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007 – O Mundo Não É o Bastante

Garotas, cheguei.

James Bond ainda vive perigosamente, mas seu alvo agora é o público jovem.

Duas lanchas cruzam em velocidade vertiginosa o Rio Tâmisa, em Londres. Numa delas vai uma morena embalada numa roupa justíssima, quase tão letal quanto sua metralhadora. Na outra, que mergulha sob pontes e atravessa ruas inteiras (sobre o asfalto, note-se), segue o único homem do mundo capaz de, numa situação dessas, lembrar de ajeitar o nó da gravata. Bond, James Bond, é claro. Certas coisas são sagradas para o mais célebre agente secreto do cinema. Como os ternos bem cortados, as mulheres fogosas, a fleuma britânica e as espetaculares seqüências de abertura de seus filmes. Mas o mundo já não é o mesmo de 1962, quando a série foi lançada e a Guerra Fria fornecia um sem-fim de tramas e vilões para as fitas de espionagem. O agente 007, portanto, também teve de mudar. A prova está em sua 19ª aventura, O Mundo Não É o Bastante (The World Is Not Enough, Estados Unidos/Inglaterra, 1999).

Até 1995, quando o irlandês Pierce Brosnan passou a envergar o smoking de 007, a série agonizava. As bilheterias não paravam de despencar. O antecessor de Brosnan, o inglês Timothy Dalton, mais parecia um zumbi do que um tira com licença para matar. O personagem andava até se apaixonando – falha imperdoável num mulherengo convicto. Foi quando o estúdio MGM decidiu fazer uma cirurgia de emergência em Bond. Deu certo. Em 007 Contra Goldeneye, ele emergiu com fôlego para enfrentar o irrequieto público jovem que, hoje em dia, faz a fortuna de Hollywood. O Mundo Não É o Bastante é a terceira aventura dessa nova fase. Antes de as filmagens começarem, cogitou-se até colocar o agente sobre um snowboard (espécie de prancha de skate para deslizar sobre a neve) numa cena de perseguição. A idéia foi abandonada, mas lançaram-se outras iscas para a garotada. A mais notável é a presença da atriz Denise Richards, popular entre os adolescentes americanos, no papel da cientista nuclear Christmas Jones. Não dá para levar a personagem a sério, mas a platéia delira com a estampa da moça. Trabalhando no Azerbaijão, no meio de um monte de brucutus, ela veste top curtinho e bermudas agarradas.

O estúdio mexeu até nos símbolos mais duradouros de Bond: aquelas famosas traquitanas com que o agente dribla seus inimigos já não têm o destaque de antes. Só um problema não foi resolvido: os vilões. Embora tenham ficado mais jovens, parecem bandidos comuns, e não aqueles gênios do mal de antigamente. Robert Carlyle, de Ou Tudo ou Nada, interpreta um terrorista que tem uma bala alojada na cabeça, o que o torna imune à dor. A francesa Sophie Marceau, que fez sucesso no Coração Valente de Mel Gibson, vive a outra garota da trama. As mudanças nos filmes de James Bond vêm se refletindo nas bilheterias. O Mundo Não É o Bastante deve se tornar o mais rentável da série, que já faturou 3 bilhões de dólares no mundo. Curiosamente, a reforma ajudou Bond a reencontrar sua identidade original, a de um boa-vida inteligente e sedutor.

Isabela Boscov
Publicado originalmente na revista VEJA no dia 22/12/1999
Republicado sob autorização de Abril Comunicações S.A
© Abril Comunicações S.A., 2015

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