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JESSICA JONES (PARTE 2)

Eu me rendo.

Quando fiz o primeiro post sobre Jessica Jones, há uma semana, eu havia chegado só até o episódio 5 – em geral, o suficiente para ter uma ideia honesta do rumo que uma série está tomando. Mas aí veio o episódio 6, David Tennant entrou de verdade na história como o controlador de mentes Kilgrave, e o negócio todo mudou completamente. E não é que mudou para melhor: mudou para muito melhor.

Hoje em dia não é qualquer showrunner que tem a valentia de deixar uma série ir estabelecendo seu contexto, episódio a episódio, antes de puxar de sopetão todas as tramas que foram sendo espalhadas por ali e fazê-las correr juntas para o mesmo nó (outra série que fez isso muito bem, embora de forma totalmente diversa, é Show Me a Hero, da qual devo falar dentro de alguns dias aqui no blog).

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Pois o pessoal de Jessica Jones resolveu bancar essa aposta. Perdeu pelo meio do caminho alguns espectadores menos pacientes, mas recompensou os que ficaram. O tema da série veio à tona com potência multiplicada: não apenas stress pós-traumático, como eu sugeri naquele primeiro post, mas um tipo particularmente complicado de SPT – o sofrimento das vítimas de abuso psicológico e/ou sexual, que vem sobrepesado por sentimentos de culpa, vergonha, inutilidade, fraqueza, autodepreciação e dúvidas terríveis sobre o que, na própria personalidade, levou o abusador a escolhê-las para praticar o abuso. É um caldo rico esse, já que todos os personagens centrais passaram por essa experiência, mas as circunstâncias e consequências do abuso foram distintas em cada caso.

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E, claro, David Tennant barbariza. Digo que ele é o melhor vilão de qualquer filme ou série de super-herói – desse jeito mesmo, “O” melhor – porque nunca antes eu havia acreditado tão completamente em um antagonista. Kilgrave é petulante, vaidoso, mesquinho, cruel e insaciável (além de extremamente espirituoso) e é 100% Homo Sapiens: dê a qualquer pessoa que você conhece esse poder, o de obrigar os outros a fazer tudo que ela quer, e veja onde ela vai chegar. É óbvio que Kilgrave cobiça Jessica mais do que qualquer outra coisa no mundo: ela é a única que conseguiu dizer não a ele, e ele achou eletrizantes a sensação da rejeição e a hipótese da conquista.

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Kilgrave, na série, nasceu em Manchester, na Inglaterra, mas David Tennant é na verdade escocês e se chama David McDonald; por parte de mãe, ele é McLeod. Quem conhece um pouquinho da história dos clãs das highlands escocesas sabe que ser McDonald e McLeod não é pouca coisa – é ser descendente de uns guerreiros desvairados que nunca perdiam a chance de entrar numa briga (e quanto mais feia ela fosse, melhor). David Tennant crava os dentes em Kilgrave com uma ferocidade e uma alegria que fariam orgulho aos seus antepassados – e, ao mesmo tempo, ele traça um cordão de segurança em torno da interpretação tão delicada de Krysten Ritter, e a protege como um cavalheiro. É, talvez, a melhor dinâmica entre protagonistas desde aquela entre Bryan Cranston e Aaron Paul em Breaking Bad: não é só fruto de boa química, ou bom roteiro, ou boa direção. São dois atores estudando-se um ao outro para expor e valorizar o que o parceiro tem de melhor.

Dito isso, Jessica Jones é, sim, irregular ainda. Mas só por essa dança entre Krysten Ritter e David Tennant e os formidáveis episódios 7, 8 e 9 a série vale integralmente o investimento do espectador.

Uma consideração sobre “JESSICA JONES (PARTE 2)”

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