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Relembrando “Super 8”

O “testamento” de J.J. Abrams.

Semana que vem vou publicar a entrevista inédita que fiz alguns dias atrás com J.J. Abrams, o cara que em 17 de dezembro vai lançar um filminho independente chamado Star Wars: O Despertar da Força. Achei que valia a pena, então, retornar a Super 8, que ele dirigiu quatro anos atrás e que é uma espécie de testamento cinematográfico – o filme em que J.J. vai garimpar as suas matrizes criativas, e que é possívelmente seu trabalho mais pessoal até aqui. Aliás, não pare na resenha: na sequência tem uma entrevista que ele me deu naquela ocasião.


O tempo que se foi.

Em Super 8, J.J. Abrams ganha envergadura ao relembrar um mundo em que, para uma criança, as chances de se maravilhar pareciam não ter fim.

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As mudanças de atmosfera se sucedem junto com as estações em Super 8: do tom austero em que é mostrado o funeral da mãe do garoto Joe (Joel Courtney), morta em um acidente em uma siderúrgica durante o inverno, ao clima de aventura – quando, meses mais tarde, Joe e seus amigos escapolem de casa em uma noite de verão para rodar um filme de zumbis numa estação de trem abandonada, num descampado de Ohio. Aí, aliás, chega-se perto do intoxicante: é a primeira vez que os meninos saem com uma menina – Alice (Elle Fanning), recrutada como estrela da produção em super-8 e motorista (sem habilitação) da turma. Ao ensaiar sua fala, Alice transporta os garotos: isso então é uma atriz, uma criatura meio mágica que, por força de algum dom indetectável, transforma os diálogos desajeitados escritos pelo “diretor” Charles (Riley Griffiths) em algo real e comovente. Tão inebriados estão todos que nem se dão conta de que o acontecimento verdadeiramente singular dessa noite já tão fabulosa está se armando a poucos metros dali. Enquanto um trem de carga corre na ferrovia (os meninos celebram sua passagem, já que ela proporciona um efeito especial grátis), uma caminhonete corta seu caminho a toda a velocidade, provocando assim um descarrilhamento cataclísmico: com o impacto, a locomotiva salta dos trilhos, freando toda a composição e atirando-a para o alto. Chovem vagões, literalmente, enquanto as crianças correm para lá e para cá, aterrorizadas, tentando se esquivar dos blocos de ferro retorcido que caem do céu. A cena é um feito. Não apenas pela escala e perícia com que é executada, mas porque consegue ser ao mesmo tempo real e hiperreal – verossímil nos detalhes, e também um espetáculo de ruído e fúria como visto pelos olhos de um bando de adolescentes impressionáveis. O fato objetivo que os garotos desconhecem, porém, é que um ser de origem extraterrestre escapou do trem durante o acidente, o que explicará tanto os acontecimentos estranhos que começam a se manifestar na pequena cidade de Lillian – os cães debandam, fornos de microondas desaparecem das casas, indivíduos olham apavorados para algo e então não se ouve mais falar deles – quanto a presença em peso, ali, de sinistras divisões do Exército.

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Super 8 não é apenas um filme ambientado nos anos 70 (precisamente em 1979, e portanto logo às vésperas do choque de autoconfiança promovido nos Estados Unidos por Ronald Reagan). Ele tem o espírito do cinema daquela década. Ainda que seu enredo sugira escapismo, é um filme que está sincera e empenhadamente à procura de um nexo. É memorialismo a serviço não da mera nostalgia, mas da arqueologia, por assim dizer: quer saber de onde nascem a imaginação, as amizades, o caráter, os homens – e os cineastas. Guardando-se as devidas proporções, Super 8 está para J.J. Abrams como 8 1/2 estava para Fellini: é uma busca pela matriz interior da criação. Fellini, por certo, formou essa matriz em um período decisivo da história, da juventude na Itália do entreguerras à maturidade entre o hedonismo e a desilusão do pós-guerra. Abrams, nascido em 1966, filho de um prolífico produtor de TV, forjou a sua em condições menos momentosas, mas que têm muito a dizer aos dias de hoje – num período de transformação atordoante do cinema em que, de um lado, se dava a revelação de autores ousados como Martin Scorsese e Francis Ford Coppola, que reconfigurariam a narrativa dramática; de outro, jovens como George Lucas e Steven Spielberg reinventavam o cinema de entretenimento com Guerra nas Estrelas e Tubarão. Ambas as correntes, em seu progresso, moldariam muito do cinema que se faz hoje – e a sensibilidade de diretores como o próprio J.J. Abrams.

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Essa palpitação, essa sensação de que se está à beira do novo que logo se revelará, é palpável em Super 8. Em parte, devem-se à presença na produção de Steven Spielberg a insistência no uso de efeitos reais sempre que possível e o contraste que marca a vida de Joe e Alice – dentro de casa, eles experimentam dor e incomunicabilidade; mas, na rua, parecem infinitas as chances de uma criança se maravilhar. Enfatize-se “na rua”: Abrams, como se vê pelos efeitos especiais de Missão: Impossível – III, Star Trek e Super 8, é um usuário entusiasmado da tecnologia. Mas aqui, dirigindo pela primeira vez um roteiro de sua autoria, não economiza uma única oportunidade de pôr seus personagens para andar por aí. Visitando-se nas casas uns dos outros, correndo de bicicleta ou de carro furtivamente emprestado do pai pelos subúrbios de Lillian – e até por seus subterrâneos –, essas crianças estão em movimento constante. Nem uma paradinha sequer para jogar um game ou digitar um torpedo no celular. Que, abençoadamente, nem mesmo existiam. Explica-se esse juízo tão positivo sobre o passado: o que Abrams quer evocar aqui são as virtudes da insegurança juvenil que não tem rede social atrás da qual se esconder, da aflição de ter de esperar pelas coisas ou correr atrás delas, de dispor de recursos na melhor das hipóteses rudimentares. Não como benesses em si, mas como circunstâncias que estão mais a passo com o ritmo da imaginação humana e do amadurecimento do que as demasiado rápidas ferramentas do presente digital. “Eu as uso, claro. Mas não foi com elas que aprendi a saborear o processo de fazer filmes ou mesmo de viver o dia a dia. Isso, quem me ensinou foram a minha infância e adolescência tão antiquadas”, brincou o diretor em entrevista a VEJA. Com as quais ele aprendeu a fazer um cinema que lembra, sim, o de Spielberg. Mas que, em Super 8, ganha estatura e envergadura e se comprova inteiramente seu – franco, direto e aberto e, não menos essencial, empolgante.


Entrevista


“Voltei ao meu passado.”

J.J. Abrams falou a VEJA sobre dirigir crianças, e sobre a impaciência dos adolescentes de hoje.

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J.J. Abrams e Elle Fanning

Quanto da sua história pessoal há em Super 8?

Acho que é o mais próximo que chegarei de um roteiro autobiográfico. A história, os personagens, o jeito como eles vivem – fui um desses garotos, e tudo neste filme me é muito familiar. À parte a aparição do extraterrestre, claro. Esta, poderíamos definir como um desejo: não seria o máximo se, num dos verões em que eu fazia meus filminhos super-8, algo assim tivesse acontecido?

Qual o segredo para recrutar atores tão jovens?

Diz a regra que crianças devem ser parecidas com seus personagens. Mas veja o caso de Riley Griffiths: ele não tem nada de mandão como seu personagem, o “cineasta” Charles. O essencial era que os garotos ficassem amigos fora de cena, para que essa sensação fosse transportada para a ação.

Alice é a personagem em torno da qual os meninos gravitam. Era importante que ela fosse vivida por uma atriz experimentada, como Elle Fanning?

Relutei em testar Elle porque ela era experimentada, e porque seria uma menina de 12 anos fazendo uma de 14 – um abismo de diferença, nessa idade. Mas o fato é que Elle não é mais madura só do que os meninos; é mais madura do que eu.

No que seu passado na TV, com séries como Felicity, Alias e Lost, o ajuda nos filmes?

No ritmo: no cinema, filma-se meia página de roteiro por dia; na TV, vinte. Esse treino de fazer com que as coisas avancem e o ímpeto da história não se perca é, para mim, a lição mais valiosa dos seriados. Mas fico meio chateado quando dizem que meus filmes têm um quê de televisão. Não acho que seja verdade. Aliás, sempre tentei fazer com que meus programas de TV não parecessem programas de TV.

Há uma nostalgia marcante em Super 8.

Esperar dias para um filme voltar da revelação, ter de usar a cabeça para bolar um efeito especial baratinho, andar até a casa de um amigo para falar com ele – para mim, esses são emblemas de algo que, para esta geração, se perdeu: a capacidade de saborear o fazer. Sou um fã de tecnologia, obviamente. Mas essa impaciência maluca da criançada de hoje por resultados instantâneos impede que eles tenham um envolvimento emocional com suas tarefas e interesses. Super 8 foi, para mim, uma chance de reviver esse outro mundo, com seu outro ritmo. E posso estar enganado, mas acho que meu elenco também adorou a experiência.

Isabela Boscov
Publicado originalmente na revista VEJA no dia 10/08/2011
Republicado sob autorização de Abril Comunicações S.A
© Abril Comunicações S.A., 2011

Trailer


SUPER 8
Estados Unidos, 2011
Direção: J.J. Abrams
Com Joel Courtney, Elle Fanning, Riley Griffiths, Kyle Chandler, Ron Eldard, Ryan Lee, Zach Mills, Jessica Tuck, Joel McKinnon Miller, Noah Emmerich, Bruce Greenwood

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