia de Deniz Gamze Ergüvena, diretora nascida na Turquia e criada na França, trata de uma faceta diferente desse terror: o de ter nascido em um país moderno que repentinamente dá uma guinada rumo à islamização. As irmãs Sonay, Selma, Ece, Nur e Lale moram num vilarejo no norte da Turquia, mas usam jeans, shortinho e cabelão solto, ouvem música, são meio rebeldes e meio reclamonas, como qualquer adolescente. De um dia para o outro, por causa da fofoca das vizinhas que agora usam véu cobrindo os cabelos, as cinco estão sob vigilância constante, grades estão sendo colocadas em todas as portas e janelas, e a casa virou “uma fábrica de esposas”, nas palavras de Lale – a irmã mais nova e mais da pá virada, interpretada pela ótima Günes Sansoy. Lale é a personagem que avaliza a maneira naturalista como Deniz filma a história, e o seu estilo meio episódico: por ser tão jovem, ela é a menos ameaçada pela perspectiva de um casamento com um estranho, mas é a mais inconformada por princípio com a ideia de que lhe roubem seu futuro.

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Sonay e Selma, as mais velhas, logo têm casamentos arranjados. (É profundamente humilhante, além de surreal, a cena em que Selma é levada ao pronto-socorro pela família do marido porque não há sinal de sangue no lençol depois da noite de núpcias, e eles exigem do médico de plantão que verifique se a garota era mesmo virgem.) Sentindo o cerco fechar-se em torno de Ece, a irmã do meio, a caçula Lale começa a buscar uma rota de fuga. Mas, ainda que ela encontre uma saída, algo essencial já se perdeu de forma irrecuperável: se as regras da moralidade religiosa começam a ser aceitas no lugar das leis institucionais e é permitido a um tio tirar as sobrinhas da escola para passá-las adiante em casamento antes de elas terem concluído sequer o ensino médio, nenhuma garota turca estará mais a salvo – hoje isso acontece em um vilarejo, amanhã em Istambul, logo mais em qualquer lugar, ou em todo lugar. Já se cruzou, enfim, uma linha, e está aberto o caminho para que as mulheres não mais sejam donas de si mesmas, e passem a ser propriedade masculina. Um dos dados mais sinistros de Cinco Graças, contudo, é a maneira como são as próprias mulheres da família e do vilarejo que se encarregam de censurar, vigiar e cercas as irmãs: o patriarcalismo só pode se sustentar com colaboração feminina ativa. Não por acaso, a primeira providência das carcereiras das irmãs é tentar quebrar a cumplicidade entre elas.

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É nesse aspecto, aliás, que Cinco Graças difere substancialmente de As Virgens Suicidas, que Sofia Coppola adaptou do livro de Jeffrey Eugenides em 1999, quando também ela era uma diretora estreante. As cinco irmãs lindas, loiras e inatingíveis de As Virgens Suicidas também são guardadas em casa por um pai e uma mãe histéricos, que enxergam nelas uma tentação pecaminosa. Mas elas são uma triste e estranha exceção; em As Cinco Graças, sugere-se que uma regra começa a ser estabelecida.


Trailer


CINCO GRAÇAS
(Mustang)
Turquia/França/Alemanha/Qatar, 2015
Direção: Deniz Gamze Ergüven
Com Günes Sansoy, Ilayda Akdogan, Tugba Sunguroglu, Elit Iscan, Doga Zeynep Doguslu, Nihal G. Koldas, Ayberk Pekcan, Burak Yigit
Distribuição: Pandora

4 comentários em “Cinco Graças”

  1. Fazer a critica deste filme foi uma ótima decisão.
    Sua fala foi correta, está se dirigindo à nós de maneira coloquial, não está supondo nem informando nada aqui sobre o islamismo e suas regras; tanto que subtende-se um ‘se’ no começo da frase, que não foi percebido pelas pessoas acima.
    Um filme trágico e realista; por isso, impressiona.

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  2. Fazer a critica deste filme foi uma ótima decisão. Sua fala foi correta, você está falando de maneira coloquial, não está supondo nem informando nada aqui sobre o islamismo e suas regras; tanto que subtende-se um ‘se’ no começo da frase, que não foi percebido pelas pessoas acima.
    Um filme trágico e realista; por isso, impressiona.

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  3. Acho que temos que tomar cuidado quando não temos conhecimento de muita coisa. Ao ler sua critica, percebe-se que vc não sabe nada sobre a Turquia. Frases do tipo: “(…)um país moderno repentinamente dá uma guinada rumo à islamização.” Como assim? A Turquia é o antigo Império Otomano, assumiu o islã a séculos. É um país laico e moderno sim, mas sempre foi de cultura islâmica!! Ou ” (..)hoje isso acontece em um vilarejo, amanhã em Istambul, logo mais em qualquer lugar, ou em todo lugar.” Mais uma frase que mostra a total falta de conhecimento sobre o país e a intensão da diretora, que justamente não esta criticando a “nova onda islã”, isso não surgiu agora, ela critica é a tradição enraizada, que está em constante luta com a modernidade que é contra tudo isso! Por favor, tome cuidado quando for expor sua opinião, pq quando é falta de conhecimento pode vir como preconceito.

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  4. Isabela, acho que tem erros enormes de conhecimento geografico e cultural na sua critica. A Turquia sempre foi um país de cultura islamica, é laico, mas a cultura é islamica. É um país moderno sim, mas sempre foi mulçumano, suas frases de “um país moderno repentinamente dá uma guinada rumo à islamização.” Ou ” hoje isso acontece em um vilarejo, amanhã em Istambul, logo mais em qualquer lugar, ou em todo lugar.” Mostram sua falta de conhecimento do país, a diretora justamente não esta criticando a “nova onda islã”, isso não surgiu agora, ela critica é a tradição enraizada!

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