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O Sexto Sentido

“Eu vejo mortos”.

Um garoto atormentado por fantasmas é o pivô de um suspense de arrepiar gente grande.

Imagine como seria enxergar fantasmas em cada canto, a qualquer hora, até nas situações mais prosaicas. Numa ida ao banheiro no meio da noite ou no corredor da escola, por exemplo. E que tal se os espectros exibissem todas as mutilações impostas por uma morte violenta? Pior que isso só se a vítima dessas visões fosse uma criança, tão atemorizada por elas quanto pela idéia de revelar sua existência e passar por louca. Pois é com essa idéia central que O Sexto Sentido se tornou um dos sucessos mais surpreendentes da temporada. Mais do que a presença do astro Bruce Willis, o que garante o interesse aqui é o roteiro bem amarrado, capaz de driblar as expectativas até de um escolado fã de suspense. No filme, Willis interpreta um psicólogo infantil. Ele tenta se livrar da culpa provocada pelo suicídio de um paciente tratando de outro muito parecido, o garoto Cole (vivido pelo talentoso ator mirim Haley Joel Osment). Cole é tido como um esquisitão incapaz de se relacionar socialmente. A causa de seu sofrimento, porém, é inesperada. “Eu vejo pessoas mortas”, anuncia o garoto ao terapeuta.

Essa não é, nem de longe, a revelação mais desconcertante de O Sexto Sentido. Amparada pelos ótimos desempenhos do elenco, a fita ganha a platéia ao lhe pregar sustos genuínos, mas sem perder de vista o aspecto humano da trama, a solidão repleta de sobressaltos em que vive Cole. Acima de tudo, o filme mexe com um tema que cada vez mais seduz Hollywood: a vida após a morte. E, em especial, quanto ela pode influir sobre o plano terreno, para usar um termo alinhado com essa inspiração kardecista que vem tomando os roteiros. Foi-se o tempo em que morrer, no cinema, era um ato absoluto, tão irrevogável que valia a pena destacar um anjo para demover um sujeito do propósito de se suicidar, como no clássico A Felicidade Não Se Compra, de 1946, dirigido por Frank Capra. Desde que Warren Beatty foi capaz de convencer Deus a mandar seu espírito de volta à terra num outro corpo, para resolver suas pendengas e se apaixonar novamente, em O Céu Pode Esperar, de 1978, a finitude deixou de ser um obstáculo. Casais separados pela morte voltam a ser reunidos por ela, como em Coração Valente e Titanic. Maridos compreensivos dão uma mãozinha, mesmo que do lado de lá, para achar um novo namorado para a esposa – caso de Além da Eternidade, de Steven Spielberg. Os parceiros podem até decidir reencarnar para dar um bis no romance, como em Amor Além da Vida, com Robin Williams. É um exagero semelhante ao proposto por Ghost, em que Demi Moore e Patrick Swayze, ela viva e ele morto, usufruíam o prazer de um beijo bem carnal. É como se, depois de ter conquistado todas as riquezas terrenas imagináveis, os americanos andassem ansiosos por realizar suas ambições materialistas também no além-túmulo.

Nem todo mundo sucumbe a essa visão romanceada da morte. No ótimo Alucinações do Passado, o protagonista vivido por Tim Robbins enfrenta destemperos emocionais terríveis, que julga estarem associados a sua passagem pela Guerra do Vietnã. Na verdade, ele está morto. Mas não sabe. E é à dura e lenta constatação desse fato, no melhor estilo espiritista, que se dedica o filme. Também O Sexto Sentido segue essa linha mais sóbria e, por assim dizer, realista: conviver com quem já morreu pode ser tudo, menos uma experiência corriqueira.

Isabela Boscov
Publicado originalmente na revista VEJA no dia 20/10/1999
Republicado sob autorização de Abril Comunicações S.A
© Abril Comunicações S.A., 1999

O Além é legal.

Em apenas vinte dias de encarnação no Brasil, O Sexto Sentido é um fenômeno de público.

Não tem nada de sobrenatural, mas ainda assim é um fenômeno. Em apenas vinte dias em cartaz no Brasil, o suspense O Sexto Sentido, aquele em que um menino vê pessoas mortas, já se tornou o quarto maior sucesso deste ano no país. Desde sua estréia, a fita estrelada por Bruce Willis e pelo garoto Haley Joel Osment já atraiu quase 2,5 milhões de espectadores. Perde por menos de 60.000 pessoas do terceiro colocado, a aventura A Múmia, que está quase no final de sua carreira por aqui. Esse resultado põe O Sexto Sentido no páreo pelo posto de campeão de público quando os resultados finais de 1999 forem contabilizados, depois de 31 de dezembro. Afinal, apesar do 1 milhão de espectadores que ainda o separa do atual ganhador — sim, ele mesmo, Star Wars: Episódio 1 — A Ameaça Fantasma, esse suspense de tons kardecistas tem o calendário a seu favor. A aventura de George Lucas não está mais em exibição, enquanto a fita de Willis mal começou a desfrutar sua enorme aceitação no Brasil. Para se ter uma idéia do quão perto dos calcanhares de Star Wars ela caminha, basta comparar. Ao final de seu segundo fim de semana em cartaz no país, o arrasa-quarteirão de Lucas levara 1,6 milhão de espectadores aos cinemas. No mesmo período, O Sexto Sentido reuniu 1,4 milhão de interessados.

Tanto sucesso ecoa a trajetória do filme nos Estados Unidos, onde ele passou cinco fins de semana consecutivos no primeiro lugar da parada (dois a mais que Star Wars) e já amealhou 265 milhões de dólares. Falta muito para alcançar seu rival estelar, que faturou 428 milhões em território americano. Sem falar no campeão de todos os tempos, Titanic, que rendeu 600 milhões por lá. Em comum com eles, a fita tem uma característica que pesa na balança da contabilidade: o dom de estimular o público a vê-la repetidas vezes. Os analistas da indústria de cinema apostam que O Sexto Sentido tem fôlego para romper a barreira dos 300 milhões na bilheteria doméstica e subir no pódio dos dez filmes mais vistos pelos americanos até hoje.

Pelo menos um recorde essa febre já gerou. Aos 29 anos, o indiano M. Night Shyamalan, que assina a direção e a trama de O Sexto Sentido, acaba de se tornar o mais bem pago roteirista de Hollywood. Pelo seu próximo projeto, que também terá Bruce Willis no elenco, ele ganhará 10 milhões de dólares, metade para escrever o filme e a outra metade para dirigi-lo. “Não tenho mesmo do que reclamar”, disse ele a VEJA. Shyamalan não credita seu sucesso à popularidade das teorias espíritas. “É um bom filme, tem um grande astro e um final-surpresa”, analisa ele. “E, acima de tudo, tem personagens bem construídos. Isso é fundamental em qualquer enredo”, ensina. Pode ser, mas que las hay, las hay.

Isabela Boscov
Publicado originalmente na revista VEJA no dia 17/11/1999
Republicado sob autorização de Abril Comunicações S.A
© Abril Comunicações S.A., 1999

O SEXTO SENTIDO
(The Sixth Sense)
Estados Unidos, 1999
Direção: M. Night Shyamalan
Com Bruce Willis, Haley Joel Osment, Toni Collette, Olivia Williams, Trevor Morgan, Donnie Wahlberg

Uma consideração sobre “O Sexto Sentido”

  1. Excelente crítica Isabela! O sexto sentido foi um marco nos filmes de suspense/terror. É um filme impressionante, envolvente e o final surpreendente. Ninguém esperava aquele desfecho. Muito boa atuação de Bruce Willis e do jovem Haley Joel Osment. Recomendado!

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