Um senhor filme

O Senhor dos Anéis é uma fantasia que faz jus à obra que lhe deu origem

Essa é nova: a Nova Zelândia agora tem um ministro de O Senhor dos Anéis. Pode parecer piada, mas o trabalho de Pete Hodgson, que acumula a nova pasta à de Ciência e Tecnologia, não é brincadeira. Sua incumbência é transformar uma trilogia de filmes rodada nas paisagens deslumbrantes de seu país em chamariz para o turismo e investimentos estrangeiros. O Senhor dos Anéis, que reúne os três volumes da saga publicada pelo inglês J.R.R. Tolkien entre 1954 e 1955, é um assunto tratado com rigor não só pelo governo neozelandês. É sério para a sua legião de fãs, que já compraram mais de 150 milhões de exemplares dos livros em todo o mundo. É sério para os descendentes do escritor, que vivem uma crise por discordar da adaptação de sua obra para o cinema. E é seriíssimo também para o diretor neozelandês Peter Jackson, de 40 anos, que passou os últimos quatro imerso na tarefa de transportar para as telas o mundo imaginário de Tolkien. Jackson pode se sentir recompensado. O primeiro capítulo da trilogia, O Senhor dos Anéis – A Sociedade do Anel, consegue aquilo que era tido como inalcançável: honrar o universo de Tolkien e se sustentar sobre os próprios pés. Desde já, o filme é candidato a destronar a série Guerra nas Estrelas do posto de franquia mais rentável da história.

A Sociedade do Anel não é um filme perfeito, mas talvez seja o mais próximo que se possa chegar disso com um material tão complexo em jogo. Tolkien, que era professor de linguística na Universidade de Oxford, lançou em 1937 um livro infantil chamado O Hobbit. O título se refere a uma espécie inventada pelo escritor, de homenzinhos de 1 metro de altura e pés peludos. Os hobbits gostam de cultivar a terra do seu condado e amam a boa mesa, mas têm aversão ao imprevisto. A exceção é Bilbo Bolseiro que, incentivado pelo mago Gandalf, se aventura pela Terra Média – um mundo no qual vivem povos como os imortais elfos e os medonhos orcs. No meio do caminho, Bilbo se apodera de um anel de ouro que torna invisível quem o usa. O Hobbit foi um sucesso, e Tolkien o sucedeu com a trilogia. Mas mudou radicalmente de tom. O Senhor dos Anéis nada tem de infantil. É o que se chama de uma saga heróica, na linha dos mitos nórdicos. Nela revela-se que o anel é o instrumento no qual o senhor das trevas, Sauron, concentrou toda a sua malignidade. Para reconquistar a Terra Média, ele precisa reaver seu tesouro – e é a missão de Frodo, o jovem primo de Bilbo, destruir o anel, levando-o até o inferno onde Sauron mora. Todas as forças do mal se levantam contra Frodo. A seu lado, ele tem os povos que ainda resistem às sombras. É a Sociedade do Anel, formada pelo elfo Legolas, os homens Aragorn e Boromir, o anão Gimli, o mago Gandalf e outros três hobbits.

O que torna O Senhor dos Anéis ímpar é a minúcia com que Tolkien descreve a Terra Média. O autor detalhou seu relevo em mapas, inventou espécies de árvores, elaborou toda a sua história pregressa e criou línguas para seus povos. Há fãs que falam élfico, e alguns deles foram recrutados por Jackson para treinar os atores no idioma. Esse era o desafio do diretor: materializar um mundo que muitos fãs conhecem melhor do que o seu próprio e comprimir 1 200 páginas de história num roteiro que fizesse sentido. Para tanto, Jackson comandou uma operação de guerra a partir de seu quartel-general em Wellington, na Nova Zelândia. Sua primeira decisão foi rodar os três filmes (os próximos estreiam em 2002 e 2003) ao mesmo tempo, para extrair o máximo dos 300 milhões de dólares bancados pela produtora New Line. É uma montanha de dinheiro. “Mas ela seria duas vezes mais alta se tivéssemos feito os filmes separadamente, ou em outro lugar que não a Nova Zelândia”, disse Jackson a VEJA.

A tarefa de Jackson revelou-se, é óbvio, exaustiva. Mais de 100 locações foram usadas em dezoito meses de filmagem, e convocaram-se 20.000 figurantes. Vários eram soldados neozelandeses, que receberam cursos de arco-e-flecha. Hortas e jardins foram plantados com um ano de antecedência, para parecer naturais. Enquanto alguns técnicos elaboravam softwares capazes de comandar milhares de figuras numa mesma cena, outros tinham de aprender a forjar espadas com técnicas medievais. De perspectivas forçadas a miniaturizações em computador, bolaram-se dezenas de truques para que os hobbits parecessem pequenos. O elenco também está muito acima da média do habitual nesse tipo de produção. Intérpretes como Ian McKellen, Viggo Mortensen, Elijah Wood e Cate Blanchett  tiram de letra a prosa formal de Tolkien e oferecem atuações que vão do bom ao excelente. Há até uma coincidência oportuna: Christopher Lee, que faz o pérfido mago Saruman, está a cara de Ahmed Yassin, o líder do grupo terrorista islâmico Hamas.

A equipe de Jackson jura que nunca trabalhou tanto na vida – mas frisa que ninguém se esfalfou mais do que o diretor. O neozelandês perdeu o pai e a mãe durante as filmagens. Esse fato, contudo, não o deteve. Acabou cumprindo quase tudo aquilo a que se havia proposto. Dos campos do Condado às cenas de batalhas, em que multidões de orcs, elfos e homens se enfrentam, as imagens de A Sociedade do Anel são estarrecedoras. Há sequências arrepiantes, como aquela em que a sociedade atravessa uma montanha por dentro. Nem sempre, é verdade, Jackson consegue atingir a intensidade dramática que a história pede. Certos trechos deixam a sensação de que algo ficou faltando. Sorte dos espectadores que não conhecem Tolkien: sem ter na memória as emoções provocadas pelo livro, eles se empolgam com mais facilidade. E, sim, o enredo é perfeitamente inteligível para quem nunca leu o autor.

A fantasia, claro, não é um gênero de paladar universal, como demonstra a polêmica que cerca a obra de Tolkien. Desde sua publicação, ela conta com defensores ferrenhos – como o poeta inglês W.H. Auden – e um número proporcional de pessoas que a consideram insuportável. Mas não há como negar sua influência. Tolkien, que morreu em 1973, não era só um conhecedor da literatura nórdica. Era um católico devoto. Sua fé tumultuou seu casamento, já que sua mulher nunca a abraçou como ele esperava. Mas dirigiu também seus interesses e amizades – ele fundou um grupo de intelectuais católicos em Oxford e converteu o amigo C.S. Lewis, autor de outra fantasia, Crônicas de Nárnia. Em seus escritos, Tolkien procurou conciliar o cristianismo com seu oposto: o caráter pagão e animista dos velhos mitos. O impacto foi inacreditável. De Guerra nas Estrelas aos livros de Harry Potter, é seguro afirmar que a maior parte da fantasia sobre as lutas entre o Bem e o Mal que se produziu nas últimas décadas é filhote do escritor inglês. Agora, graças ao empenho do diretor Peter Jackson, Tolkien está prestes a romper a fronteira que lhe restava: a do cinema.

Publicado originalmente em VEJA de 19 de Dezembro de 2001

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