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Tudo que Aprendemos Juntos

Lázaro Ramos e Sérgio Machado: uma parceria afinadíssima.

Admito que eu estava com um pé atrás: um filme baseado em uma peça de Antonio Ermírio de Moraes (que, como dramaturgo, foi sempre mais conhecido como empresário), sobre um violinista que se descobre ao ir dar aulas de música numa favela – seu último recurso após ter falhado em um concurso para a Osesp.

Achei que poderia ter cara daquelas matérias “edificantes” que às vezes fecham o Jornal Nacional. Mas Sérgio Machado escreveu o roteiro do maravilhoso Madame Satã, e depois ele e Lázaro Ramos trabalharam juntos de novo em Cidade Baixa, de que eu gosto tanto…

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Que bela surpresa: Tudo que Aprendemos Juntos mandou meu ceticismo passear já nos primeiros minutos. No papel de Laerte, que foi prodígio do violino em menino mas não é capaz de realizar a antiga promessa na idade adulta, Lázaro explora uma das suas qualidades mais especiais como ator: ele age de forma desagradável mas deixa vislumbrar algo, por trás da armadura, que faz com que o espectador se sinta compelido a procurar motivos para tomar seu partido. Laerte é antissocial e brusco, mente para os pais e desconta sua frustração nos outros, não disfarça para ninguém – nem para a diretora da escola (Sandra Corveloni) nem para os alunos – que está achando o fim da picada trabalhar com eles, faz de cara de horror quando ouve a meninada tocar.

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E, no entanto, é exatamente por tudo isso que eu desde o início me coloquei ao lado dele: um sujeito como Laerte, que é exigente consigo mesmo mas acha que está sabotando o próprio talento e escorregando para a insignificância, não poderia ter compreensão para dar e vender. E é por isso que os adolescentes da terrivelmente despreparada classe de música testam a paciência dele de todas as formas que sabem (e como sabem!), mas colocam-se também eles ao lado de Laerte: sinceridade vale mil vezes mais do que piedade, e quem exige dos outros não está sendo duro – está demonstrando respeito e dando um voto de confiança. Um ano depois, lá está Laerte, ainda esculhambando seus alunos sem dó. Eles aceitaram que é do jogo ser esculhambado (e melhoraram muito); e Laerte percebeu que, embora nem todos os adolescentes que ensina tem o dom de Samuel (Kaique Jesus), que nasceu para o violino, fazer parte da orquestra é, para eles, uma validação tão significativa quanto seria para ele próprio fazer parte de um conjunto como a Osesp. Claro que algumas dessas pessoas vão se perder pelo caminho, às vezes de forma trágica. Mas é muito bem construído o drama, e muito bem sublinhado pela trilha sonora e pela fotografia do craque (e amigo de longa data) Marcelo Durst.

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Tudo que Aprendemos Juntos é uma ficcionalização do trabalho do Instituto Baccarelli com os adolescentes da favela paulistana de Heliopólis – uma das mais bem-sucedidas iniciativas do mundo junto a jovens em situação de risco. O maestro Silvio Baccarelli fundou o instituto em 1996, consternado com um incêndio catastrófico que devastou a favela. Revelou vários músicos desde então e formou, entre outros conjuntos, a muito competente Orquestra Sinfônica de Heliopólis. Mas talvez a parcela fundamental do seu trabalho seja a menos visível: não importa se o adolescente vai ou não ser um instrumentista de talento. Importa que se dê a ele o respeito de ensinar verdadeiramente, e exigir que ele retribua de fato o trabalho alheio com o seu próprio; ensinar a aprender, a colaborar e a se autodisciplinar é que é o ganho real.

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O baiano Sérgio Machado (que é filho de uma instrumentista de orquestra), em colaboração com a preparadora de elenco Fátima Toledo, foi procurar os jovens atores que fazem os alunos de Laerte em programas sociais de música e de interpretação, e encontrou ouro: Kaique Jesus (que já trabalhara em Linha de Passe, de Walter Salles), como Samuel, Elzio Vieira como VR, e todos os outros meninos e meninas da classe de Laerte são excelentes. Por que não cito os nomes deles aqui? Porque hoje, ao escrever este post, não os encontrei em lugar nenhum. Não os anotei enquanto rolavam os créditos finais porque não se imagina que essa é uma providência necessária; a ideia é que em algum lugar, no material de divulgação ou nas informações fornecidas ao Imdb, vai-se encontrar a ficha completa. Não foi o que aconteceu. Entendo que se queira ressaltar a participação de gente conhecida como Criolo, Rappin’ Hood, Thogun Teixeira e a regente da Osesp, Marin Alsop. Mas vamos convir que, primeiro, esse pessoal já está com a vida feita, e, segundo e mais importante, não é deles que o filme trata – é dessa garotada que acabou ficando anônima.


Trailer


TUDO QUE APRENDEMOS JUNTOS
Brasil, 2015
Direção: Sérgio Machado
Com Lázaro Ramos, Kaique Jesus, Elzio Vieira, Sandra Corveloni & muitos outros meninos e meninas excelentes
Distribuição: Fox

2 comentários em “Tudo que Aprendemos Juntos”

  1. É cabível um paralelo do filme com Whiplash? Pela crítica, me pareceu que Lázaro Ramos interpreta, ao mesmo tempo o aluno genial e o professor carrasco.
    .
    No mais, realmente lamentável terem deixado os garotos de fora da divulgação.

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