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Pecados Antigos, Longas Sombras

Um espanhol que pega o touro à unha.

Vistos de cima, os alagados da foz do Rio Guadalquivir, na Andaluzía, parecem às vezes o sistema circulatório humano, às vezes um cérebro, outras vezes um conjunto de órgãos: não são uma paisagem terrestre, mas uma paisagem interior – e é com ela que o diretor Alberto Rodríguez avisa que seus personagens, dois policiais de Madri, estão prestes a entrar em outro mundo.

É 1980 e faz cinco anos que o infame ditador Francisco Franco morreu, depois de quase quatro décadas asfixiando os espanhóis. Em Madri e as outras grandes cidades espanholas, todo mundo já está soltando a franga, em plena “Movida”; na Espanha provinciana das aldeias, lugarejos e cidadezinhas, a história é outra: o moralismo e o patriarcalismo franquistas, os hábitos da submissão e do silêncio, continuam bem vivos.

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Pedro (Raúl Arévalo), um detetive jovem e impaciente que foi mandado a esse confim por ter sido verbal demais acerca das suas convicções democráticas, e Juan (Javier Gutiérrez), um detetive mais velho e aparentemente mais acomodado, que não se importa de estar ali, foram encarregados de investigar o desaparecimento de duas irmãs adolescentes. Ninguém na cidadezinha de Villafranco está muito disposto a colaborar com a investigação: as meninas tinham fama de serem meio “fáceis” e viviam falando em ir embora dali – talvez tenham apenas fugido, é como todo mundo encerra a conversa.

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Quando os corpos das duas aparecem numa vala, porém, com marcas horrendas de tortura e abuso sexual, a coisa muda de figura. Ao mesmo tempo em que a investigação se torna mais séria, a resistência a ela aumenta proporcionalmente. Outras pistas aparecem: é provável que as irmãs não sejam as primeiras vítimas da pessoa que as assassinou. Se nesse sentido, o de identificar o assassino, Pedro e Juan para todos os efeitos estão do mesmo lado, em outros aspectos também as coisas entre eles se tornam mais complicadas. É possível que Juan não seja, afinal, um acomodado; há sugestões de que ele tem um passado sinistro, e talvez ele esteja ali por uma razão bem específica.

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Tenso, cheio de atmosfera, muito bem escrito e maravilhosamente bem filmado, com interpretações impecáveis, Pecados Antigos é cinema espanhol por excelência: carregado e barroco, mas também duro, confrontativo e quase rude na sua franqueza. O último ato, em que aquela paisagem do início serve de ambiente a uma perseguição frenética, é um espetáculo – agora os alagados não mais são vistos de cima, mas sim de dentro. Pedro e Juan descobriram que o mundo que eles julgavam ser estranho a eles é, sim, o mundo em que eles vivem. Eles só não sabiam disso.


Trailer


PECADOS ANTIGOS, LONGAS SOMBRAS
(La Isla Mínima)
Espanha, 2014
Direção: Alberto Rodríguez
Com Javier Gutiérrez, Raúl Arévalo, Jesús Ortiz, Salva Reina, Jesús Carroza, María Varod, Perico Cervantes
Distribuição: Pandora

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