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Um Remake de O Exorcista?

Isso é pecado.

Na quinta-feira 24 de setembro, o Deadline Hollywood noticiou que a produtora Morgan Creek estava “debatendo ideias” para uma refilmagem de O Exorcista.

William Friedkin, o diretor do terror magnífico, insuperável e acachapante de 1973, está com 80 anos, mas foi rapidíssimo no gatilho: imediatamente tuitou que a Morgan Creek não tem direitos sobre O Exorcista, só sobre suas “assim chamadas continuações”. Como ninguém quer remake de idiotices como O Exorcista II – O Herege (1977) ou O Exorcista III (1990), fica assim enterrada – espera-se – a ideia diabólica de mexer com um filme perfeito. Isso só o próprio Friedkin teria o direito de fazer – como de fato fez, em 2001, adicionando alguns retoques muito sutis e criteriosos ao corte original em sua Versão do Diretor.

Por que O Exorcista é tão bom? Leia na resenha abaixo, que eu publiquei quando o filme foi relançado nos cinemas em 2001.


Como o diabo gosta.

Quase trinta anos depois, O Exorcista volta, com vômito verde, cenas adicionais e tão apavorante quanto antes

Na história não do cinema, mas da platéia, nunca houve um caso como o de O Exorcista. Lançado nos Estados Unidos na última semana de 1973, o filme foi recebido desde o primeiro dia com filas que se estendiam por quarteirões e numerosos relatos de crises nervosas durante a projeção. Em várias cidades americanas em que era exibido, padres e psiquiatras registravam movimento acima do normal em suas igrejas e consultórios, na maioria de pessoas que se acreditavam possuídas – como a protagonista Regan (interpretada pela menina Linda Blair), que, tomada pelo demônio, proferia obscenidades, lançava jatos de vômito sobre um sacerdote e se masturbava com um crucifixo. Foi um fenômeno de tais proporções que revistas como Time e Newsweek dedicaram reportagens extensas a ele. No Brasil, em 1974, o fenômeno se repetiu, embora parte do público reagisse com risadas e apupos. Naquela época, contudo, violência, sensacionalismo e vômito verde não eram artigos tão corriqueiros no cinema quanto agora, o que explica em parte essa reação extrema ao filme do diretor William Friedkin. Mas quem, hoje, seria capaz de se assustar com ele? Pois bem. Assista a O Exorcista – Versão do Diretor (The Exorcist – Director’s Cut, Estados Unidos, 1973/2000), que estréia nesta sexta-feira no país, e tente escapar incólume. Com quase trinta anos de idade, a fita ainda tem poucos rivais em sua capacidade de subjugar a platéia. Não pelo choque, como se alardeava antes, mas pelo medo puro e simples – ainda mais acentuado pelas mudanças feitas para esta reedição por insistência do escritor William Peter Blatty, autor do livro e do roteiro (pelo qual ganhou o Oscar).

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Os onze minutos adicionais do novo O Exorcista reforçam o teor religioso da história e incluem uma cena pavorosa, que havia sido descartada da montagem original: aquela em que a menina Regan desce uma escada de quatro e de costas, como uma aranha. Por um momento, a sensação que se tem é de um mundo virado do avesso. Outras cenas ganharam retoques, como a perambulação da mãe de Regan pela casa sem notar que as paredes e as superfícies dos objetos refletem sutilmente a silhueta do demônio. Também o desfecho foi modificado, para que não restem dúvidas sobre a vitória divina.

O Exorcista foi, de certa forma, vítima de seu próprio sucesso. Muito de sua fama veio de cenas que, pela novidade, arrepiavam as platéias dos anos 70 – como as seqüências que mostram o rosto de Linda Blair (então com 14 anos) monstruosamente deformado pela possessão, ou em que sua cabeça perpetra giros de 360 graus. Com efeitos especiais que hoje parecem rudimentares e apelativos, essas cenas, de fato, já passaram do prazo de validade. Mas elas são poucas e se concentram no terço final da fita. Quase todo O Exorcista é costurado de um tecido muito mais duradouro: a sugestão. Desde o primeiro minuto, o espectador tem a sensação de que uma irrupção do mal é iminente. É essa expectativa, somada ao despreparo dos personagens para lidar com algo tão poderoso, que torna o filme aterrador.

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Admirador do cinéma-vérité, ou cinema-verdade, o diretor William Friedkin aplicou a O Exorcista uma linguagem quase documental que lembra muito a de seu trabalho anterior, Operação França (ganhador do Oscar de 1972). O efeito é angustiante, especialmente para o público moderno, que se habituou a ver histórias de terror filmadas como se fossem peças publicitárias. Esse tom é estabelecido já no espetacular prólogo, em que o padre Merrin (o magnífico ator sueco Max von Sydow) acha uma representação primitiva de um demônio durante uma escavação arqueológica no Iraque. Trata-se, na verdade, do tipo de reencontro que seria copiado à exaustão em obras do gênero: Merrin e o mal já se conhecem de perto. Ao mesmo tempo, nos Estados Unidos, a pré-adolescente Regan, até então uma garota alegre e tranqüila, começa a manifestar sintomas estranhos. Diz profanidades, mostra-se ora agressiva, ora retraída, reclama que sua cama chacoalha durante a noite. Perplexa, sua mãe (Ellen Burstyn) a conduz por um verdadeiro périplo clínico. Os sintomas só se agravam, e os médicos desistem. Regan é caso para um exorcista, sugerem, nem que seja pelo valor simbólico do ritual. O primeiro convocado é o padre Karras (papel do premiado dramaturgo Jason Miller), um jesuíta que atravessa uma crise de fé – da qual será tirado pela serenidade do padre Merrin, que o auxilia na tarefa, e por seu próprio encontro com o demônio. Pode parecer paradoxal, mas, ao menos do ponto de vista do dogma, a lógica é irretocável: admitir que o mal existe e deve ser combatido significa também reconhecer o poder maior de Deus.

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Parte da mística de O Exorcista está no fato de que o autor, William Peter Blatty, afirma ter se baseado nos diários de um padre encarregado de um dificílimo caso de exorcismo em 1949, e diz que pouco acrescentou ao relato original. Mas a habilidade do diretor William Friedkin e a competência do elenco garantem que o nível de tensão permaneça alto também entre os céticos. Ao final, o filme se revela ainda melhor do que se supunha à época. Teve efeitos nocivos, sim, mas eles são bem diversos do que imaginavam seus detratores: se O Exorcista tem uma culpa, é a de ter associado irremediavelmente choque a entretenimento. E esse é um espírito que reza brava nenhuma consegue expulsar de Hollywood.

Isabela Boscov
Publicado originalmente na revista VEJA em 28/02/2001

2 comentários em “Um Remake de O Exorcista?”

  1. clássico absoluto! direção e atores maravilhosos, além da maquiagem que faz história até hoje. É incrível que os filmes atuais de horror já nem conseguem assustar e mesmo chocar! A vida real é bem mais assustadora.

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