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Narcos

Coca-Cola ou Cueca-Cuela, que importa?

É a isso que se chama um factoide: tanta coisa que se poderia dizer sobre Narcos, a série dirigida por José Padilha para o Netflix, e foram encasquetar com o sotaque do Wagner Moura – que ótimo não é, mas certamente também não é tão ruim assim que possa levar à desconcentração os espectadores que não são falantes do espanhol.

Que ele tenha virado polêmica aqui, onde pouquíssimas pessoas escolhem aprender um espanhol correto como segunda língua (ou terceira, ou quarta, ou quinta) e preferem ir de portunhol mesmo, é quase surrealismo. Estou com o Sensacionalista: a pesquisa deles é de araque, mas se fizessem uma de verdade provavelmente daria um resultado parecido – 90% das pessoas que criticam o sotaque de Wagner Moura pedem uma Cueca-Cuela.

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A questão é, afora os tropeços nos fonemas, Wagner é um bom Pablo Escobar ou não? Na versão de Padilha e Wagner, o colombiano de família pobre que na virada da década de 70 para a de 80 idealizou o tráfico de cocaína em massa para os Estados Unidos e antes dos 30 anos já era bilionário é uma espécie de Macbeth: quanto mais mal perpetra e mais poder acumula, mais mal se descobre capaz de perpetrar, e menos o poder que já acumulou o satisfaz. Este Escobar é um personagem quase simbólico – o homem que é um desconhecido para si mesmo, atormentado por uma infinidade de injustiças e rancores reais ou imaginados que nada pode apaziguar, e que na sua própria mitologia não é um criminoso, mas sim um redentor. A crueldade, a truculência e a inclemência, as centenas de assassinatos, são o que ele tem em comum com outros traficantes; o que o distingue, e o tornou infinitamente mais perigoso, é esse complexo messiânico – além do senso de agravo pessoal com que ele encara a perseguição de parte das autoridades colombianas (a parte que ele não conseguira comprar) e da DEA, a agencia americana de repressão às drogas.

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E aí está o contraponto de Padilha à excelente interpretação de Wagner Moura: Narcos é sobretudo a história de como dois agentes da DEA na Colômbia, Steve Murphy (Boyd Holbrook) e Javier Peña (o ótimo Pedro Pascal, que foi o Oberyn Martell de Game of Thrones), se deram conta da existência de Escobar e de seu império crescente e, com a colaboração do coronel Horatio Carillo (Maurice Compte), empreenderam a ele uma perseguição que se estendeu por anos. Dirigindo com sua energia e fluência habituais, e tirando ótimo proveito da narração em voice over de Murphy (recurso que tomou emprestado de Os Bons Companheiros e Cassino, ambos de Martin Scorsese), Padilha vai fazendo uma crônica dos primórdios do tráfico e de sua expansão, e alargando os limites da narrativa a cada episódio. Lá pela metade, a insolência de Escobar, e seu impacto sobre a Colômbia, já atingiram o inacreditável. Suspeito que o intuito de Padilha não seja apenas recriar essa história, mas também mostrar como a corrupção e um poder espúrio podem dominar todo um país e se imiscuir em todas as suas instituições e, ainda assim, serem erradicados um dia pela determinação de um grupo que não se deixa corromper nem intimidar. Ou vai ver que isso é o que eu, esperançosamente, estou vendo em Narcos.

6 comentários em “Narcos”

  1. Eu moro na Colômbia há um ano dando aula de português. Aqui todo o mundo fala mal da atuação do Wagner, que não dá pra levar a sério. E eu até entendo, porque realmente depois de André Parra fazendo o Escobar em “O Patrão do Mal”, ia ficar difícil.

    Mas veja só, hoje eu passei o filme “Saneamento Básico” para um dos meus grupos de alunos. Quando disse que o ator do filme era o mesmo que fazia o Pablo de “Narcos”, eles quase não acreditaram. Foi então que um aluno – para a minha surpresa – falou que gostou da muito da atuação do Wagner na série, mesmo tendo sotaque gringo.

    Então realmente, se tem até colombiano elogiando… Acho que a gente brasileiro tá exigindo demais.

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    1. Uziel, tudo bem? É você quem está dando essa força para a minha audiência aí? Notei que ando tendo várias visualizações na Colômbia. Muito feliz com isso. Diga aos seus amigos e alunos colombianos que admiro muito a guinada que eles conseguiram dar no país — e peça para eles tentarem ver Narcos com um outro olhar. Sei que a interpretação do Andrés Parra como Escobar foi monumental, mas duas coisas diferentes podem ser igualmente boas…
      E adorei seu comentário sobre minha voz!!! É que você só me ouviu falando, nunca cantando. Aí ia mudar de opinião rapidinho. Mas você tem toda razão: a qualidade da produção dos vídeos não é o mais importante. Vou começar a fazer com webcam mesmo, e pronto. Faço então uma promessa, porque assim me obrigo a cumpri-la: semana que vem já vai ter vídeo novo no blog. Pode conferir.
      Um grande abraço.

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      1. Ótimo, estarei no aguardo. Inclusive, tirei um tempo para fazer um post no meu blog de ontem para hoje sobre você intitulado: Isabela Boscov – A Reinvenção de uma Crítica.

        Tudo o que eu falei em relação a sua influência é verdade. Até o início do mestrado você era a única crítica que eu lia religiosamente, embora não tivesse percebido.
        http://www.uziporai.com.br/2015/10/cinema-isabela-boscov-a-reinvencao-de-uma-critica.html

        Já vinha pensando em fazer um artigo sobre você, contando tudo isso, desde que li um post na net lhe criticando pelo “B de Bobagem” rsrsrs. Aí agora saiu.

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  2. A série é excelente, que não é só sobre a vida de Escobar, mas também funciona como objeto de estudo para entendermos a política daquele país e a geopolítica em geral. Muita gente criticou o espanhol de Moura. Embora deixe a desejar, não incomoda em nada a degustação para esse grande filme de 10 horas. Muito recomendada!

    Curtido por 1 pessoa

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